Adriano Escanhuela/Divulgação
Adriano Escanhuela/Divulgação

Literatura e bom humor dão o tom no Festival da Mantiqueira

Em sua oitava edição, evento reuniu, em São Francisco Xavier, nomes como Raimundo Carrero, Marçal Aquino e Paulo Scott

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2015 | 17h45

SÃO FRANCISCO XAVIER - No meio de uma praça e ao lado de um ou outro cavalo, a simpática São Francisco Xavier, na Serra da Mantiqueira, a 150 km de São Paulo, recebeu neste fim de semana diversos escritores brasileiros para discutir a atual produção literária do País - tudo sob a curadoria de Luiz Ruffato. O tema proposto, a diversidade, foi cumprido com humor, discussões políticas e estéticas e boas participações.

A mesa mais concorrida foi a que reuniu Marçal Aquino, Sidney Rocha e Tércia Montenegro, sob a mediação do crítico literário João Cezar de Castro Rocha. O auditório da Praça Cônego Antônio Manzi encheu para ouvir as considerações sobre o conto - e certamente não se decepcionou com o bom humor contagiante de Rocha, as considerações de Aquino sobre a produção literária e sua relação com o cinema e as pinceladas precisas de Tércia - contista cearense prestes a lançar um romance, Turismo para Cegos, pela Companhia das Letras.

“Ao contrário de Edir Macedo (autor de Nada a Perder), tenho muito a perder, por isso levo sempre em conta a emoção do leitor”, afirmou Rocha, autor de Sofia e Matriuska. “Quando me perguntam a que movimento pertenço, digo que sou dos movimentos peristálticos”, brincou, em um dos não poucos momentos em que arrancou gargalhadas da plateia.

Tércia Montenegro, que também é doutora em Linguística e tem um pé nas artes plásticas, fez comentários preciosos sobre a relação da literatura com os outros gêneros artísticos. “Para mim, a literatura é um tipo de arte visual”, disse, “preciso ver alguma ligação com as artes plásticas, e em certo momento pensei em levar isso para a temática” - O Tempo em Estado Sólido, reunião de contos finalista do Jabuti e do Portugal Telecom, parte da ideia, segundo a escritora, de que cada obra solidifica um período da vida, ou seja, se transforma uma tentativa de romper com o efêmero.

Outra mesa reuniu Simone Campos, Paulo Scott e Raimundo Carrero, três gerações de romancistas que usaram muito de política para discutir os rumos do romance contemporâneo, também sob a mediação de Castro Rocha. “A literatura não é antropologia”, pregou Carrero, “na literatura não se diz, se esconde, apenas se sugere”, comentou. “Eu descobri o corpo só depois que perdi o meu”, falou, sobre um recente AVC.

A questão política e religiosa, na verdade, ditou os rumos do debate. “Minha geração não salvou o País”, comentou Scott, autor de O Habitante Irreal, que toca com força na questão política contemporânea, e mais recentemente, Ithaca Road, entre outros livros de diferentes gêneros. “O fundamentalismo evangélico brasileiro é horrível”, atestou Carrero, ele mesmo cristão convicto cuja espiritualidade é tema constante de sua obra. “Não sou puritano, nem fundamentalista: meu corpo é a minha metáfora”, concluiu.

A mesa sobre poesia, que reuniu Iacyr Antonio Freitas, Nicolas Behr e Heitor Ferraz Mello, com mediação de Christhiano Aguiar, misturou melancolia com leituras de poemas para fazer um diagnóstico realista do cenário do gênero lírico brasileiro atualmente. Questionados pelo mediador se eles se sentiam lidos, a resposta foi “não”.

Mato-grossense radicado em Brasília, Behr brincou que a cidade precisa dele. “É a cidade mais racional do mundo feita no País do jeitinho, das contradições” - a relação com o urbano também foi comentada por Mello, francês de nascimento que cresceu em São José dos Campos. “São Paulo é uma das cidades mais feias do mundo.”

A contínua relevância da crônica também foi discutida - Cidinha da Silva, Fabrício Carpinejar e Luís Henrique Pellanda, com mediação de Castro Rocha, se reuniram no domingo. “O cronista tem que aprender a estar no mesmo degrau do leitor”, comparou Carpinejar, “é preciso uma lição de desimportância” - disse, logo depois de brincar com o número do sapato do mediador (43). “Quando escrevo crônicas”, comentou Pellanda, “não quero que o leitor se identifique comigo, mas com o personagem que muitas vezes ele ignora nas ruas”.

Boa parte do público subiu a Mantiqueira para estar no Festival - que, na oitava edição, estimula comparações espontâneas com a Flip. “Gosto muito de ir a Paraty, e neste ano decidi conhecer aqui”, contou a professora universitária Izolda Cremonine, 72. A jornalista Paula Ribas, 40, e a produtora de cinema Camila de Oliveira, 32, também compararam o evento com a Flip. “É muito legal o trabalho de levar a literatura a cidades pequenas”, comentou Paula, ela própria buscando seu caminho nas letras. 

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PRODUÇÃO DO EVENTO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.