Livro detalha a vida de Max Perkins, que incentivou a carreira de Ernest Hemingway

Scott Berg conta como o americano se tornou um grande editor

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2014 | 03h00

“Gostaria de ser um anãozinho no ombro de um grande general, aconselhando-o sobre o que fazer e o que não fazer, sem que ninguém percebesse.” E o americano Max Perkins (1884-1947), autor dessa frase, realmente o foi: editor da Scribners no início do século passado, ele se tornou uma das figuras lendárias do mercado editorial americano ao descobrir e alimentar o talento de escritores luminares como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Thomas Wolfe, Taylor Caldwell, dentre outros.

Ao mesmo tempo, desenvolveu o talento de permanecer invisível, deixando a glória apenas para seus autores. A importância de Perkins é agora revelada por A. Scott Berg, autor de Max Perkins - Um Editor de Gênios, lançado pela Intrínseca. Em um texto sedutor e bem-humorado, Berg detalha não apenas a vida pessoal de Perkins (que manteve um romance platônico com Elizabeth Lemmon), como ainda destrincha as artimanhas usadas pelo editor para incentivar seus autores. Sobre isso, Berg respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Seria Max Perkins um grande enigma da literatura americana? 

Maxwell Perkins é a pessoa mais importante, mas menos conhecida da literatura americana. Como editor, descobriu e revelou F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Thomas Wolfe e dezenas de outros que mudaram o curso da escrita americana. E, como ele foi o seu editor, permaneceu nos bastidores, acreditando que deveria ficar anônimo para não distrair as atenções ou depreciar a reputação dos seus autores. Quando eu estudava em Princeton - que frequentei em grande parte por causa do meu fascínio adolescente por Fitzgerald, que fora para lá -, descobri alguns papéis de Perkins e me convenci de que a história de sua vida era pelo menos tão interessante quanto a de qualquer um dos seus famosos escritores. Então, aos 19 anos, decidi pesquisar sua vida... e “solucionar a charada”.

Perkins acumulou um vasto conhecimento das reações dos autores à crítica. Ele poderia escrever um livro?

Perkins poderia ter escrito um livro, mas achou que não tinha o temperamento - e possivelmente nem o talento - para seguir uma carreira de escritor. Por um breve período, foi repórter do New York Times; entretanto, na realidade, ele queria uma vida mais tranquila, mais regular, e se dedicou à publicação de livros.

O que é um escritor sem um grande editor?

Sem um grande editor, um autor em geral está sozinho. Perkins se deu conta de que o momento em que um autor mais precisa de um editor não é necessariamente aquele em que ele termina um livro, mas os meses e os anos de solidão durante os quais ele se dedica à sua escritura. Nesses períodos, Perkins estava sempre disponível para seus escritores, oferecendo-lhes não apenas conselhos literários, mas também aconselhamento matrimonial, ajuda psicológica e, às vezes, até apoio financeiro.

Seu conhecimento era instintivo?

Embora Perkins tivesse vastas leituras, quando editava livros, seu conhecimento era em grande parte instintivo.

O que os escritores precisam saber sobre a escritura?

Os escritores deveriam ter um amplo conhecimento da escritura - pelo menos o que os outros escreveram. Nenhum de nós escreve no vazio. Acho que ajuda conhecer o que foi escrito antes de nós, e o que está se escrevendo ao nosso redor.

Existe algum editor que se assemelhe a Max hoje em dia?

Hoje em dia, há excelentes editores, alguns deles poderiam rivalizar com Max Perkins. Mas as atuais circunstâncias são muito diferentes e não encorajam mais necessariamente o tipo de trabalho como o de Max Perkins - descobrir escritores e trabalhar com eles ao longo de toda uma carreira, até mesmo em meio aos fracassos. Na realidade, nós não temos o que eles costumavam chamar o “universo da publicação”; nós temos “o negócio do livro”.

Quais qualidades de Max se tornaram indispensáveis na função de editor de livros?

Acho que as qualidades mais importantes para um editor são o amor pela palavra escrita e uma personalidade que permite que ele permaneça nos bastidores. Como Max Perkins costumava dizer: “O livro pertence ao autor”.

O que faz uma grande biografia?

O elemento essencial de uma biografia é contar uma boa história. Não é só fazer muita pesquisa e apresentar uma enorme quantidade de fatos. É preciso contar a história de uma vida de uma maneira convincente, como um romance. E acredito também que uma grande biografia deve iluminar o período em que o sujeito viveu, usando o sujeito como uma espécie de lente através da qual o leitor possa ter uma visão mais ampla do mundo daquela época e da atual.

MAX PERKINS - UM EDITOR DE GÊNIOS

Autor: A. Scott Berg

Tradutora: Regina Lyra

Editora: Intrínseca (544 págs., R$ 44,90 (papel) e R$ 29,90 (e-book)

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