Gail Armstrong
O livro 'Childfood – Receitas para Jovens Coolinary Explorers', com ilustração de Gail Armstrong Gail Armstrong

Livro de receitas reúne renomados chefs do mundo para incentivar a criançada na cozinha

'Childfood – Receitas para Jovens Coolinary Explorers' promete aproximar pais e filhos através da gastronomia

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2020 | 09h00

O isolamento social imposto pelo novo coronavírus fez muita gente repensar as relações familiares, sobretudo entre pais e filhos. E o livro Childfood – Receitas para Jovens Coolinary Explorers reúne chefs renomados de todo o mundo, que elaboraram 23 receitas para incentivar as crianças a compartilharem momentos inesquecíveis na cozinha com os adultos. “Todo mundo, mas principalmente as crianças, cresce quando tenta fazer algo diferente. Preparar pratos ajuda a aumentar a atenção aos detalhes, a melhorar a autoestima e a ter momentos de diversão com os pais, irmãos mais velhos ou responsáveis. É muito importante que os pais/responsáveis passem um tempo de qualidade com os filhos, porque os filhos nunca esquecerão esses momentos, nem os pais. Criar na cozinha é uma atividade incrível, então o que é melhor do que cozinhar e compartilhar uma refeição juntos?”, afirma o jornalista italiano Luca Scarcella, autor da obra, em entrevista ao Estadão.

Antes de se tornar jornalista, Lucas Scarcella, de 31 anos, se formou em piano no Conservatório de Turim, na Itália. “Então, aos 22, durante a universidade, comecei a trabalhar como jornalista, usando minhas habilidades e conhecimentos musicais também nesta área. Todo projeto, investigação ou documentário que eu crio é baseado em teoria musical, com melodia, harmonia e ritmo. Por exemplo, você pode encontrar a melodia no Childfood nas receitas. A harmonia é a combinação de histórias e ilustrações. E o ritmo é a parte dos desenhos e das páginas em que as crianças podem liberar sua criatividade”, declara. Ele se mudou para Los Angeles, nos Estados Unidos, no ano passado. “Um dos meus objetivos de vida é abrir um restaurante em Lisboa quando eu for um avô simpático”, brinca. Scarcella sempre teve uma relação de afeto com a gastronomia: “Como italiano, adoro comida. Principalmente adoro compartilhar uma refeição com amigos, cozinhar para eles. Boa comida e boa companhia fazem todos nós felizes”, diz.

Scarcella conseguiu reunir 23 chefs, os chamados ‘Coolinary Explorers’, para estimular as crianças na cozinha. A lista conta com três brasileiro: Bel Coelho, Jefferson Rueda e Guga Rocha. Chefs retratados pela série Chef’s Table, da Netflix, também estão no livro, como o italiano Massimo Bottura, o argentino Francis Mallmann, o peruano Virgilio Martinez, o indiano Gaggan Anand, o russo Vladimir Mukhin, além do colombiano Juan Manuel Barrientos e do espanhol, Andoni Luis Aduriz. As crianças podem conhecer a longa jornada que os ingredientes fizeram ao longo da história, como os astecas, além de apreciar desenhos feitos por 23 ilustradores diferentes, um para cada receita.

Uma das propostas de Childfood – Receitas para Jovens Coolinary Explorers é promover a diversidade. “Pensando em atingir uma grande quantidade de pessoas, decidi incluir os melhores chefs do mundo, transmitindo a mensagem de que a comida pode ser uma boa chance de construir pontes e derrubar muros, contra o racismo, a ignorância e a intolerância”, relata o autor. 

Além disso, a venda do livro, disponível exclusivamente na plataforma Kickstarter, apoiará os projetos internacionais Charity: Water e Share The Meal, do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas. “Desde o início, eu queria envolver uma grande organização sem fins lucrativos - e o primeiro nome da minha lista foi a Charity: Water porque, sem o acesso à água potável, tudo se torna impossível, literalmente tudo, inclusive viver. Todos os anos, mais de um milhão de crianças morrem por causa da falta de água, mais do que por causa de todas as guerras e doenças combinadas. Com o livro, tentaremos levar água limpa para comunidades carentes. A cada cinco livros vendidos, a Charity: Water trará água limpa para uma criança necessitada. Além disso, podemos contar com o apoio do Share The Meal, do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas: dentro do livro, será possível encontrar um QR Code para se juntar ao nosso time no aplicativo Share The Meal. Por meio dele, será possível doar US$ 0,50, exatamente o que é necessário para alimentar uma criança faminta por um dia inteiro”, afirma o autor Lucas Scarcella.

O livro  Childfood – Receitas para Jovens Coolinary Explorers é composto por quatro partes. A primeira é dedicada a conhecer os chefs e os ingredientes de cada receita – e traz uma foto do resultado final do prato. A segunda conta a história da receita. As crianças aprenderão sobre a origem dos ingredientes. Na terceira parte, algumas páginas estão disponíveis para colorir ou incrementar desenhos. Por fim, o leitor pode contar as próprias histórias e criar (ou desenhar) a versão das receitas.

O livro está disponível para venda apenas na plataforma Kickstarter, por US$ 35.

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'Este é o fim do mundo, e nós temos o livro perfeito para isso', diz Jim Carrey, agora escritor

O romance do ator, Memórias e Desinformação, escrito com Dana Vachon, usa detalhes da vida e da carreira do ator para contar uma história fictícia de apocalipse e renascimento em Hollywood

Dave Itzkoff, NYT

01 de julho de 2020 | 14h19

Jim Carrey não está nada bem.

No início do romance Memoirs and Misinformation (em tradução livre, Memórias e Desinformação), encontramos Jim Carrey, o protagonista, mergulhado em uma crise existencial, esmagado pela falta de confiança em si mesmo e confinado em sua casa em Los Angeles, onde sobrevive à base de Netflix, YouTube e TMZ. Seus sucessos como ator, em projetos cômicos ou dramáticos, são como objetos que se afastam no espelho retrovisor, e agora ele está obcecado pelo fato inevitável da própria morte e pelo fim do universo.

Este é o início de uma aventura satírica em que Jim Carrey avalia os abismos da cultura de auto-obsessão de Hollywood. Enquanto busca algum significado para a sua vida e carreira, Carrey também tenta escolher papéis principais em uma biografia de Mao Zedong e filmes de estúdio baseados em brinquedos de crianças; lutando contra catastróficos incêndios florestais, um grupo exclusivamente feminino de eco-terroristas e uma invasão de OVNIs; convivendo com pessoas como Nicolas Cage, Gwyneth Paltrow e Anthony Hopkins.

O Jim Carrey de Memoirs and Misinformation também compartilha o mesmo nome e vários detalhes biográficos fundamentais com Jim Carrey, o astro de muitas faces, em filmes como O Máscara, O Show de Truman e Sonic: The Hedgehog, que escreveu o livro com o romancista Dana Vachon (Mergers and Acquisitions).

Memoirs and Misinformation, que a Knopf lançará no dia 7 de julho, é o resultado de um ano inteiro de colaboração destes dois improváveis parceiros. Trata-se de uma ficção baseado em fatos da vida da celebridade, o coautor – e do seu acesso a um mundo de máximos privilégios e de alienação – para contar uma história que, como acreditam os seus criadores, é particularmente oportuna.

Como Carrey explicou em uma entrevista, no início do mês passado: “Este é o fim do mundo, e nós temos o livro perfeito para isso”.

Em uma videoconferência pelo Zoom, Carrey e Vachon falaram da realização de Memoirs and Misinformaiton, das alegrias de trabalhar no limite entre fato e ficção, e sobre que reação eles esperam de Tom Cruise a ele. Abaixo, alguns trechos da entrevista.

Como foi que vocês dois se conheceram?

Jim Carrey: Nós nos conhecemos há cerca de nove ou dez anos, quando o Twitter se tornou uma coisa extraordinária e as pessoas ainda experimentavam a plataforma.

Dana Vachon: Aquele inverno tinha sido realmente deprimente. Eu estava em Williamsburg, tudo estava fechando e todas as construções estavam paradas. E uma manhã, olhei o Twitter e Jim tinha tuitado “BOING”.

Carrey: Eu estava tentando criar outra versão da Força ou chi. A energia que torna tudo positivo no mundo. 

Alguma vez, você pensou em escrever um livro de memórias factuais da vida de Jim?

Carrey: Não há nada, a esta altura da minha vida artística, mais chato do que a ideia de escrever os fatos verídicos da minha vida em ordem cronológica. Este é um trabalho de amor e nós não conseguíamos parar. Começou como uma espécie de jogo de vôlei, pará cá e para lá. E nos últimos anos foram oito horas. 12 horas de trabalho na maior parte dos dias. Mas mesmo quando batíamos de frente, sempre conseguimos alguma coisa mais interessante do que havíamos concebido no começo.

P: O protagonista deste romance se chama Jim Carrey e ele teve uma vida muito parecida com a de vocês. Mas quem é ele?

Carrey: Jim Carrey, neste livro, é na realidade um representante – ele é um avatar de qualquer pessoa na minha posição. Do artista, da celebridade, do astro. Deste mundo com todos os seus excessos e a sua gula, autossuficiência e vaidade. Parte disso é muito real. Você só não sabe o que é o que. Mas até as qualidades fictícias do livro revelam uma verdade. 

P: Dana, como foi para você conhecer o verdadeiro Jim, em contraposição à versão que ele mostra na tela?

Vachon: Em uma das primeiras vezes em que tivemos contato, ele estava assistindo ao Dr. Jekyll e Mr Hyde, de John Barrymore, que constituem o eixo da história. Ele me disse: “Veja Barrymore”. E eu pensei: “Puxa, Jim Carrey assiste muito a Netflix”.

Carrey: Houve momentos em que eu fiquei com muito medo. Eu vejo John Lennon numa maca no YouTube. E piro completamente porque me dou conta de que as pessoas irão tirar selfies de mim quando for o meu corpo. Alguém irá olhar para a cena como se fosse uma novidade. Esse terror e o medo mortal de querer ser um cadáver bonito fez com que eu fosse ao banheiro para me maquiar antes de ir para a cama porque se eu morresse no meio da noite, seria apresentável para um público que me adora.

Houve algum momento em seu processo de criação em que Jim disse que você está levando as coisas longe demais ou nós não podemos chegar a tanto?

Vachon: Estava falando com Nic Cage uns dias atrás. Não havia contado nada do livro para ele e então um dia eu contei sobre isso, (voz de Nicolas Cage): “Jim, fico muito honrado, cara. Você nem imagina”. Eu disse: "Dei pra você as melhores falas". (Voz de Cage): “É uma coisa inaudita!” Ficou muito emocionado com isso. 

Vocês contaram às outras celebridades às quais vocês se referem com o nome delas que elas são personagens do livro?

Carrey: Estamos enviando para todas elas livros com uma carta explicando o que estamos fazendo.

Vachon: “Querida Gwyneth”.

Carrey: É uma sátira e uma paródia, mas também é feita com muito respeito. A maioria das pessoas neste livro é gente que eu admiro muito.

Isso, por acaso, inclui o personagem que você, por razões legais, diz que mencionará apenas como “Laser Jack Lightning”?

Carrey: Só estamos brincando com as brigas em Hollywood. Conheço Tom Cruise. Talvez ele me dê um soco, mas puxa, vou levar o soco como uma obra de arte. Acho que ele vai adorar.

Dana, houve alguns momentos em que este projeto pareceu como uma versão na vida real de Crepúsculo dos Deuses?

Vachon: Totalmente. Barton Fink: Delírios de Hollywood foi o que mais me viria à lembrança. Mas quando comecei a me preocupar, já era tarde demais.

Carrey: Não foi tanto assim.

Vachon: E além disso, nem foram oito anos de trabalho no total. Nós, na realidade, trabalhamos duro, intensamente, nos dois últimos. É que estávamos sempre envolvidos em outras coisas.

O livro retrata de maneira muito vívida a intensa frustração do seu protagonista em relação a Hollywood e ao seu distanciamento do seu trabalho e das suas realizações. Jim, até que ponto isso representa seus sentimentos reais?

Carrey: O Show de Truman não foi um erro. Eu sou um cara que um dia de repente olhou para cima e começou a ver toda a máquina e as luzes descendo do céu. Todo projeto é um pouco de mim mesmo no processo de me recriar. Rasgando o antigo ser e explorando algo novo. Toda a minha carreira. Eu pedi muito ao meu público, e ele me deixou fazer estas coisas. Acho que ele espera isso de mim, de certo modo. Ele não espera algo convencional. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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