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Livro badalado da camaronesa Imbolo Mbue observa famílias durante crise financeira

Romance explora a vida de duas famílias, uma camaronesa e outra americana, durante a crise financeira de 2008

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2017 | 05h00

O primeiro livro de Imbolo Mbue, 36 anos, chega no momento oportuno e fazendo barulho: em 2014, ele foi comprado por uma soma de sete dígitos em Frankfurt, e no ano seguinte seus direitos foram vendidos para o cinema com o mesmo bafafá. Aqui Estão Os Sonhadores, que chega ao Brasil em edição da Globo Livros, conta a história de duas famílias durante a explosão da bolha financeira de 2008 em Wall Street: uma de camaroneses tentando se estabelecer em Nova York (cidade em que a escritora vive há 18 anos), e outra de norte-americanos brancos e ricos, lidando com as consequências da crise.

O grande triunfo do romance é humanizar essas relações e colocá-las no mesmo pedestal, o que o faz, segundo a própria autora, um livro mais sobre famílias do que propriamente sobre imigração. Mbue conversou com o Estado por telefone.

Mesmo com um grande sentimento de aflição o tempo todo, o livro parece nunca perder um senso de otimismo. Como?

Tem a ver com os personagens. Essa atitude faz parte da nossa cultura. As pessoas (de partes da África) encontram jeitos de serem alegres e felizes com coisas que não estão indo tão bem. Esse sentido de tentar se manter e ainda não ficar todo deprimido… quer dizer, nós realmente sofremos, mas os camaroneses têm uma atitude mais positiva, sim.

O “sonho americano” está se perdendo?

Não sou grande fã da ideia toda do “American Dream”. Você vem aqui, trabalha e tem uma vida boa... Eu vi muita desigualdade nesse país. Os outros países também têm, mas essa coisa de que todo mundo tem uma chance igual não é o caso. Temos recessão, preconceitos, e enquanto a América foi um grande país para mim em vários sentidos, eu ainda vivi muitas dessas desvantagens. Eu sei que pessoas virão para cá com o American Dream na cabeça, mas e se ganharem dois dólares por hora? Como alguém vai comprar uma casa com dois dólares por hora? 

Críticos disseram que seu livro é tanto um romance americano quanto um romance africano. Como você vê?

É engraçado. Eu sou muito africana, orgulhosa disso, mas também sou muito americana. Eu nasci lá, mas vivi aqui metade da vida, tenho um jeito americano de pensar. Esse livro é inspirado pelo meu tempo na América, vivendo em Nova York passando por esse período de recessão. Nesse sentido, é um romance americano. Mas também é um romance africano porque é uma grande celebração da minha cultura africana. É estranho ter que decidir.

A imigração foi um dos principais temas das eleições americanas recentes. Por que você acha que isso aconteceu?

O país precisa de reformas de imigração. Há 11 milhões sem documentos legais, e muitos são trabalhadores com grande chance de contribuir para o país e viver nele. Há essa retórica de que “estão roubando nossos empregos”, eu não entendo isso. Fico preocupada com pessoas sendo transformadas em vilãs, e toda essa negatividade. Quando eu vim, a América era um lugar mais acolhedor. Mas muitas coisas aconteceram… o 11 de Setembro, a recessão. Tem muito a ver com o American Dream, as pessoas parece que começaram a perceber que ele estava em perigo. Trump veio e disse coisas que as pessoas queriam ouvir. É o que os políticos fazem. Tem muito a ver com emoções.

Qual o sentimento geral por aí?

Fiquei desapontada com a eleição. Mas quero ser otimista. Há alguma fé por aqui. Vou manter meus olhos abertos. Nós não vamos só sentar e esperar, vamos nos engajar, estamos todos querendo que o país se mova na direção certa.

TRECHO

“Hein?”, disse Jende.

“Quer dizer que não vou ter que ir à corte agora para ouvir que preciso deixar o país o mais depressa possível?”

“Não! (...) Ainda há um longo processo pela frente.”

“Então eu ainda posso ter alguns anos neste país?”

“Alguns anos?”, Bubakar perguntou em tom de zombaria. “Que tal trinta anos? Conheço gente que vem brigando com a Imigração desde sempre. Durante esse tempo, foram à escola, se casaram, tiveram filhos, começaram negócios, ganharam dinheiro e gozaram a vida. A única coisa que não podem fazer é sair do país. Mas se você está nos Estados Unidos, o que há para se ver lá fora, abi?”

Jende riu. (...) Talvez a levasse para ver o oceano Pacífico, que Vince Edwards lhe dissera ser o lugar onde vira o pôr do sol mais lindo, que o deixara com lágrimas nos olhos e sentindo-se humilde diante da beleza do Universo, o magnífico presente que é a Presença na Terra, o quanto é vão perseguir alguma coisa que não seja Verdade e Amor.”

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