Maira Mesquita/Divulgação
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Livro de Fernando Paixão faz reflexão sobre a arte do poema em prosa

'Arte da Pequena Reflexão' delineia em livro contornos deste gênero avesso a definições e pouco estudado pela crítica

Mariana Ianelli , Especial para O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2014 | 16h29

Surgido no século 19 como uma “terceira margem de criação”, o poema em prosa tem sido, no Brasil, tão fecundo entre poetas quanto pouco estudado pela crítica. Com uma preciosa contribuição para a bibliografia teórica sobre o tema, o poeta Fernando Paixão delineia em Arte da Pequena Reflexão alguns contornos deste gênero, que, arisco a definições, híbrido desde a origem, deixa-se sondar com uma sofisticada amostra de poemas e autores apresentados e analisados no livro.

Fruto da tese de doutorado que Paixão defendeu na PUC-SP em 2004, o ensaio dá conta da natureza ambígua do poema em prosa num constante diálogo entre poesia e crítica, respeitando a ideia de que cada poema, criando os próprios meios e modos, deve igualmente ser pensado à luz dos recursos que mobiliza. 

Levantadas as diferenças genéticas entre prosa poética e poema em prosa, retomadas as origens francesas do gênero, sua celebrização com Charles Baudelaire na poesia, Suzanne Bernard na crítica, considerada a perda da “aura transgressora” dessa nova forma de escrita, que acabou se incorporando a diferentes estéticas, em diferentes épocas, Paixão lança as bases da investigação de uma poética afinada com a sensibilidade moderna no gosto pelo experimental e na recusa a modelos já conhecidos.

Linguagem e Composição, primeira parte do livro, investiga a dinâmica interna do poema em prosa, como sua unidade textual se configura e como se articulam dentro dessa forma autônoma, a priori livre, elementos intrínsecos de narratividade, descrição e ritmo. Partindo da premissa de que “a metonímia está presente no DNA desse tipo de escrita”, Paixão busca não apenas na forma, mas no imaginário do poema em prosa, as marcas estilísticas desse “princípio organizador da contiguidade”. 

Soma-se à metonímia, na compreensão dessa nova poética, a noção de fragmento literário, que remete ao ideário romântico e, no século 20, se associa à “estética do fragmentarismo”. As relações tensivas entre impulso lírico e impulso narrativo, mistura de planos e espírito de unidade, brevidade e potência reflexiva, todas elas desdobramentos da natureza ambígua do poema em prosa, são questões pensadas à luz de exemplos concretos. Entre os estrangeiros da amostra estão Charles Simic, Czeslaw Milosz, Francis Ponge e Alejandra Pizarnik. Entre os brasileiros, Jorge de Lima, Murilo Mendes e Mário Quintana. Além da rica diversidade da amostra, há as singularidades de cada poema, como, por exemplo, Declaração de Amor, um raro poema em prosa de Drummond em que a sonoridade predomina sobre o sentido. 

A segunda parte do livro, Poema em Prosa Contemporâneo, investiga as repercussões do espírito de renovação estética do gênero após a 2.ª Guerra, num contexto em que o poema em prosa, cumulado dos experimentalismos do início do século, enfrenta a “ressaca vanguardista”. Paixão encontra esse espírito de renovação ainda aceso, hoje, numa espécie de “atitude reflexiva”, ou seja, na ideia do poema em prosa contemporâneo como uma “arte da pequena reflexão”. Edmond Jabès, Yves Bonnefoy e Zulmira Ribeiro Tavares aparecem entre os exemplos com poemas antológicos. O sérvio-americano Charles Simic e o português Herberto Helder merecem, cada um, um capítulo à parte.

Num recorte teórico que enfatiza o desafio de “levar a poesia a viver-se como conteúdo”, dialogam a todo momento vozes de poetas e vozes da crítica, ou ainda, de poetas-críticos. Nesse intercâmbio, veem-se melhor as várias ambivalências simbólicas dessa poética híbrida em poemas que mesclam estranheza e consciência, lirismo e distanciamento crítico, imaginação onírica e reflexão. Uma vez que o poema moderno ele próprio passa a se identificar com o pensamento, como já observava o filósofo Alain Badiou, a proposta agora é investigar “o conjunto das operações pelas quais esse pensamento se pensa”. Com isso, além de tirar o poema em prosa da invisibilidade na área da crítica brasileira, Arte da Pequena Reflexão nos oferece avançar, passo a passo com a história, na compreensão das potencialidades do gênero. 

ARTE DA PEQUENA REFLEXÃO

Autor: Fernando Paixão

Editora: Iluminuras (212 págs., R$ 44)

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