Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Livrarias criam 'estande-manifesto' na Bienal do Livro de São Paulo

Compartilhado por mais de 20 livreiros, estande quer mostrar aos visitantes da Bienal a importância das lojas físicas

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

06 de julho de 2022 | 07h10

Um grande estande instalado no coração da Bienal do Livro de São Paulo tem um objetivo muito maior do que o lucro. A Grande Livraria está ali para mostrar o que é uma livraria e encontrar nos visitantes da feira novos clientes e aliados em sua luta por sobrevivência.

Trata-se de uma livraria coletiva. Operada pela distribuidora Catavento, ela reúne 25 lojas de São Paulo e de outros locais que, à primeira vista, poderiam ser consideradas concorrentes. Mas neste momento de crise, em que Saraiva e Cultura diminuíram drasticamente o número de lojas, que livrarias pequenas vão fechando as portas, e as que restaram ou que começaram agora enfrentam um inimigo comum, o varejo online, não há competição.

“Quanto mais livraria e mais concorrência tiver, melhor”, afirma Alexandre Martins Fontes, dono da Martins Fontes Paulista, presente no estande. 

A aproximação entre os livreiros se fortaleceu na pandemia, quando foram criados grupos de trabalho nas entidades do livro para pensar ações que pudessem minimizar os efeitos da crise que afetava, em diferentes medidas, cada uma delas.

Estão ali, lado a lado, empresas como rede Leitura, hoje a maior em número de lojas, e a Livraria da Tarde, de Pinheiros, ou a Leonardo DaVinci, do Rio. E ainda Megafauna, Travessa, Loyola, Curitiba, Livruz, Vila e Dois Pontos, entre outras.

Eles se organizaram da seguinte forma: o custo foi dividido em 100 cotas. Cada livreiro podia escolher entre 1 ou 15 cotas. Com a grande adesão, o máximo foi reduzido para 11 cotas. Se o negócio der prejuízo, quem tem menos cota perde menos. Se der lucro, quem tem mais ganha mais.

“Mas não estamos pensando no resultado material. Esse estande é o nosso manifesto. É a concretização do que estamos conversando no dia a dia. Sabemos que qualquer livraria brasileira ganha na medida que outras existam em diferentes cidades, e o País também ganha. Essa é a nossa luta contra empresas que não vivem da venda de livro e que usam o livro como boi de piranha. Uma luta legítima que nos une a todos”, diz Alexandre Martins Fontes, que é também editor e vice-presidente da Associação Nacional de Livrarias.

Ele se refere à política agressiva de preço adotada por varejistas online, postura que uma livraria independente não pode seguir. “Temos o carinho e o apoio das pessoas, que reconhecem a importância das livrarias físicas, mas é muito frequente que a compra seja feita na Amazon, que oferece um preço inferior”, diz. 

Para o livreiro, se o Brasil tivesse uma lei do preço fixo, como muitos países europeus têm, as vendas no estande, que tem estado lotado desde que a Bienal começou, no sábado, 2, e em qualquer livraria do País, no mínimo dobrariam. 

Portanto, quem passar pela Grande Livraria, no Expo Center Norte, até vai encontrar desconto, mas nada comparado à Amazon. Esse estande, explica o livreiro, é justamente para iniciar essa discussão com a sociedade.

No final da tarde de segunda, 4, a livraria estava lotada e as maquininhas para checar o preço estavam trabalhando a todo vapor. Mariana tinha uma pilha de livros em mãos para decidir o que levaria. Um garotinho pedia um novo volume de O Diário de Um Banana. Dois adolescentes trocavam impressão sobre um autor. Uma garota chamava a amiga para ver o livro que outra amiga tinha indicado: É Assim Que Acaba, de Colleen Hoover. E Lara, de 13 anos, deixava o caixa com o livro que tanto queria. “Achei a loja muito bonita e resolvi comprar aqui”, conta a garota que foi à Bienal com a escola.

Claudia Machado, analista de marketing da distribuidora Catavento, observou dois movimentos interessantes. Geralmente, na feira, as editoras vendem muitos exemplares de alguns poucos títulos. Em sua lista de livros vendidos nos últimos dias constavam nada menos do que 500 títulos, muitos deles de fundo de catálogo. “Isso não é comum na Bienal; foi uma experiência que a livraria proporcionou”, afirma. 

O outro: obras de editoras com estande na Bienal estão vendendo muito bem. É Assim Que Acaba, que chamou a atenção das adolescentes, é o best-seller – e a autora é a mais vendida também na Record.

O slogan do espaço é Tudo começa na livraria. E a ideia é que a Bienal continue nos mais variados pontos de venda. Quem comprar no estande até o fim da feira, no domingo, 10, vai ganhar um voucher de 10% para usar em qualquer loja parceira. Era para ter sido assim desde o início, mas o cartãozinho não ficou pronto em tempo e deve começar a ser distribuído hoje.

“O espaço tem estado lotado, é um fenômeno. Mas não viemos mesmo pelo lucro – e, sim, para marcar uma posição”, finaliza Martins Fontes. 

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Veja aqui fotos do primeiro fim de semana da Bienal.

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