Mark Kohn
Mark Kohn

Livro de Lionel Shriver fantasia o colapso do sonho americano

Trama futurista 'A Família Mandible: 2029 - 2047' mostra dólar sob ataque e muro erguido pelo México

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2021 | 05h00

A instabilidade do dólar, cuja desvalorização é uma âncora que arrasta o mundo para uma grave crise, sempre aterrorizou a escritora americana Lionel Shriver. Assim, influenciada pelo pânico planetário ocorrido em 2008, quando o sistema financeiro internacional quase colapsou, ela escreveu A Família Mandible: 2029 - 2047, uma perturbadora ficção sobre o futuro próximo, no qual a economia dos EUA despencou e o dólar não vale um tostão. 

O livro foi originalmente publicado em 2016, mas chega agora ao Brasil, em um momento peculiar, em que a pandemia do novo coronavírus colocou a economia mundial sob suspeita, com os países ameaçados por gigantescas dívidas públicas. O romance, com capa dura, já foi enviado aos privilegiados assinantes do clube de livros da editora Intrínseca, o Intrínsecos, mas a versão em brochura estará disponível a partir de março.

A trama acompanha quatro gerações de uma família norte-americana outrora próspera e que, em 2029, vive mergulhada no colapso econômico mundial: a União Europeia se desfez, a China se tornou a maior potência global e os Estados Unidos vivem na penúria, com uma inflação galopante, racionamento de água e pessoas sendo assaltadas em suas casas à mão armada. O dólar perdeu a posição de referência mundial para uma nova moeda, o bancor. Para completar, o México ergueu um muro para evitar a invasão de americanos em busca de prosperidade e o New York Times, junto com outros jornais, deixou de circular.



Nesse ambiente tenebroso, Florence Mandible é uma típica moradora de classe média do Brooklyn e se torna responsável pela difícil manutenção de um ecossistema familiar frágil. Não bastasse a coleção de problemas, ela precisa lidar com a longevidade do patriarca, Douglas, cuja morte liberaria uma fortuna que poderia salvar a família. Aos 97 anos, no entanto, o senhor segue jogando tênis e não dá esperança de que vai desencarnar.

Equilibrando tragédia e um humor sarcástico, como observou o jornal Sunday Express, Lionel Shriver escreveu um romance tão engraçado como ambicioso. Sobre esse trabalho, ela respondeu por e-mail às seguintes perguntas.


 

O romance foi escrito antes da recente eleição americana e da pandemia. Quais eram seus temores quando o escreveu?

Agora esquecemos com frequência, mas, em 2008, todo o sistema financeiro internacional ficou próximo de um colapso total. A experiência foi profundamente perturbadora para mim. E me tornou muito mais consciente do quão dependentes somos das moedas funcionais. Imagine sobreviver numa grande cidade como Nova York se o dólar que carrega em sua carteira não tiver nenhum valor. Todos sabemos da necessidade de dinheiro; mas somos menos conscientes da necessidade de sistemas monetários viáveis, que operam com base numa confiança que é alarmantemente frágil. O que 2008 nos trouxe à mente não só vigora ainda hoje, mas as coisas pioraram. Decisivamente, a dívida aumentou. O mundo fiscal internacional inteiro está construído sobre um enorme buraco negro. Estou mais inquieta hoje com a possibilidade de uma queda do dólar do que há um ano. 


 

Como assim?

A covid aumentou em muitos trilhões a dívida pública dos EUA, com outros trilhões a mais com os gastos em programas de estímulo. Este dinheiro “emprestado” jamais será reembolsado. E todo este dinheiro é fabricado. A base monetária nos Estados Unidos expandiu de modo fantástico. A inflação é inevitável, talvez até tenhamos uma hiperinflação - o que sempre resulta em instabilidade social e numa perda drástica de riqueza. O salário não acompanha os aumentos dos preços, levando a um desespero popular perpétuo. Tentei reforçar o que é viver com uma moeda cujo valor está em queda livre focando em uma família. Mas quis também que a história continuasse ficcional. Estou de fato aterrorizada com a possibilidade de a minha trama escapar do papel e saltar para a vida real. E preocupada que a única coisa que fiz errado foi situar o romance no ano de 2029. É provável que uma crise envolvendo o valor do dólar ocorra muito antes.


 

A senhora também inventou uma linguagem do futuro. De onde ela veio?

O jargão que usamos constantemente se atualiza, ao passo que expressões que antes considerávamos “cool” caíram em desuso. Senti que um dever desse projeto era conceber um conjunto de expressões que estarão em moda num futuro próximo. Eu me diverti muito com essa parte do texto, mas tentei não exagerar. Suspeito que muitas expressões não familiares podem ser desagradáveis e possivelmente impedir a compreensão do leitor. Nunca quero tornar meu romance difícil para o leitor.

Assim, esse jargão aparece em conta-gotas pelo livro, de modo limitado. E também precisei de um segundo grupo de expressões porque o romance dá um salto para 2047, quando obviamente a linguagem coloquial evolui ainda mais. Mas, antes de construir esses novos léxicos, não estava prevendo o quão exasperante seria isso! Não posso lhe dizer quantos termos maravilhosos inventei, basta procurar no Urban Dictionary (site com dicionário de gírias americanas) para ver que alguém já as criou.


 

A cena de um dos personagens, Willing, assaltando, desesperado, uma criança em busca de comida é uma das mais impactantes. Como tramou isso?

É uma cena pequena, mas você está certo: ela é enormemente importante. Willing, até esse momento, sempre foi decente. Mas, assumindo o desespero da sua família - eles não têm absolutamente nada para comer -, ele cruza a linha da moralidade. Ele sabe que roubar a comida de uma criança ameaçando-a com violência (preferi que o simbolismo latente se manifestasse no fato de que a arma que ele usa é uma meia cheia de moedas sem valor) é algo terrível. Mas ele age dessa maneira. O que realmente faz essa cena impressionar é a sua insignificância. Ninguém é ferido fisicamente.


 

O romance tem um clima peculiar, até cativante. Luella tem um papel único. Na verdade, o humor sempre foi um elemento original em suas obras. Como a senhora lida com o humor, que tipo de humor aprecia mais?

Especialmente no caso de um romance distópico. Acho que A Família Mandible é extremamente divertido! Mas minha tendência é usar o humor de passagem. As piadas são um subproduto, como também uma compulsão. Isso é diferente de tentar ser divertido. Não tenho por objetivo deliberado fazer o leitor rir, mas estou totalmente sozinha em meu estudo e tenho de me entreter. Além disso, sinto-me como que cercada pela absurdidade patente o tempo todo e essa percepção vaza para meu texto. A comédia é a alternativa mais palatável para a raiva.


 

A propósito, é verdade que a senhora descreveu Nollie como uma paródia implacável de si mesma?

De modo algum. É curioso que quase ninguém nota, mas Nollie - uma abreviação de Enola Gay, um dos aviões que bombardearam Hiroshima, o que dá um ar de apocalipse - é um anagrama de Lionel. Inventei essa personagem para rir de mim mesma. Ela guarda um número ridículo de exemplares dos seus próprios romances. Mas, para minha surpresa, à medida que o livro avançou, não consegui mantê-la como uma figura divertida e comecei a me orgulhar dela. Talvez seja um sinal de saúde psíquica.


 

Romances distópicos têm tido sucesso nos últimos anos, especialmente este porque é ambientado num futuro próximo. Como equilibrou o que parecia mais real com o que era futurístico?

Minha concepção era de um futuro próximo que fosse mais ou menos familiar, de tal maneira que entrar nesta nova realidade não fosse mais difícil para o leitor. Projetei um grande evento em meados da década de 2020 - uma paralisação total da internet durante três semanas, o que, para os mais jovens, era o equivalente ao fim do mundo.

Mas mantive a inovação tecnológica mais modesta. Por exemplo, celulares, tablets e computadores ficaram todos combinados num único aparelho que você pode carregar no bolso como um lenço. O que me despertou interesse é que recentemente a ideia de aparelhos dobráveis ou flexíveis está decolando. Assim, talvez eu tenha potencial para uma segunda carreira no Vale do Silício.


 

Esse romance seria o mesmo se ambientado na Inglaterra depois do Brexit?

A história pode se desenrolar em qualquer lugar. Em vários países - não só na Alemanha dos anos 1920, mas no Zimbábue e mais recentemente na Venezuela. Mas a imaginei como um conto sobre a queda do “dólar todo-poderoso”, que teria um enorme impacto. O resto do mundo olha para os Estados Unidos - ou olhava, antes de Trump - em busca de estabilidade monetária. (Não importa que o dólar de 100 anos atrás hoje vale menos que um centavo em termos reais.) Meu próximo romance será lançado nos Estados Unidos e no Reino Unido em junho e está ambientado na Grã-Bretanha, e inclui o Brexit. E, dada a minha fascinação por economia, The Mandibles: Should We Stay or Should We Go (Os Mandibles: devemos ficar ou devemos ir, em tradução livre) também se refere às possíveis consequências financeiras da covid-19. Fique atento, então. 




 

Confira um trecho do livro 'A Família Mandible: 2029 - 2047'


“Florence voltou a cortar o repolho; uma opção econômica, mesmo por vinte pratas. Ela não sabia direito até quando o filho suportaria esse vegetal. 

Os outros morriam de curiosidade do virtuosismo dela, por ter assumido um trabalho tão exigente e ingrato naqueles quatro longos anos. Mas as suposições sobre sua natureza angelical eram equivocadas. Depois de ralar em um emprego mal remunerado após outro, quase sempre de meio expediente, qualquer altruísmo crédulo que motivara sua estúpida formação dupla em estudos americanos e política ambiental, na Barnard, tinha sido quase que inteiramente enxotado dela. Metade de seus empregos fora eliminada pelo fato de uma inovação qualquer ter ficado obsoleta de uma hora para outra; ela trabalhara em uma companhia vendendo ceroulas elétricas que economizavam o custo dos aquecedores, e de repente os consumidores passaram a querer apenas ceroulas aquecidas à base de grafeno eletrificado. Outros empregos foram eliminados pelo que, perto dos seus vinte anos, eram chamados de bôs, mas que agora os trabalhadores americanos dispensados chamavam de roubs, por razões óbvias. Seu emprego mais promissor tinha sido em uma startup que fazia saborosas barras de proteína a partir de grilo em pó. Entretanto, quando a Hershey’s entrou na produção em massa de um produto similar, só que notoriamente cheio de óleo, o mercado de tira-gostos à base de insetos foi para o brejo. Assim, ao topar com um cargo em um abrigo municipal em Fort Greene, candidatou-se, por uma combinação de desespero e astúcia: a única coisa que estava fadada a nunca faltar na cidade de Nova York eram pessoas sem-teto.”

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