LORENZO PASSONI / ICON DESIGN
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Livraria nas montanhas oferece o prazer da leitura a 3.400 m de altura

laFetrinelli ganhou o título de livraria mais alta da Europa – muito provavelmente do mundo

A. J. Oliveira ESPECIAL PARA O ESTADO COURMAYEUR, ITÁLIA, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 11h50

Em um pequeno espaço perto do topo de uma das maiores montanhas da Europa, abriu as portas recentemente uma loja de livros diferente de qualquer outra: a laFeltrinelli 3466. Situada no interior de uma estação de teleférico a uma altitude de 3.466 metros, ganhou o título de livraria mais alta da Europa – muito provavelmente do mundo. Foi construída em Ponta Helbronner, um dos cumes que despontam do icônico Mont Blanc, que não é um único monte, mas sim um maciço de montanhas dividido pela Itália, França e Suíça.

Para chegar lá, é preciso subir por 20 minutos a bordo de uma cabine ampla e moderna, com grandes janelas que proporcionam vista panorâmica da deslumbrante natureza selvagem dos Alpes. É como o bondinho do Pão de Açúcar, só que giratório, para que todos os até 80 visitantes a bordo tenham a chance de contemplar tanto as montanhas, quanto os dois cênicos vales lá embaixo, Ferret e Veny, além da charmosa Courmayeur. A cidade, destino famoso entre alpinistas, fica a poucos quilômetros da fronteira francesa.

Durante a subida, dá para ver do alto as cabras ibex, exímias escaladores nativas daquela região. No século 19, a espécie foi implacavelmente caçada e levada à beira da extinção: estima-se que, em 1856, havia só 60 animais confinados em uma reserva. Mas projetos de preservação conseguiram elevar o número de espécimes para 40 mil e reintroduzi-los pelos Alpes. Lá em cima, fica até um pouco difícil de respirar, já que o ar é mais rarefeito.

A livraria em si tem o tamanho de um bom apartamento: 60 m². Apesar de pequena, é aconchegante e convidativa. Com catálogo de 376 títulos e 1.726 volumes, a laFeltrinelli 3466 foi inaugurada em 21 de junho, a princípio com a ideia de ser algo temporário, uma pop-up store. Duraria só até setembro, para aproveitar a alta temporada dos meses de verão. “Mas vendeu tão bem, tanto livros quanto souvenirs, que decidimos manter”, afirma Maria Lagazzi, porta-voz da Skyway Monte Bianco, empresa que opera o teleférico.

Ela conta que a visão do Mont Blanc e a sensação de estar em um lugar único no mundo incentiva os visitantes a levarem uma recordação. Toda vez que alguém compra um livro na livraria mais alta da Europa, Ylenia Mareliati, atendente de caixa, usa um carimbo especial para eternizar nas páginas a lembrança da visita. “É belo trabalhar aqui com essa vista”, ela confessa. O ponto forte são os livros de montanhismo: uma vasta seleção de títulos conta histórias de superação de alpinistas e explora a relação do ser humano com a montanha.

Impossível não se arrebatar por elevadas reflexões ao folhear um bom livro em uma das mesinhas à frente da janela. Entre uma página e outra, novas ideias vão sendo absorvidas e ganham ares sublimes ao levantar o olhar e contemplar o gelo eterno do Mont Blanc. Mesmo no verão, lá em cima fazia 3 graus — no inverno pode chegar a menos 40. Há um mirante em cima da estação para admirar a magnificência e respirar o ar puro do cume. 

Por trás do projeto da livraria, há um conceito que desdobra paralelos instigantes entre viajar, ler e subir a montanha. “Os leitores, como os próprios livros, têm dentro de si o desejo extraordinário de horizontes sempre novos, e o fôlego para ir adiante e buscá-los”, lê-se na placa em uma das paredes da sala que, até junho, abrigava uma exposição de cristais extraídos do subsolo da montanha. “Este lugar é feito para eles: leitores e livros. Um lugar único e inesperado onde se pode fazer uma pausa, encontrar novas histórias, imergir na leitura com o Mont Blanc como companheiro e fonte de inspiração.”

A verdade é que a parceria se mostrou bastante proveitosa para ambas as empresas. Como uma das maiores redes de livrarias italianas, com mais de 120 lojas espalhadas pelo país, a marca atrai visitantes para o teleférico, que por sua vez oferece ao grupo Feltrinelli a chance única de estar presente no ponto mais alto da Europa Ocidental – o Monte Elbrus, com seus 5,6 km de altura, chega a ser maior que o Mont Blanc.

Mas, tecnicamente, fica no Cáucaso, em território russo, então é meio europeu, meio asiático. Outra livraria com título curioso, que está até no Guinness Book, fica a 230 metros do chão, no 60º andar de um hotel em Xangai, na China: é a mais alta dentro de um prédio.

Em termos de altura absoluta, é claro que ela não chega nem perto da nova livraria alpina. Durante sua inauguração, a presidente da Skyway Monte Bianco, Federica Bieller, ressaltou seu significado. “Graças à abertura da laFeltrinelli 3466, nosso tecnológico teleférico valoriza ainda mais a subida, tornando-a uma excursão cultural”, explicou a executiva. “A valorização da cultura de montanha, passar adiante as palavras dos autores que a amaram e a desafiaram, o Mont Blanc como cenário para fantasiar”, diz Bieller.

Em funcionamento no lado italiano da montanha desde 1947, toda a infraestrutura passou por uma gigantesca reforma entre 2011 e 2015. Com um investimento de € 110 milhões, a capacidade de visitantes por ano cresceu de 100 mil para 300 mil. As estações formam um verdadeiro complexo turístico, com diversas atrações ao longo da subida. Na estação-base, Courmayeur: The Valley (O Vale) há apenas a bilheteria e um café.

Mas, na parada intermediária, Pavillon: The Mountain (A Montanha), a 2.173 metros de altitude, o visitante se torna explorador e tem uma miríade de atividades à sua disposição. No Buffet Alpino, pode degustar os deliciosos sabores da bela região do Vale de Aosta, onde fica Courmayeur; dentro da estação tem até cinema e centro de convenções, além de uma vinícola um tanto especial – a Cave Mont Blanc.

Seu espumante Cuvée des Guides, com apenas cem garrafas produzidas ao ano, tem propriedades únicas por conta das baixas pressão atmosférica e temperatura naquela altitude. Do lado de fora, um passeio pelo Jardim Botânico Saussurea, que reúne mais de 900 espécies de plantas e flores de várias partes do mundo, oferece um vislumbre da natureza alpina, com uma profusão de insetos voando, pulando e zunindo por toda parte. 

Montanhistas podem ir e vir como quiserem pelo ambiente ao redor, fazendo trilhas nos meses mais quentes, mas recomenda-se sempre o acompanhamento de guias. “A montanha é livre, nós não freamos ninguém”, afirma Lagazzi. O mesmo vale para esquiadores, que podem descer o Mont Blanc no inverno, mesmo sem grandes estruturas para a prática. É preciso ter experiência. “Não é como esquiar em pista”, ela diz. Já quando chega na estação final, Punta Helbronner: The Sky (O Céu), o explorador vira peregrino.

Aqui, no ponto mais alto da Europa, ou em outra perspectiva, o ponto mais baixo do céu, além da laFeltrinelli 3466 e do observatório 360 graus, é possível fazer uma leve refeição ou tomar um café no bistrô panorâmico, e até atravessar a vertiginosa passarela toda de vidro SkyVertigo. A sensação é de estar caminhando pelo céu sobre o gelo eterno do cume lá embaixo. Àquela altitude, o clima muda rápido: Lagazzi dá a dica de fazer a subida de manhã, quando a visibilidade é melhor. Tocar o céu e regressar ao vale é um pouco como começar e concluir a leitura de um bom livro – não se é mais o mesmo no final.

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