Edgard Garrido/Reuters
Gabo na ocasião de seu 87º aniversário, em 2014; escritor faleceu pouco depois Edgard Garrido/Reuters

Livro com textos jornalísticos de Gabriel García Márquez revela devoção à imprensa

'Escândalo do Século' é seleção de 50 artigos, publicados entre 1950 e 1984, que a editora Record lança até o fim de junho

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2020 | 05h00

Primogênito de uma família de 11 filhos, o escritor Gabriel García Márquez (1927-2014) era, entre todos, o menos loquaz – enquanto os demais se expressavam com facilidade, Gabo, como era conhecido, preferia escutar e sorrir. “Mas, quando ele falava, era o momento de todos ouvirem com atenção porque Gabriel resumia em três palavras o que nós diríamos em mil”, relembrou, certa vez, Jaime, o irmão caçula. “Ele gostava mesmo era de escrever: por meio de seus livros, Gabriel passava um entendimento do mundo e dos sentimentos que lhe colocavam como um verdadeiro gênio.”

E, se a consagração internacional (além do prêmio Nobel de Literatura de 1982) foi conquistada pelo valor de sua literatura, García Márquez se dizia, acima de tudo, um jornalista. “Não quero ser lembrado pelo romance Cem Anos de Solidão, nem pelo Nobel, mas pelo jornalismo”, dizia ele, que entendia tal atividade como “uma necessidade biológica da humanidade”.



Uma prova dessa profissão de fé à imprensa pode ser encontrada em O Escândalo do Século, seleção de 50 artigos, publicados entre 1950 e 1984, e que a editora Record lança até o fim de junho. Trata-se de um conjunto de textos escolhidos entre os que a própria Record editou em 2006, distribuídos em cinco volumes. Dessa vez, o garimpo foi feito pelo editor Cristóbal Pera e a edição contou com a introdução de outro grande jornalista, Jon Lee Anderson.

“Gabo foi jornalista; o jornalismo foi, de certo modo, seu primeiro amor, e, como todos os primeiros amores, o mais duradouro”, escreve Anderson. “Foi essa profissão que lhe deu as bases para se tornar escritor, coisa de que ele sempre se lembrou; sua admiração pelo jornalismo chegou ao ponto de levá-lo a proclamar, em algum momento, com sua característica generosidade, que esse era ‘o melhor ofício do mundo’.”

García Márquez, de fato, construiu uma bem nutrida trajetória na imprensa, escrevendo sobre temas áridos, como política e economia, além de críticas cinematográficas e comentários sobre o trabalho de colegas ilustres. A estreia aconteceu justamente em 21 de maio de 1948, quando iniciou a coluna Punto y Aparte, no jornal El Universal, de Cartagena. Já nessas linhas, o autor colombiano ensaia o formato de escrita que o tornaria famoso como romancista. 

Foi em 1950, aliás, que ele se conscientizou de qual caminho deveria seguir para se consagrar como um grande escritor. Não houve visões repentinas nem mudanças súbitas de estado de espírito – Márquez apenas voltou à terra de infância, onde, em meio às fortes lembranças, descobriu a força de sua escrita. Colaborou, ainda, o contato com seus mestres de ofício no jornal El Heraldo, para o qual se transferiu, e também seu grupo intelectual em Barranquilla.

O Escândalo do Século, portanto, começa com a escrita de um colombiano jovem e boêmio, prestes a decolar como escritor, e segue até 1984, quando já é um autor maduro e consagrado. “É uma antologia que nos revela um escritor de escrita amena em suas origens, brincalhão e desinibido, cujo jornalismo pouco se distingue de sua ficção”, observa Anderson. “Em Tema para um Tema, por exemplo, ele escreve sobre a dificuldade de encontrar um assunto apropriado para começar um artigo. ‘Há quem transforme a falta de tema em tema para um artigo de jornal’, diz.



Para deleite de seus leitores mais fiéis, há textos que trazem pistas sobre sua ficção – é o caso de A Casa dos Buendía (Anotações para um Romance), que oferece trechos encantadores como esse: “Quando Aureliano Buendía voltou ao povoado, a guerra civil havia terminado. Talvez não restasse ao novo coronel nada que lembrasse a áspera peregrinagem. Restavam-lhe apenas o título militar e uma vaga inconsciência de seu desastre. Mas lhe restava também a metade da morte do último Buendía e uma ração inteira contra a fome. Restavam-lhe a nostalgia da vida doméstica e o desejo de ser dono de uma casa tranquila, aconchegante, sem guerra, que tivesse um portal alto para receber o sol e uma rede no quintal, estendida entre duas forquilhas”.

“Os leitores de sua ficção encontrarão em muitos desses textos uma voz reconhecível, a formação dessa voz narrativa por meio de seu trabalho jornalístico”, atesta Cristóbal Pera. “Como afirma Jacques Gilard, ‘o jornalismo de García Márquez foi principalmente uma escola de estilo e constituiu o aprendizado de uma retórica original’.”

Na década de 1950, Gabo acompanhou incidentes locais para escrever reportagens investigativas – não meramente informativas, mas com uma estrutura que vai além de apenas enumerar fatos. Um traço marcante dessas reportagens é o sutil desvio de interpretação oferecido pelo escritor – se é rigoroso com os dados, apresentando milimetricamente todos os detalhes da história, ou se, por outro lado, lança mão de metáforas, García Márquez apresenta uma leitura variada dos fatos. Cada informação, comprovada ou não, conquista uma parcela de verdade.

É de tirar o fôlego, por exemplo, a leitura do longo texto que dá título ao livro, O Escândalo do Século: trata-se de um compilado de crônicas publicadas entre 17 e 30 de setembro de 1955, no El Espectador, de Bogotá. Ali, García Márquez detalha, com precisão cirúrgica, o caso de Wilma Montesi, jovem de 21 anos, filha de um carpinteiro em Roma, que foi encontrada morta, por afogamento – evidências indicavam assassinato e envolviam o filho do chanceler italiano.

García Márquez acompanhou todos os fatos, foi em busca de minúcias, ciente de que estava diante de uma grande história. Como Truman Capote fizera na exaustiva pesquisa para A Sangue Frio (ele jurava ter feito investigações em mais de 8 mil páginas), García Márquez não despreza nenhuma informação e dialoga com a exatidão obsessiva. O título traz o exagero que tende à literatura e o subtítulo é uma pérola: “Morta, Wilma Montesi passeia pelo mundo”.

“Como leitor e editor de García Márquez, escolhi textos em que se mostre latente essa tensão narrativa entre jornalismo e literatura, em que as costuras da realidade se estendam por seu incontrolável impulso narrativo, oferecendo aos leitores a possibilidade de desfrutar uma vez mais do ‘contador de histórias’ que foi García Márquez”, observa Cristóbal Pera.

E há outros exemplos desse estilo, como observa Anderson: “Caracas Sem Água e Só 12 Horas para Salvá-lo são clássicos do emergente estilo jornalístico de Gabo, no qual a narração, reconstrução minuciosa de dramas da vida real, é veiculada em tom de suspense, às vezes quase hitchcockiano, e com um desenlace que só se revela no fim”.

A editora Record pretende lançar ainda outra obra de Gabriel García Márquez, Maria dos Prazeres e Outros Contos, seleção de seis histórias curtas ilustradas, prevista para agosto.

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Leia como foi breve o encontro entre Gabriel García Márquez e Ernest Hemingway

Crônica intitulada 'Meu Hemingway Pessoal' consta no livro 'O Escândalo do Século' e relata o breve encontro entre o escritor e jornalista colombiano e grande autor americano

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2020 | 05h00

Gabriel García Márquez escreveu sobre diversas personalidades, como seus escritores preferidos. Aqui, na crônica intitulada Meu Hemingway Pessoal e que consta no livro O Escândalo do Século (a ser lançado pela editora Record), ele relata o breve encontro que teve com o grande autor americano Ernest Hemingway. O texto foi publicado no dia 29 de julho de 1981, no jornal espanhol El País.

 

*

Meu Hemingway Pessoal

 

Reconheci-o logo, passeando com sua mulher, Mary Welsh, pelo boulevard Saint-Michel, em Paris, num dia da chuvosa primavera de 1957. Caminhava do outro lado da rua em direção ao Jardim de Luxemburgo, e estava vestindo uma calça de vaqueiro muito usada, uma camisa quadriculada e um boné de beisebol. A única coisa que não parecia sua eram os óculos de armação metálica, redondos e minúsculos, que lhe davam um ar de avô prematuro. Fizera 59 anos, e era enorme e demasiado visível, mas não dava a impressão de força brutal que sem dúvida ele teria desejado, porque tinha cadeiras estreitas e as pernas um tanto magras sobre a base. Parecia tão vivo entre as barracas de livros de segunda mão e a torrente juvenil da Sorbonne que era impossível imaginar que lhe faltavam apenas quatro anos para morrer.

Por uma fração de segundo - como sempre me ocorreu - me encontrei dividido entre minhas duas profissões rivais. Não me decidia se o entrevistava ou se apenas atravessava a avenida para expressar minha admiração sem reservas. Para ambos os desígnios, no entanto, havia o mesmo grande inconveniente: eu falava então o mesmo inglês rudimentar que segui falando sempre, e não estava muito seguro de seu espanhol de toureiro. De maneira que não fiz nenhuma das duas coisas, que poderiam ter estragado aquele instante, e sim pus as mãos em forma de buzina, como Tarzan na selva, e gritei de uma calçada para a outra:

- Maeeeestro.

Ernest Hemingway compreendeu que não podia haver outro mestre entre a multidão de estudantes, voltou-se com a mão para cima, e gritou em castelhano com uma voz um tanto pueril:

- Adioooos, amigo.

Foi a única vez que o vi.

Eu era então um jornalista de 28 anos, com um romance publicado e um prêmio literário na Colômbia, mas estava encalhado e sem rumo em Paris. Meus dois mestres maiores eram os dois romancistas norte-americanos que pareciam ter menos coisas em comum. Lera tudo o que eles publicaram até então, mas não como leituras complementares, muito pelo contrário: como duas formas distintas e quase excludentes de conceber a literatura. Um deles era William Faulkner, a quem nunca vi com estes olhos e a quem só posso imaginar como o rancheiro em mangas de camisa que esfregava o braço perto de dois cachorrinhos brancos, na foto célebre feita por Cartier-Bresson. O outro era aquele homem fugaz que acabara de me dar adeus da outra calçada, e me deixara a impressão de que algo ocorrera em minha vida, e que ocorrera para sempre.

Não sei quem disse que nós, romancistas, lemos os romances dos outros só para saber como são escritos. Creio que é isso mesmo. Não nos conformamos com os segredos expostos diante da página, mas voltamos atrás, para decifrar as costuras. De alguma maneira impossível de explicar desarmamos o livro em suas peças essenciais e voltamos a armá-lo quando já conhecemos os mistérios da relojoaria pessoal. Essa tentativa é desencorajadora nos livros de Faulkner, porque não parece ter um sistema orgânico de escrever, e sim que andava às cegas em seu universo bíblico como um tropel de cabras soltas numa loja de vidros. Quando se consegue desmontar uma página sua, tem-se a impressão de que sobram molas e parafusos e que será impossível devolvê-la ao estado original. Hemingway, em compensação, com menos inspiração, menos paixão e menos loucura, mas com um rigor lúcido, deixava os parafusos à vista pelo lado de fora, como nos vagões do trem. Talvez por isso Faulkner seja um escritor que teve muito a ver com minha alma, mas Hemingway é o que mais teve a ver com minha profissão.

Não só por seus livros, mas por seu assombroso conhecimento do aspecto artesanal da ciência de escrever. Na entrevista histórica ao jornalista George Plimpton para a Paris Review ensinou para sempre - contra o conceito romântico da criação - que a segurança econômica e a boa saúde são convenientes para escrever, que uma das dificuldades maiores é a de organizar bem as palavras, que é bom reler os próprios livros quando se torna difícil escrever para recordar que sempre foi difícil, que se pode escrever em qualquer lugar sempre que não haja visitas nem telefone, e que não é certo que o jornalismo acabe com o escritor, como tanto se disse, e sim o contrário, desde que se o abandone a tempo.

- Uma vez que escrever se converteu no vício principal e no maior prazer - disse - só a morte pode acabar com ele.

Contudo, sua lição foi a descoberta de que o trabalho de cada dia só deve ser interrompido quando já se sabe como se vai começar no dia seguinte. Não creio que se tenha dado jamais um conselho mais útil para escrever. É, sem mais nem menos, o remédio absoluto contra o fantasma mais temido dos escritores: a agonia matinal diante da página em branco.

A obra de Hemingway demonstra que seu fôlego era genial, mas de curta duração. E é compreensível. Uma tensão interior como a sua, submetida a um domínio técnico tão severo, é insustentável no âmbito vasto e arriscado de um romance. Era uma condição pessoal, e seu erro foi ter tentado rebaixar seus limites esplêndidos. É por isso que o supérfluo se nota mais nele do que em outros escritores. Seus romances parecem contos sem medida nos quais sobram muitas coisas. Em compensação, o melhor de seus contos é a impressão de que algo ficou faltando, e é isso precisamente o que lhes confere mistério e beleza. Jorge Luis Borges, que é um dos maiores escritores de nosso tempo, tem os mesmos limites, mas teve a inteligência de não os rebaixar.

Um único tiro de Francis Macomber no leão ensina tanto como uma lição de caça, mas também como resumo da ciência de escrever. Em algum conto escreveu que um touro, depois de passar roçando pelo peito do toureiro, revolveu-se “como um gato dando a volta numa esquina”. Acredito, com toda a humildade, que essa observação é uma das tolices geniais que só são possíveis nos escritores mais lúcidos. A obra de Hemingway está cheia desses achados simples e deslumbrantes, que demonstram até que ponto se cingiu à sua própria definição de que a escrita literária - como o iceberg - só tem validade se está apoiada sob a água por sete oitavos de seu volume.

Por causa dessa consciência técnica, sem dúvida Hemingway não entrará para a história por nenhum de seus romances, mas por seus contos mais rigorosos. Falando de Por quem os sinos dobram, ele mesmo disse que não tinha um plano prévio para compor o livro, mas inventava à medida que ia escrevendo. Não precisava dizer: nota-se. Em compensação, seus contos de inspiração instantânea são invulneráveis. Como aqueles três que escreveu na tarde de 16 de maio numa pensão de Madri, quando uma nevada cancelou uma tourada da feira de San Isidro. Esses contos - segundo ele próprio contou a George Plimpton - são: Os assassinos, Dez índios e Hoje é sexta-feira, e os três são magistrais.

Dentro dessa linha, para o meu gosto, o conto em que melhor se resumem suas virtudes é um dos mais curtos: Gato na chuva. No entanto, ainda que pareça uma brincadeira do destino, parece-me que seu livro mais bonito e humano é o que apresenta mais problema de realização: Do outro lado do rio, entre as árvores. Como ele próprio revelou, é algo que começou como conto e se extraviou pelos mangues do romance. É difícil entender tantas rachaduras estruturais e tantos erros de mecânica literária num técnico tão sábio, e diálogos tão artificiais e até tão artificiosos num dos mais brilhantes ourives de diálogos da história das letras. Ao ser publicado, em 1950, a crítica foi feroz. Porque não foi certeira. Hemingway se sentiu ferido onde mais doía, e se defendeu em Havana com um telegrama passional que não pareceu digno de um autor de sua estatura. Não só era seu melhor romance, mas também o mais pessoal, pois fora escrito no princípio de um outono incerto, com a saudade irreparável dos anos vividos e a premonição nostálgica dos poucos anos que restam por viver. Em nenhum de seus livros deu tanto de si mesmo nem conseguiu plasmar com tanta beleza e tanta ternura o sentimento essencial de sua obra e vida: a inutilidade da vitória. A morte de seu protagonista, de aparência tão tranquila e natural, era a prefiguração cifrada do próprio suicídio.

Quando se convive por tanto tempo com a obra de um escritor muito apreciado, termina-se irremediavelmente por misturar sua ficção com a realidade. Passei muitas horas de muitos dias lendo naquele café da Place de Saint-Michel que ele considerava bom para escrever, porque lhe parecia simpático, quente, limpo e amável, e sempre esperei encontrar outra vez a moça que ele viu entrar numa tarde de vento gelado, que era bela e diáfana, com o cabelo cortado em diagonal, como uma asa de corvo.

“Você é minha e Paris é minha”, escreveu para ela, com esse inexorável poder de apropriação que tem sua literatura. Tudo o que escreveu, todo instante que foi seu, continuam a lhe pertencer para sempre. Não posso passar pelo número 112 da rua do Odéon, em Paris, sem imaginá-lo conversando com Sylvia Beach numa livraria que já não é a mesma, matando tempo até as seis horas, quando talvez chegasse James Joyce. Nas pradarias do Quênia, só de olhar uma vez, fez-se dono de seus búfalos e seus leões, e dos segredos mais intrincados da arte de caçar. Fez-se dono de toureiros e pugilistas, de artistas e pistoleiros que só existiram por um instante, enquanto foram seus. Itália, Espanha, Cuba, meio mundo está cheio dos lugares de que se apropriou só por mencioná-los. Em Cojímar, um povoado perto de Havana onde vivia o pescador solitário de O velho e o mar, há uma capelinha comemorativa de sua façanha, com um busto de Hemingway pintado com verniz dourado. Em Finca Vigía, seu refúgio cubano onde viveu até pouco antes de morrer, a casa está intacta entre as árvores sombrias, com seus livros desiguais, seus troféus de caça, seu atril para escrever, seus enormes sapatos de morto, as incontáveis bugigangas da vida e do mundo inteiro que foram suas até a morte, e continuam a viver sem ele com a alma que lhes infundiu pela única magia de seu domínio. Há alguns anos entrei no automóvel de Fidel Castro - que é um obstinado leitor de literatura - e vi no banco um livrinho encadernado em couro vermelho.

- É o mestre Hemingway - disse-me.

Na realidade, Hemingway continua a estar onde menos se imagina - vinte anos depois de morto -, tão persistente e ao mesmo tempo tão fugaz como naquela manhã, que talvez fosse de maio, em que me disse adeus, amigo, da outra calçada do boulevard Saint-Michel.

 

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