Wilton Junior / Estadão
Wilton Junior / Estadão

Literatura em 2017: ano marcado pelo aumento de 6% nas vendas e despedida de Antonio Candido

Foi em 2017 também que a obra de Lima Barreto voltou a protagonizar discussões – com uma nova biografia, várias reedições e a homenagem na Flip

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2017 | 06h01

Depois de um encolhimento de mais de 20% em três anos, o mercado editorial brasileiro apresentou sinais de recuperação em 2017: os números ainda não estão fechados, mas segundo o mais recente Painel das Vendas de Livros no Brasil, o mercado tem no acumulado do ano 6% de crescimento no faturamento em relação a 2016. Quem mais vendeu livros no Brasil em 2017 foi o padre Reginaldo Manzotti, cuja Batalha Espiritual ocupa o número 1 da lista de mais vendidos do ano do site PublishNews.

+ Os melhores livros de 2017 lançados no Brasil

Foi em 2017 também que a obra de Lima Barreto voltou a protagonizar discussões – com uma nova biografia, várias reedições e a homenagem na Flip.

Pilar fundamental da intelectualidade brasileira de todos os tempos, Antonio Candido morreu neste 2017, aos 98 anos, lúcido como sempre, e, segundo a família, um tanto decepcionado com os rumos do Brasil naquele já longínquo mês de maio. Ainda aguardamos publicações de textos que Candido deixou, inéditos e reeditados.

O ano também teve a perda irreparável de Elvira Vigna, romancista brasileira que vinha numa série de romances brilhantes que, entre as camadas de narrativas sobre relacionamentos humanos, atacavam a linguagem para desvendar o Brasil dividido. Elvira partiu com um último toque de mestre – não revelou o câncer que lhe afligia há alguns anos para que a doença não afetasse convites a eventos e participações. A literatura também sofreu outras perdas como de Angela Lago, John Ashbery, Sam Shepard, Lillian Ross, Tzvetan Todorov, Zygmunt Bauman e, entre outros, de Ricardo Piglia.

Piglia havia terminado de editar a terceira parte dos seus diários, os três já publicados em espanhol: a editora Todavia (surgida também em 2017 e com alguns destaques nas listas de melhores livros do ano) publicou a primeira parte deles, Anos de Formação: Os Diários de Emilio Renzi, no segundo semestre.

Um desses livros da Todavia é O Vendido, de Paul Beatty – o primeiro americano a vencer o Man Booker Prize, em 2016 (este ano viu outro americano levar o prêmio britânico, George Saunders). O romance é uma releitura satírica da segregação racial nos EUA. Octavia Butler (1947-2006) também teve uma obra sua publicada pela primeira vez aqui, o romance Kindred, que conta a história de uma norte-americana negra que é transportada dos anos 1970 para o início do século 19, e encontra seus ancestrais. 2017 marcou o centenário de morte de Maria Firmina dos Reis, primeira romancista negra do Brasil e pioneira na literatura abolicionista (a PUC-Minas reeditou Úrsula, seu principal romance). E nos quadrinhos, a editora Veneta publicou recentemente o aguardado Angola Janga – Uma História de Palmares, de Marcelo D’Salete, que reconta com auxílio da ficção a história do principal foco de resistência negra do Brasil Colonial. Alguns dos livros lançados que podem contribuir com esse debate central da sociedade brasileira, não só de 2017, mas de sempre.

Depois de um ano agitado na Academia Sueca com a escolha de Bob Dylan para o Nobel de Literatura, em 2017 os escandinavos preferiram uma aposta segura e o escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro, autor de Os Vestígios do Dia, foi agraciado em outubro. Uma consagração precoce, disseram alguns, mas sem grandes contestações. O escritor é editado no Brasil pela Companhia das Letras.

O ano marcou dois aniversários de 50 anos relevantes para a literatura: a morte de Guimarães Rosa, que teve sua ficção completa reeditada pela Nova Fronteira, e os 50 anos da publicação de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, um dos romances fundamentais da América Latina do século 20. Com o centenário da Revolução Russa, 2017 viu também muitos lançamentos sobre a data.

O ano teve também, em meio a todo o debate sobre liberdade nas artes visuais, um processo judicial do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, contra o escritor Ricardo Lísias, por um livro de ficção (Diário da Cadeia, que vinha assinado por Eduardo Cunha (pseudônimo)). O processo já transitou em julgado nos tribunais superiores, sempre a favor do escritor e da circulação do livro. Lísias agora aguarda o julgamento de uma ação sua contra o ex-deputado.

Na área digital, o inédito Censo do Livro Digital apontou que o segmento representa 1% do faturamento das editoras pesquisadas (a pesquisa agora se torna o marco inicial para uma série histórica).

No ano do ‘Menino do Acre’ (cujo livro chegou a figurar na lista de mais vendidos), Augusto Cury e Dan Brown tiveram as ficções mais vendidas, seguidos de perto por Rupi Kaur, poeta que se consagrou no Instagram. Sextante, Grupo Companhia das Letras e Intrínseca são as três editoras com mais livros na lista ao longo de 2017 (tudo isso segundo o PublishNews). E já no fim de um ano tão complicado para os EUA, a The New Yorker viu um conto de ficção (Cat Person) viralizar e se tornar o texto mais lido da revista. / COLABOROU ANDRÉ CÁCERES

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.