FOTO BELA FILMES DISTRIBUIDORA
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Livro detalha trajetória de Helena Ignez como atriz do cinema independente

‘Helena Ignez: Atriz Experimental’ é relato biográfico da Musa do Cinema Novo que, aos 82 anos, estreia em peça sobre Lorca

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 15h00

A atriz Helena Ignez, de 82 anos, perambulou nas últimas semanas por vários cantos de São Paulo na pele de uma andarilha para as filmagens de L.O.R.C.A. – híbrido de cinema e teatro online que será lançado em novembro. O projeto do diretor André Guerreiro Lopes, inspirado em poemas do espanhol Federico García Lorca, teve cenas rodadas na Avenida Paulista, na Praça da Sé e na Vila Brasilândia e, em meio aos outros atores, como Djin Sganzerla, Michele Matalon e Samuel Kavalerski, figuram transeuntes em interações registradas pelas câmeras, em um limite tênue entre a performance e o documentário. 

Essa relação espontânea de público e intérpretes faz parte do conceito de corpos societais, método estético empregado pelos cineastas Rogério Sganzerla e Júlio Bressane na maioria dos filmes da Belair, produtora fundada pelos dois em parceria com Helena, que, no início dos anos de 1970, realizou títulos fundamentais do cinema alternativo brasileiro. Este período é o foco do livro Helena Ignez: Atriz Experimental, escrito pelos professores e pesquisadores Pedro Guimarães e Sandro de Oliveira, que analisa a trajetória da artista como coautora das personagens em longas como A Mulher de Todos, Copacabana, Mon Amour, Família do Barulho e Sem Essa, Aranha e referência de interpretação moderna no cinema nacional. O livro terá lançamento no dia 31, na 45ª Mostra Internacional de Cinema.

Da tríade, Bressane-Sganzerla-Ignez, resultaram obras que dispensavam o naturalismo a favor da performance, em que a invenção, as expressões dos atores e as imagens captadas pela lente se sobrepunham aos diálogos do roteiro. “A Belair descaretizou o cinema brasileiro, fizemos filmes envolvidos com a vida das pessoas e pregávamos a necessidade de estabelecer uma comunicação com os outros”, afirma Helena.

O livro faz jus ao título que Helena carrega nas últimas cinco décadas, o de atriz experimental. É o rótulo mais duradouro e aceito com relativa tranquilidade por essa baiana de descendência aristocrática que veio ao mundo em uma família quase falida e bateu pé para firmar a personalidade forte. O teatro logo a afastou do curso de direito tão festejado pelos pais e um casamento precoce como cineasta Glauber Rocha selou o destino de artista e mulher libertária. “Eu tinha uma filha ainda bebê, a Paloma, me entreguei a uma nova paixão que logo acabou e, aos 23 anos, desquitada, precisei virar uma mesa pesada, que me deixou cicatrizes por muito tempo”, relembra.

No Rio de Janeiro, a atriz – que estreara no curta Pátio, de Glauber – despontou em filmes como O Assalto ao Trem Pagador, O Grito da Terra e O Padre e a Moça. “Faço parte da primeira geração de mulheres que ganhou o direito de existir, talvez eu seja a cabeça dessa turma que contou ainda com Adriana Prieto, Leila Diniz, Isabel Ribeiro, Betty Faria”, diz ela, que ficou conhecida como a musa do Cinema Novo. A televisão, nos primórdios da consolidação, também alcançou Helena, que apresentou programas, foi entrevistadora e se testou rapidamente em novelas. “Logo vi que aquele mundo não era para mim, ainda mais depois que a Globo veio e desmontou a história das outras emissoras, assimilando todos os méritos para ela.” 

A virada definitiva para o cinema aconteceu nas filmagens de O Bandido da Luz Vermelha, dirigido por Sganzerla em 1968, que se tornaria seu parceiro artístico e afetivo, pai de suas outras duas filhas, Djin e Sinai, em uma união que prevaleceu até o fim da vida dele, em 2004. “O Rogério foi meu grande incentivador no desejo de romper com tudo, me fazia crescer e estimulava a minha busca pelo diferente”, declara. “Tanto que construímos uma história de 35 anos de amor, em que ele soube entender minhas ausências como exercício de liberdade”, completa Helena, em referência ao período em que se dedicou à vida espiritual, tornando-se monja, nos Estados Unidos, Inglaterra e Índia, nos anos de 1980. 

A marca autoral nas interpretações de Helena, defendida pelos autores do livro, é vista como um processo de evolução. “Empreguei nas personagens tudo o que estava ao meu alcance com naturalidade, como minhas referências literárias e teatrais, o rock que sempre gostei e abracei a modernidade que avançava no mundo com força extraordinária”, explica. A constante reinvenção acompanhou a artista através dos tempos. No final da década de 1990, em uma retomada da carreira, ela recorreu ao teatro e, entre 2003 e 2004, recebeu aplausos na montagem de Os Sete Afluentes do Rio Ota, dirigida por Monique Gardenberg. “Antes de cada coisa se esgotar, eu mudo, procuro uma nova rota”, avisa.

Uma de suas mais surpreendentes reinvenções, porém, se deu como cineasta, e Helena dirigiu, nos últimos quinze anos, entre outros, os filmes Canção de Baal, Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, Ralé e A Moça do Calendário, adaptando a estética marginal que ajudou a criar para os anos 2000. “Eu, como diretora, levo tudo para o lado da performance e, por isso, é que deve dar certo, me rende tanto prazer”, resume. “Gosto do processo de realizar, de ver as ideias consumadas, da prática, uma sensação bem distante da que era enfrentada por Glauber e Rogério, que foram consumidos pelo estado de criação.”

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