Livro de Hugo Langone permite experiência enriquecedora no trato da linguagem

Em 'Do Nascer ao Pôr do Sol, Um Sacrifício Perfeito', poeta mostra uma linguagem sensível, trabalhada em ritmos concisos

Moacir Amâncio, Especial para O Estado de S. Paulo

12 de setembro de 2015 | 06h00

A poesia pode tanto romper quanto reafirmar. São modos diferentes de lidar com a mesma tradição. Mas existe uma diferença entre reforçar valores envelhecidos e revigorar a experiência atual e refletindo-se em símbolos antigos, como faz Hugo Langone em Do Nascer ao Pôr do Sol, Um Sacrifício Perfeito (7Letras). A evocação mística de recorte cristão está colocada nesse título de maneira óbvia, isto é, do sacrifício cuja completude implica o ressurgir, o ciclo perene o qual também nos põe num plano anterior às religiões reveladas e toca a clave do, digamos, universal, em que as diferentes crenças sucumbiriam à comunhão. 

Isso levaria muito além das práticas religiosas circunscritas pelas divisas da religião e irrompe no terreno da mística, em sua pesca de epifanias, embora o poeta permaneça no âmbito do cristianismo católico. Evidentemente, não basta usar clichês para configurar em poesia essa experiência. A palavra Deus ou evocar Francisco de Assis talvez resulte tão vazio quanto falar nas mulheres do sabonete Araxá desprovido do mínimo sopro de um Manuel Bandeira. A propósito, Langone lembra os modernistas, não só brasileiros, que trabalhavam a suposta simplicidade da linguagem como tentativa de reencontrar o humano perdido em quinquilharias beletrísticas segundo a visão da época. O risco de ficar aquém do alvo pretendido é sempre grande, e para evitá-lo é preciso saber imprimir em cada palavra o potencial que lhe cabe dentro do conjunto textual. 

Percebe-se na realização do livro que Langone, professor e tradutor, trouxe para o português autores como o poeta Juan de la Cruz e os filósofos Leo Strauss e Bertrand Russell, entre outros nomes, um exercício com a palavra num sentido amplo, não obrigatório, mas que permite uma experiência enriquecedora no trato da linguagem. Ele trabalha um projeto amadurecido, e isso avaliza a previsão de novas realizações, já com um tom próprio. Lembre-se, a evidência do diálogo com mestres, ao contrário de ser uma falha, é um atestado de que o autor tem em mente a condição do gesto cultural como reflexo de outros tantos gestos ecoando pela história. E tem objetivos claros que se configuram numa linguagem sensível trabalhada em ritmos de medida gravidade, capaz de rir de si mesma quando o eu lírico se aferra à suposta matéria da poesia - devemos observar que o fôlego do autor se afina melhor com o verso mais estendido, embora o resultado neste caso não seja negligenciável: “Havia, / aqui, / um poema. // Apaguei-o. // A noite / parecia / grave, / grande. / Era um poema / urgente. // Malditas as manhãs / que a tudo mascaram”. Lá se foi o bezerro de ouro. Só resta ao poeta partir do vazio que fica e onde o “tradicional” pode se encontrar com a “transgressão”. 

 

DO NASCER AO PÔR DO SOL, UM SACRIFÍCIO PERFEITO

Autor: Hugo Langone

Editora: 7Letras (72 págs., R$ 32)

MOACIR AMÂNCIO É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA NA USP, AUTOR DO LIVRO DE POEMAS ATA (RECORD) E DE YONA E O ANDRÓGINO - NOTAS SOBRE POESIA E CABALA (NANKIN/EDUSP)

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