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Línguas & punhos afiados

Você acreditaria se alguém lhe contasse que Vinicius de Moraes deu tabefe em mulher? Pois saiba que aconteceu

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2015 | 09h23

Você acreditaria se alguém lhe contasse que um sujeito doce como o Vinicius de Moraes deu tabefe em mulher? Logo ele, que tão apaixonadamente as cantou, em mais de uma acepção do verbo? Pois saiba que aconteceu - e não soubemos disso por algum ressentido que o poeta, com desempenho amoroso mais apreciável, tenha despejado de coração feminino. Foi o próprio Vinicius quem revelou ter estapeado, e em público, um rosto de mulher alheia.

O episódio é contado numa carta ao amigo Lauro Escorel, recolhida por Ruy Castro no livro de correspondência Querido poeta. De Los Angeles, onde servia como diplomata, Vinicius escreveu, em setembro de 1949: “Nunca esquecerei a bofetada que dei, em retribuição, na G.P., mulher do ex-cônsul aqui. Tudo por causa de uma anedota sobre judeu, contra a qual reagimos possessos” - ele e Tati, sua primeira mulher.

Só uma história assim para me fazer voltar ao tema de que me ocupei nas duas últimas semanas, o de escritores que momentaneamente trocaram a pena pela luva de boxe, aí incluídos os uppercuts verbais, por vezes mais eficazes que um direto no queixo. Raul Pompeia e Olavo Bilac, por exemplo, não chegaram ao pugilato propriamente dito, mas trocaram ofensas tão devastadoras quanto os punhos de um peso-pesado. Melhor fora se tivessem feito como Carlos Drummond de Andrade, que Paulo Mendes Campos foi encontrar em desalinho na repartição, a procurar pelos óculos caídos: o poeta “embolara-se com um funcionário malcriado que o ofendera. E estava bem feliz com o resultado do round.”

No caso de Pompeia e Bilac, uma disputa política não tardou a descambar, em artigos na imprensa, para uma fuzilaria em meio à qual, jamais se saberá com que dose de razão, o primeiro foi chamado de “masturbador”, e outro, de “incestuoso”. Amigos conseguiram convencê-los a renunciar a um duelo com pistolas, mas não adiantou: inconformado, o romancista de O Ateneu matou-se no Natal de 1895, aos 32 anos. 

Não precisaram chegar a tanto José Lins do Rego e Lúcio Cardoso, expoentes do romance brasileiro que em 1937 se desentenderam na Livraria José Olympio, fervedouro de escritores no Rio de então. Também naquele caso, a desavença teve raiz na política: intelectuais se crisparam nas trincheiras inconciliáveis do comunismo e do integralismo, numa disputa que daria a Getúlio Vargas um pretexto para desfechar o golpe do Estado Novo. 

A escaramuça seguiu-se à publicação de Mundos mortos, do romancista católico Octávio de Faria. O livro foi mal recebido pelos cultores do “romance social”, entre os quais José Lins do Rego. Estava ele na livraria quando chegou Lúcio Cardoso, que também era católico. “Cambada de carolas!” - rosnou o autor de Doidinho. Em segundos, estavam aos socos e pontapés. “Esbofeteado o sr. José Lins do Rego”, alardeou um jornal. 

Menos mal que tenham usado só as mãos, e não atiçadores de fogo em lareira, como fez, em 1946, o filósofo Karl Popper contra Ludwig Wittgenstein, fazendo desandar uma conferência que proferia em Cambridge, universidade onde o colega imperava como estrela-mor. Disposto a provocá-lo já no título da fala - “Existem temas filosóficos?” -, a certa altura Popper abandonou a vã filosofia e empunhou um atiçador. O sururu durou pouco e terminou sem sangue, mas ainda é lembrado, tendo merecido um livro, The Story of a Ten-Minute Argument Between Two Great Philosophers, de David Edmonds e John Davior.

Em matéria de escritor batendo boca, sou mais o Monteiro Lobato, que em 1915, tendo recolhido no litoral paulista um pinguim extraviado, embarcou com ele num bonde em Santos. Esbarrou no rigor do motorneiro português: “É proibido conduzir aves nos bondes”. Tentou engrupi-lo com a conversa mole de que pinguim seria filhote de foca. “Com ave o bonde não segue”, fincou pé o condutor, interrompendo a marcha. “E se o Ruy estivesse aqui?” - sacou Lobato, como que encarnando sua personagem Emília. “Que Ruy?” - estranhou o outro. “A Águia de Haia”, de certa forma uma ave. Desfecho da história: o escritor teve que apear. Devolveu o bicho ao oceano - e guardou um consolo, registrado em carta a um amigo: de todos os pinguins, o seu foi o único que andou de bonde.

Mas chega desse assunto. O cronista não quer correr o risco de que a insistência lhe valha um uppercut, ainda que em sentido figurado.

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