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Daniel Bianchini
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Lilia Schwarcz fala de autoritarismo na Flip

Na mesa da edição virtual da 18ª. edição da Festa Literária, antropóloga critica o populismo e Bolsonaro

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2020 | 17h28

O brasileiro, antes de ser o homem cordial que a sociologia consagrou,  pode não ser apenas o fruto de uma sociedade autoritária, repleta de golpes e contragolpes políticos. Pode ser ele mesmo a raiz desse autoritarismo. Para discutir o tema, a professora de antropologia Lilia Moritz Schwarcz participou neste sábado (5), às 16h, de uma mesa na edição virtual da 18ª. Festa Literária Internacional de Paraty, que termina amanhã, domingo (6). A mediação do encontro, que teve a participação da socióloga Flávia Rios,  foi de Flávia Lima, ombudsman da Folha de S. Paulo.

Embora não trate do regime bolsonarista, no livro Sobre o Autoritarismo Brasileiro, lançado em maio de 2019 pela editora Companhia das Letras, Lilia Schwarcz  começa com uma análise sobre a cultura escravocrata que se enraizou no País e, segundo ela, se transformou “numa linguagem com graves consequências”. Não se escapava da escravidão, observa a antropóloga no livro. De padres e militares a grandes  proprietários, até os escravos libertos possuíam cativos. “E, sendo assim, a escravidão foi bem mais que um sistema econômico: ela moldou condutas, definiu desigualdades sociais, fez da raça e cor marcadores de diferença fundamentais”, escreve Lilian em seu livro.

Na sexta mesa da Flip, a antropóloga falou finalmente de Bolsonaro, classificando-o de autoritário, fruto de um movimento mundial  populista e tecnocrata que elege presidentes graças às redes sociais. Lembrou ainda que a pandemia do coronavírus acentuou as consequências de sua política “ligada à desinformação e à censura”, prejudicando o acesso a informações verdadeiras sobre a disseminação do vírus, que, segundo ela, acabou afetando as populações mais pobres e negros. Tanto que a segunda onda do vírus só foi anunciada depois das eleições, citou.

Flávia Rios pediu explicações sobre a polarização entre “elites” e classes populares no livro de Lilian Schwarcz. “O que tentei mostrar é que são várias as elites no Brasil, mas tenho muita fé nos espaços cívicos, na resistência popular, nas insurreições”. Ainda sobre esse confronto interclassista, Flávia Rios questionou o próprio título do livro – autoritarismo no singular –, mas Lilian Schwarcz respondeu que, na busca da peculiaridade, é possível chegar ao plural. Citou seu livro sobre Lima Barreto, escrito a partir do contexto da autora, do momento em que ela vive, mas que, ao retornar ao tempo do escritor, acabou descobrindo a raiz de problemas atuais. Flávia Lima tocou no tema das injustiças históricas que atingiram inclusive Barreto.

O conceito de “raça social”, assumiu Lilia, a fez romper com definições que parecem tão naturais, e que a levaram a escrever sobre Lima Barreto. O Brasil, acrescentou, é o país das desigualdades. “Quanto mais diversos formos, melhor seremos”, diz. Trabalhava-se tanto aqui no Brasil que, segundo a autora diz no livro, a expectativa de vida dos escravos no País era de 25 anos – contra 35 nos EUA. No caso das mulheres, a situação era ainda mais cruel. Servindo de objeto sexual para o senhor dos escravos, ela tinha de cuidar dos filhos dos brancos e abandonar os próprios na roda dos enjeitados, como era chamada a portinhola das instituições de caridade onde eram deixados os recém-nascidos bastardos ou rejeitados. A cultura do estupro e da violência no Brasil começou no século 16 mas não morreu, como lembrou a antropóloga.

“O começo simbólico do governo Bolsonoro, marcado pela intolerância, é bom lembrar, foi a citação de Ustra no impeachment de Dilma Roussef”. No passado, segundo a antropóloga, a resposta a esse tipo de provocação foi imediata. Em seu livro, narra Lilian, africanos escravizados reagiram com igual violência aos desmandos de seus senhores e feitores: formaram quilombos, promoveram revoltas e mataram. Trabalhando por vezes 18 horas por dia, recebendo apenas uma muda de roupas a cada ano, foram raros os casos dos escravos que tiveram acesso à alfabetização – e, sem estudo formal, não há possibilidade de mudança social, observa a autora. A Lei Áurea, de 1888, não mudou totalmente esse quadro. Foi nessa época e contexto, lembra, que surgiu o darwinismo racial, em que homens brancos e ocidentais ocuparam o topo da pirâmide.

No livro, a esse respeito, Lilian escreve que a emergência do racismo é, portanto, uma espécie de “troféu da modernidade”. “Se a presença de negros em espaços de prestígio social já era basicamente vedada, ou muito dificultada pela escravidão, permaneceu bastante incomum no começo de nossa história republicana”. Esse aspecto, o da exclusão dos negros das principais instituições brasileiras, foi  discutido na sexta mesa da Flip.

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