Bob Wolfenson/Editora Tordesilhas
Bob Wolfenson/Editora Tordesilhas

Livro de Costanza Pascolato traz sua biografia eletrizante entre pílulas de moda, estilo e sabedoria

Às vésperas de completar 80 anos, Costanza Pascolato lança 'A Elegância do Agora'

Maria Rita Alonso, Especial para O Estado de S. Paulo

01 de setembro de 2019 | 17h47

Quando Costanza Pascolato fala de moda, ela fala de filosofia, economia, psicologia... Fala sobre o jeito contemporâneo de viver. Analisa instinto, vaidade, desejo, status quo, sempre contextualizando tudo com o olhar em perspectiva histórica. Prova dessa capacidade de conexão está em seu novo livro, A Elegância do Agora, que será lançado no dia 9, no Shopping Iguatemi. 

O evento antecede as comemorações do aniversário de 80 anos de Costanza Pascolato, no dia 19 de setembro. “Nasci na Itália durante a guerra, acompanhei a reconstrução do Ocidente, o processo de industrialização do Brasil, o nascimento do prêt-à-porter”, diz ela. “Posso dizer que este o momento mais empolgante da minha trajetória, com renovações profundas em consequência da internet e da democratização”, diz ela.

O livro, escrito em depoimento à editora Isa Pessoa e publicado pela Tordesilhas, costura de um jeito envolvente a biografia de Costanza com assuntos relacionados à vida em sociedade, à moda e comportamento. 

“Vivi muito e aconteceram coisas comigo que podem ajudar outras pessoas. Casei, descasei, fui deserdada, perdi a guarda das minhas filhas por quatro anos e tudo isso me empurrou para o trabalho na moda”, diz .

Falar em etiqueta ou autoajuda, enquanto as redes sociais conclamam o fim das regras de estilo, poderia soar fora de moda. Mas, pelo contrário, o livro tempertinência. Primeiro, porque Costanza coloca a etiqueta como regra básica de respeito ao outro, de convívio coletivo harmonioso e de educação. 

Depois, porque suas reflexões sobre satisfação pessoal, beleza e estilo de vida pautado na verdade e na ética (e não em aparência fake) seguem linhas filosóficas do bem viver, sempre entremeadas por sua história de vida, que é cheia de conquistas e transgressões e também de dor, culpa e desamparo.

Na parte pessoal, é tocante ver como ela se abre, mantendo o tom da narrativa delicadamente baixo, contido, com positividade e ironia fina. O livro começa com a fuga da família Pascolato da Itália para o Brasil, durante a 2ª Guerra. Ali, Costanza explica sua origem e sua formação. Declara a enorme admiração pelo pai, um aristocrata veneziano, culto, polido, esportista, de alma aventureira. 

O trecho em que descreve o período passado em um asilo de refugiados na Suíça diz muito sobre a altivez e o pragmatismo da mãe, Gabriella Pascolato, uma inspiração para Costanza (apesar das divergências e embates futuros que elas viveriam intensamente). Já no Brasil, com poucos recursos para comprar roupas, a mãe desmontava ternos antigos e cortinas de chintz para fazer vestidos para Costanza e terninhos para o seu irmão Alessandro. Um dia, em uma recepção, uma senhora paulistana comentou: – Olhem os filhos da Gabriella, vestidos de cortina!. E Costanza pensou: “wait and see...”.

Na sequência, a narrativa se desenrola como um farol iluminando os movimentos da moda nas últimas décadas, resultando na casualização total do jeito de vestir contemporâneo. 

Costanza presenciou e atuou ativamente nas revoluções no guarda-roupa feminino. Era mulher de um banqueiro americano, pai de suas duas filhas, e frequentava Nova York no auge da Pop Art. “Vivíamos em um cenário excitante, glamouroso como o do seriado Mad Men. Industriais, artistas, publicitários, protagonistas de uma cultura que questionava costumes e gêneros, como Andy Warhol e Truman Capote, eram as pessoas que encontrávamos nos eventos”, diz ela. “E eu já usava as minissaias curtas como as de Mary Quant, que chocavam ambientes mais conservadores.”

Transgressora e dona de uma postura feminista, nos anos 1970, Costanza construiu uma carreira brilhante no jornalismo de moda como editora de revistas femininas da Abril. Foi nessa fase que viveu o grande amor de sua vida com o italiano Giulio Cattaneo della

Volta. Com a morte do marido, em seus braços, veio a depressão (o episódio, narrado em um documentário, no qual pensa em se jogar de um prédio mas desiste ao imaginar o estado que ficaria o terno branco da Armani que vestia, não ganha espaço no livro).

No decorrer da história, que explora a dualidade entre o sofisticado e o simples, o intelectual e o superficial, o leitor acompanha Costanza virando a maior autoridade em moda do País, distribuindo selfies por onde passa, como uma atriz de novela ou celebridade do YouTube. 

Hoje, super na ativa, segue como colunista da revista Vogue, consultora do Shop2gether, sempre presente em viagens divertidas, desfiles maravilhosos, nos jantares mais chiques. Do alto de sua rotina exibida no perfil do Instagram com milhares de seguidores, ela discorre com conhecimento de causa sobre duas tendências de comportamento bem atuais: a do ‘ageless’, geração que se livrou da tirania da idade, e a dos ‘perennials’, termo derivado de ‘millennials’, usado para descrever um estilo de vida que não se rende a estereótipos e conta com a vontade permanente de criar.

Em termos de estilo, a lei fundamental é seguir sua personalidade. Mas há dicas boas também. Quando reflete sobre a febre atual do tênis, constata: “Você é tão jovem quanto o seu sapato”. Prestes a ser uma octogenária, ela diz francamente o que pensa. O capítulo em que dá aulas de conciliação com o espelho, criticando duramente procedimentos estéticos, é um dos mais divertidos. “Cabelo com volume, salto alto, calça transparente, lábios aumentados pelo silicone... Todo esse esforço me parece inútil e, pior, contraproducente. Denuncia velhice de espírito”, resume ela, com sua sabedoria afiada.

A moda em evolução, por Constanza Pascolato

Anos 1960

“Em Nova York, nos anos 1960, vivíamos em um cenário excitante, glamouroso como o do seriado Mad Men. Eu já usava as minissaias curtas que chocavam ambientes conservadores.”

Anos 1970

A turma de street dance do Bronx foi a primeira a introduzir roupas esportivas, que eram baratas e confortáveis, no vestuário urbano.

Anos 1980

Nos anos 1980, os yuppies usaram suspensórios, ombreiras e gravatas coloridas para serem reconhecidos como modernos. Os megaombros tinha ligação metafórica com autoridade e afirmação na sociedade. 

Anos 1990

O grunge foi um fenômeno de estilo que resgatou o vintage de maneira autêntica. Os meninos de Seattle compravam roupas no Exército da Salvação e misturavam peças utilitárias de uniformes de um jeito muito cool.

Anos 2000

Ao anunciar seus gadgets revolucionários, sempre com uma camiseta preta de gola rolê, Steve Jobs se consagrava como ícone de estilo da nova elite no poder.

A Elegância do Agora

Autora: Costanza Pascolato

Editora: Tordesilhas (216 págs., R$ 98)

Lançamento: Piselli Sud. Shopping Iguatemi. Av. Brig. Faria Lima, 2232. 2ª (9/9), 19h 

 

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