AP Photo/Richard Drew
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Livro de David Rockwell oferece guia para criatividade pós-pandemia

Enquanto o país sai cautelosamente da quarentena, o designer oferece algumas pistas de como a vida pode no mundo pós-covid-19

Mark Kennedy, AP

26 de maio de 2021 | 20h00

NOVA YORK - A pandemia de covid-19 diminuiu as conexões entre as pessoas e esvaziou os espaços onde elas se encontravam. Para o premiado arquiteto e designer David Rockwell, isso atingiu o cerne de seu trabalho.

Do design da casa noturna KAOS, em Las Vegas, até a transformação da histórica Union Station de Los Angeles para a cerimônia do Oscar, a criação de espaços onde as pessoas se reúnem sempre foi o foco. Agora, essa ideia tornou-se realmente perigosa.

Durante sua primeira reunião por Zoom com alguns dos profissionais que fazem parte de sua equipe de 250 pessoas, Rockwell começou a conversa com um humor sombrio em relação ao pano de fundo de uma cidade fechada e assustada.



“Comecei dizendo, 'Bem, aqui vai a boa notícia: pelo menos não dependemos da criação de experiências para reunir as pessoas para pagar as contas.' Houve uma espécie de silêncio e eu disse: 'Estou brincando. Na verdade, é isso que fazemos. Portanto, precisamos descobrir maneiras de fazer isso.’”

Enquanto o país sai cautelosamente da quarentena, Rockwell está oferecendo exatamente isso na forma de livro: Drama -  uma espécie de quadro de humor para a forma como Rockwell vê o mundo e muitas ideias de como um novo mundo pós-covid-19 poderia ser.

Drama posiciona-se fortemente na intersecção do teatro e da arquitetura, usando exemplos de dentro e de fora da empresa para destrinchar seis conceitos fundamentais que ambas as áreas compartilham: público, conjunto, mundos, história, jornada e impermanência.

“Tenho pensado nisso durante mais ou menos toda a minha vida adulta porque nunca vi uma fronteira entre arquitetura e teatro", diz Rockwell.

“Tem sido mais um ciclo de retroalimentação para mim.”

O livro, escrito com Bruce Mau e publicado pela Phaidon, está repleto de imagens cativantes para explicar as ideias. Por exemplo, como seu trabalho no projeto para o restaurante Nobu Downtown encontrou maneiras criativas de contornar as restrições arquitetônicas, ou como as escadarias da Piazza di Spagna, em Roma, foram projetadas para atrair o olhar para o sagrado. Ele escreve: "Para mim, design é reunir as pessoas e fazê-las sentir algo".

Ele conta com nada menos do que com Frank Gehry como fã. "David é um grande líder e uma grande inspiração no campo da arquitetura, do design, design de teatro e, bem, o que você quiser", disse ele. “Ele é um criador voraz, mas também é igualmente um grande ouvinte com uma curiosidade ilimitada. Drama mostra todos os lados deste grande talento. ''

Ao longo do livro está presente uma visão implacavelmente otimista de que a vida pode ser melhor e mais bonita se começarmos simplesmente projetando espaços melhores, especialmente onde as pessoas se encontram.

“O ato de fazer algo é uma afirmação de vida”, diz Rockwell, que está doando sua parte dos royalties do livro para a organização que apoia artistas e trabalhadores do setor, a The Actors Fund.

"Uma das coisas que os designers podem fazer é ajudar a criar uma solução. ''O Rockwell Group projeta de tudo, de cafés a cenários de teatro. O primeiro trabalho de Rockwell para a Broadway foi com The Rocky Horror Show, em 2000, e, então, seu nome passou a aparecer cada vez mais nos créditos. Como em: Hairspray, Legalmente Loira, The Normal Heart e Tootsie. Ele ganhou um Tony de melhor projeto cênico pelo musical She Loves Me.

Sua experiência com arquitetura afeta os cenários que projeta e vice-versa. Quando ele estava projetando o terminal de 800 milhões de dólares da JetBlue na cidade de Nova York, Rockwell convenceu a companhia aérea a consultar o diretor, coreógrafo e vencedor do Tony, Jerry Mitchell, para melhorar a movimentação dos passageiros.



O livro apresenta uma mente abrangente e multidisciplinar, incluindo entrevistas com o arquiteto Daniel Libeskind, o produtor musical e compositor Quincy Jones, a diretora e curadora de museu Thelma Golden, a dramaturga e atriz Anna Deavere Smith, o chef e humanitário José Andrés e o ganhador do Oscar por melhor direção de arte, Adam Stockhausen.

Rockwell tem pensado muito em relação a como sairemos do confinamento e como talvez isso vai redefinir o que os espaços públicos significam, especialmente no caso dos escritórios abertos, sem paredes ou divisórias.

"Acho que os padrões de movimentação - coreografia, entender como as pessoas se movimentam, entender a adaptabilidade - serão importantes para as cidades depois da covid-19", diz ele. "Estamos em um período de redefinição. Então, o que vamos fazer nos escritórios, por que precisamos ir para lá, acho que está tudo propício para reinvenção. ''

Rockwell vê a necessidade contínua de reuniões por Zoom como algo que perdurará após a pandemia, mas ainda é um fã de reuniões presenciais, que podem desencadear colaborações e novas ideias.

"Todo o planejamento que você dedica para projetar algo é para permitir que algumas atividades espontâneas aconteçam", diz ele. "São os 15 minutos entre as reuniões, quando você encontra alguém pegando uma xícara de café que você pode ter uma ideia que não virá pelo Zoom. ''

Ele vê flexibilidade no futuro do país, como os blocos de espuma azuis gigantes que ele criou como equipamentos de playground, que colocam o poder de criação e colaboração nas mãos das crianças. O Rockwell Group ajudou restaurantes durante a pandemia, projetando espaços para alimentação modulares ao ar livre e imaginando cenários portáteis para companhias de teatro.

“Há oportunidades para que novas ideias criativas cheguem ao mercado”, afirma.

"Existem espaços que só são usados por três ou quatro horas por dia. Existem outros usos para esses espaços nas demais horas? ''

Rockwell recentemente mostrou sua flexibilidade e estilo ao criar um lounge intimista e jardins para a transmissão do Oscar, de alguma forma conseguindo manter o distanciamento social, mas também a elegância e em sintonia com as primeiras cerimônias da premiação.

“Senti que era uma chance de ancorar a cerimônia na história e no poder dos filmes”, diz ele. "Teve um super impacto. Foi como ser um estudante de novo. Foram três noites inteiras e muito trabalho intenso em Los Angeles, mas totalmente satisfatório. ''


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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