Tiago Queiroz/Estadão
Johanna Stein, dona da livraria Gato Sem Rabo, com a equipe (da esq. para a dir.): Yala Araujo, Maria Carolina Borin e Livia Debbané Tiago Queiroz/Estadão

Livraria Gato Sem Rabo abre as portas no centro só com livros escritos por mulheres

Inauguração da livraria de Johanna Stein será no sábado, 29; a Gato Sem Rabo fica na Amaral Gurgel

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

27 de maio de 2021 | 05h00
Atualizado 03 de junho de 2021 | 11h11

Correções: 03/06/2021 | 11h10

Primeira livraria de São Paulo exclusiva para obras escritas por mulheres, a Gato Sem Rabo abre suas portas para o público neste sábado, 29, na Rua Amaral Gurgel, 338, em frente do Minhocão. A iniciativa é de Johanna Stein, ex-modelo formada em Artes Visuais que, mesmo sem conhecer nada ou ninguém do mercado editorial, decidiu se aventurar num negócio cujo modelo está em xeque. Se em 2018 as livrarias físicas eram responsáveis por 50,5% do faturamento das editoras, segundo a Pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial Brasileiro, em 2019 esse índice caiu para 41,6% e, em 2020, para 30%. 

Mas ela está otimista – e abertura de novas livrarias de rua é um movimento que está ocorrendo nas principais cidades do mundo (embora aqui, por ora, haja mais fechamentos). Johanna acredita que por não ter conhecimento dos modelos existentes, não saber exatamente como as outras livrarias funcionam, é que a Gato Sem Rabo já começa diferente. Ela teve uma consultoria profissional, claro, mas entende que o que vai fazer a diferença é justamente esse outro jeito de pensar. “A Gato Sem Rabo nasce de uma curadoria e do movimento que existe e é liderado pelos leitores – há uma demanda crescente de leitura de obras de mulheres e de outras perspectivas. Acredito que estamos muito mais próximos de um movimento pela leitura do que de um modelo de negócio de livraria”, diz a nova livreira, que acaba de completar 30 anos.

O nome foi tirado de Um Quarto Só Seu, texto de Virginia Woolf do final dos anos 1920, e Johanna conta que, para o acervo, considerou “os escritos de mulheres e os cruzamentos que essa definição abrange”. O objetivo, segundo ela, foi olhar para a produção do mercado editorial brasileiro a partir de uma perspectiva que não a do homem branco ocidental privilegiado. “Um olhar a partir dessas outras perspectivas: de mulheres, corpos dissidentes, não binários, do Sul global, principalmente. A ideia é trazer para a livraria justamente o que seriam esses gatos sem rabo, todos aqueles animais que fogem do cânone universal”, explica – e diz que o mercado editorial sempre privilegiou a autoria masculina. Com a livraria, ela espera ajudar a dar mais visibilidade a essas autoras.

Mas a Gato Sem Rabo não é uma livraria de nicho. Há ali todos os gêneros e assuntos. Entrando, o leitor encontra, à esquerda, poesia, ficção, conto e crônica. Depois tem um canto para as crianças. Outro para a geração Z, com leituras jovens. Na sequência, arte e livros de artistas e então uma seção mais ampla, chamada de Humanidades. Ela tem 65 m² e cerca de 1.700 títulos de 650 escritoras publicados por quase 200 editoras. Haverá também um café, e a ideia é realizar conversas sobre livros presencialmente na livraria, quando for mais seguro por causa da pandemia. 

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“Acredito que estamos muito mais próximos de um movimento pela leitura do que de um modelo de negócio de livraria”
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Johanna Stein, Proprietária da Gato Sem Rabo

Já era para ela estar funcionando, mas a inauguração precisou ser adiada algumas vezes. De março para cá, quando se começou a falar na Gato Sem Raboa coluna Babel foi a primeira a noticiar o novo negócio –, a livraria ganhou nada menos que 9 mil seguidores no Instagram. Em maio, ela começou a organizar esses debates – quinzenais e online. Os dois primeiros “circuitos” foram sobre Virginia Woolf. 

Na semana passada, quando precisou adiar mais uma vez a abertura porque as estantes não estavam prontas, Johanna resolveu que começaria a atender o público por WhatsApp e se surpreendeu com a procura no primeiro dia. Os dois primeiros livros vendidos foram Eisejuaz, de Sara Gallardo (1931-1988), publicado pela Relicário, e Ética do Amor Livre: Guia Prático Para Poliamor, Relacionamentos Abertos e Outras Liberdades, de Janet W. Hardy e Dossie Easton, editado pela Elefante.

A livraria vai funcionar de terça a sábado, das 11h às 17h. Quem preferir receber em casa, as entregas são feitas duas vezes por semana, pela Señoritas Courier. O e-commerce ainda está sendo finalizado.

Correções
03/06/2021 | 11h10

A Gato Sem Rabo é a primeira livraria de São Paulo dedicada a obras de autoras mulheres, e não do Brasil, como informamos. Entre o início da década de 1990 e o início dos anos 2000, funcionou em Curitiba a Lilith. Hoje, no entanto, apenas a Gato Sem Rabo está em operação com essa característica.

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Nova livraria online, Dois Pontos aposta na seleção e contextualização na hora de vender livro

Recém-inaugurada, a livraria exclusivamente virtual de Ciça Pinheiro e Ana Paula Rocha nasce com dois clubes de assinatura

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

27 de maio de 2021 | 05h00

Você entra em uma livraria e se depara com uma mesa de livros de autores africanos. Você nunca leu um autor africano, mas aquilo chama a sua atenção. Você compra, gosta, continua lendo. Em uma livraria online, dificilmente isso aconteceria. “O algoritmo não passa por isso. Se você nunca buscou um autor africano, ele não vai te sugerir nada nessa linha. O que queremos é dizer às pessoas: isso não está no seu histórico, mas essa é a nossa seleção e talvez você goste”, comenta Ana Paula Rocha, de 45 anos, sócia da recém-inaugurada Dois Pontos, livraria exclusivamente virtual que aposta no conteúdo, numa seleção plural, na contextualização de seu acervo e no diálogo constante com o leitor. 

Ana Paula é economista, foi sócia da Zahar até a venda para a Companhia das Letras, e aceitou o convite da amiga de infância Ciça Pinheiro, de 44 anos, ex-Trip e responsável pela estratégica de marca e comunicação da Todavia, para esse projeto – que começou a ser estruturado em outubro. “Amamos livrarias e sabemos que há excelentes livrarias. No online, achamos que essa parte de dica, seleção e conteúdo tinha um lugar ainda não totalmente explorado. Para nós, é importante ajudar o leitor a encontrar um livro e o livro encontrar um leitor. Fazemos nossas seleções e contamos por que escolhemos essas obras”, diz Ciça. 

A Dois Pontos tem 10 funcionários e base em São Paulo. Ana Lima Cecilio, que teve passagens por editoras como a Biblioteca Azul, da Globo, e a Carambaia, é a gerente de conteúdo. Outro diferencial da livraria é que ela já nasce com dois clubes de assinatura, um modelo de negócio que conquistou muitos leitores durante a pandemia

O Histórias Irresistíveis manda para os assinantes uma obra inédita de ficção. O Bússola, um livro de não ficção, sempre sobre assuntos urgentes, que possa ajudar o leitor a entender melhor questões, por exemplo, como a indígena, ou o envelhecimento, ou o meio ambiente. “Um bom livro sempre nos dá uma nova perspectiva. Queremos livros que, de algum jeito, coloquem o assunto no colo das pessoas para elas pensarem sobre aquilo”, comenta Ciça.

A Dois Pontos chega num momento de crise para o mercado editorial, que se estende já há alguns anos. Com a pandemia, as livrarias físicas, que já vinham perdendo espaço, ficaram ainda mais prejudicadas e é consenso que é hora de repensar modelos. No meio-tempo, conforme mostrou a Pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial Brasileiro, revelada nesta terça, 25, livrarias exclusivamente virtuais foram responsáveis, em 2020, por 84% do faturamento das editoras. 

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