REUTERS/Kacper Pempel/files
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Livro de Primo Levi faz resgate da verdadeira memória do Holocausto

Escritor italiano teve a coragem de expor os problemas relativos ao discurso daqueles que conseguiram escapar do genocídio

Marcos Guterman, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2016 | 03h00

O italiano Primo Levi, um dos principais cronistas do Holocausto, toca no delicado tema da memória no livro Os Afogados e os Sobreviventes, recentemente reeditado no Brasil. Delicado especialmente por se tratar da lembrança do massacre dos judeus na Segunda Guerra Mundial, pois os insidiosos negacionistas, aqueles que se dedicam a desmoralizar a lembrança desse crime inominável, apostam na confusão e nas lacunas dos testemunhos para desmoralizá-los. No entanto, Levi, ele mesmo um sobrevivente, teve a coragem de expor os problemas relativos ao discurso daqueles que conseguiram escapar do genocídio.

Em primeiro lugar, Levi informa que nenhum sobrevivente é capaz de relatar a dimensão total da tragédia humana que testemunharam. Se sobreviveram, é o que ele diz, então é porque não foram fundo o bastante – isto é, não se afogaram. A história dos campos foi escrita “quase exclusivamente por aqueles que, como eu próprio, não tatearam o fundo”. 

Mesmo estes, porém, não dizem tudo o que sabem, e não porque não queiram, mas porque não conseguem. Levi os chama de Geheimnisträger, os “portadores de segredos”. Essa era a designação dos nazistas que, participantes diretos do Holocausto, não podiam contar a ninguém o que sabiam. No caso dos nazistas, porém, o segredo era guardado para que os alemães ficassem confortáveis; para os judeus e outras vítimas do Terceiro Reich, era preciso esquecer que testemunharam a degradação moral de todos, tanto dos carrascos quanto das vítimas.

“Nós, sobreviventes, somos uma minoria anômala”, escreve Levi. Afinal, num campo de extermínio, ele diz, espera-se que seus prisioneiros morram e que todos ali colaborem para esse fim. A memória dos sobreviventes, escreve Levi, é assim desfocada e estilizada, muitas vezes por influência de informações colhidas a posteriori e que lhes foram fornecidas por terceiros. É também uma forma de se defender do que sabem, pois a memória real, diz o autor, “nega paz ao atormentado”. E a memória real é aquela que vincula a violência nos campos de extermínio não apenas aos nazistas, mas aos prisioneiros que colaboravam com os carrascos.

Aliás, como lembra Levi, a primeira violência contra os recém-chegados partia desses prisioneiros veteranos, ao exercerem o minúsculo poder que lhes era atribuído pelos nazistas. Se, por alguma razão, o novato reagisse à violência, estaria violando a principal lei do campo: a de que, como dóceis animais, os prisioneiros tinham de aceitar sua condição não humana e o tratamento a eles dispensado. Quanto maior a opressão, maior era a disposição de colaborar com o carrasco, quem sabe em busca de um minúsculo, porém precioso, privilégio – algo que dava uma sensação de poder, uma ilusão à qual todos tentavam se agarrar, como se fosse o último elo com a humanidade perdida. Tal busca pelo poder “corrompia ainda mais intensamente”, diz o autor.

Com a autoridade de quem esteve em Auschwitz, Levi afirma que quem entra no campo não consegue distinguir o bom do mau. O inimigo estava em toda parte. “É ingênuo, absurdo e historicamente falso julgar que um sistema infernal, como o nacional-socialismo, santifique suas vítimas: ao contrário, ele as degrada, assimila-as a si, e isto tanto mais quanto elas sejam disponíveis, ingênuas, carentes de uma estrutura política ou moral”, escreve Levi. 

É evidente que se sabe quem eram as vítimas, mas, como diz o autor, a condição de vítima “não exclui a culpa, e esta, com frequência, é objetivamente grave”. O melhor exemplo é o dos Kapos, prisioneiros a quem os nazistas davam poder para organizar os demais. Deles se esperava violência ilimitada e nenhum escrúpulo, para provarem sua fidelidade e reverência a quem lhes deu o poder. No entanto, não há a menor hipótese de proceder a um julgamento desses colaboradores, porque eles foram forçados a trabalhar como criminosos, naquele que, nas palavras de Levi, foi o “delito mais demoníaco do nacional-socialismo”, isto é, a transferência do crime para a vítima, que não teria mais nem mesmo o consolo da consciência tranquila – daí a sensação de vergonha, e não de alívio, quando os sobreviventes foram libertados. “Não conheço tribunal humano ao qual atribuir sua avaliação”, diz Levi, para quem aqueles que confundem vítimas e assassinos são “doentes morais”.

O esforço que Levi faz para resgatar a verdadeira memória do Holocausto, em meio à sua tragédia pessoal, é a grande contribuição desse notável livro. A maioria dos sobreviventes prefere o conforto da memória consagrada, especialmente aquela retratada pelo cinema, em que os papéis de algozes e vítimas estão muito bem definidos. Levi, a seu modo, mostra que essa distorção é um triunfo para o nazismo, que, afinal, tinha como objetivo central aniquilar a memória moral da humanidade. A produção de uma memória artificial não permite conhecer a real tragédia humana que foi o nazismo. A simplificação, prova Levi, pode muito bem servir àqueles que pretendem compreender o Holocausto como um confronto entre o Bem e o Mal, mas não serve à História.

OS AFOGADOS E OS SOBREVIVENTES

Autor: Primo Levi

Tradução: Luiz Sérgio Henriques

Editora: Paz e Terra (168 págs., R$ 29,90)

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