Bernat Armangue/AP
Bernat Armangue/AP

Livro denuncia que mundo projetado por homens coloca mulheres em perigo

'Invisible Women', da feminista Caroline Criado Perez, apresenta lista de complicações (só irritantes ou fatais) resultantes do paradigma de considerar o homem como o gênero padrão

Redação, AFP

08 de março de 2019 | 19h02

Ataques cardíacos mais frequentes e mal diagnosticados, ferimentos graves em acidentes de trânsito: as mulheres estão pagando o preço de um mundo projetado para homens, afirma a ativista feminista britânica Caroline Criado Perez em seu novo livro, Invisible Women (Mulheres Invisíveis, tradução livre).

Lançado esta semana no Reino Unido, o livro proporciona uma lista de complicações, simplesmente irritantes ou potencialmente fatais, resultante do paradigma de considerar o homem como o gênero padrão para a elaboração desta ou daquela norma, um conceito conhecido como "gap de dados de gênero".

Do urbanismo à política, da vida cotidiana ao design, a autora pretende mostrar como o preconceito sexista na sociedade "distorce os dados supostamente objetivos que cada vez mais governam nossas vidas".

"A vida dos homens sempre foi considerada representativa do conjunto de toda a humanidade", diz Caroline Criado Perez, acrescentando que a maioria dos dados registrados na história da humanidade é significativamente carente de informações sobre mulheres.

Invisible Women é "uma apresentação sobre como as desigualdades no processamento de dados estão prejudicando as mulheres", resume a autora.

Em seu livro, ela explica que descobriu que os médicos são mais propensos a erros de diagnóstico em exames de mulheres com problemas cardíacos, especialmente porque seus sintomas - dor de estômago, falta de ar, náusea, cansaço - diferem dos sintomas dos homens e são classificados como "atípicos".

"Eu não pude acreditar", disse ela ao The Sunday Times em uma entrevista recente. "A ciência supostamente é objetiva".

A autora também observa que os sistemas de segurança da maioria dos modelos de carros são projetados usando bonecos de colisão baseados na morfologia de um homem "médio", contribuindo para o fato de que as mulheres têm 47% de risco de serem gravemente feridas em um acidente.

Quanto às mulheres socorristas, elas recebem equipamentos de proteção muitas vezes baseados no tamanho e nas características dos homens, com consequências muitas vezes dramáticas.

O setor de novas tecnologias não é poupado, e a autora toma como exemplo o software de reconhecimento de voz, muito mais inclinado a reconhecer com precisão a voz dos homens, ou telefones celulares, muitas vezes grandes demais para as mãos de muitas mulheres.

"Os designers podem acreditar que fabricam produtos para todos, mas, na realidade, é especialmente para os homens que eles o fazem", lamenta Caroline Criado Perez.

"É hora de começar a pensar em um design para mulheres".

Para Sarah Hawkes, diretora do Centro de Gênero e Saúde Global da University College London, especializada no estudo das desigualdades de gênero, Caroline Criado Perez apontou uma triste realidade histórica: "Há 2.000 anos, o default da medicina é voltado para os homens", declarou à AFP.

O livro de Caroline Criado Perez não é seu primeiro ato militante: a jornalista fez seu nome no Reino Unido depois de uma campanha bem sucedida para que uma mulher fosse colocada nas cédulas britânicas, e também que uma estátua da sufragista Millicent Fawcett fosse erguida em frente ao Parlamento de Westminster em Londres.

A advogada Helena Kennedy, uma influente defensora dos direitos das mulheres no Reino Unido, elogiou o "olhar penetrante" da autora sobre a ausência de mulheres na criação de "mais normas sociais".

"Estes são fatos. A informação é poder, todos nós precisamos saber como nossos sistemas funcionam se quisermos mudar".

Reduzir essas desigualdades exige uma solução clara, enfatiza Caroline Criado Perez.

"Devemos preencher a falta de representação das mulheres".

"Quando as mulheres participam da tomada de decisão - pesquisa, produção de conhecimento - elas não são esquecidas", argumenta.

"A vida e as perspectivas das mulheres sairão das sombras", conclui.

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