Leonardo Padura. Foto: WALTER CRAVEIRO/DIVULGAÇÃO
Leonardo Padura. Foto: WALTER CRAVEIRO/DIVULGAÇÃO

Liberdade inspira 'Hereges', nova obra de Leonardo Padura

No romance, autor trata da história de judeus em Cuba

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2015 | 03h00

Lançado originalmente em 2013, o romance Hereges (Boitempo), do cubano Leonardo Padura, ganha uma inesperada atualidade com a tradução que chega agora, ao Brasil, por mencionar um assunto delicado: a rejeição de imigrantes. O escritor baseou-se em um fato real para alicerçar sua história – em 1939, um navio trouxe muitos judeus a Cuba, esperançosos de fugir do nazismo que invadia a Europa. Mas, apenas poucos tiveram o direito de desembarcar em Havana –, o restante, depois de esperar por seis dias no navio, foi obrigado a voltar, selando o seu destino.

A trama se desenvolve em três tempos, desde a Holanda do século 17, passando pela Cuba dos anos 1940 e 50 até chegar aos dias atuais. Tudo filtrado pela trajetória de uma família de judeus e um quadro de Rembrandt. Sobre o assunto, o autor falou, por e-mail.

Como foi acertar o andamento em paralelo dessas histórias, em que já se adivinha a nova Cuba pós-embargo dos EUA?

O trabalho literário foi muito difícil, mas adivinhar como seria uma Cuba pós-embargo… Nem imagina algo assim! Entre outras coisas, porque esta Cuba ainda não chegou e, na verdade, nem me atrevo a tentar prever como será, pois não sei nem mesmo quando será. O embargo será eliminado dentro de um ano? De dez? Mas o que sei é que no romance tentei que cada história funcionasse em si mesma, com seu estilo, seus personagens, sua trama. Mas sempre deixando que, ao lado do tempo e da geografia, houvesse um fio capaz de conectá-las. Ou melhor, dois fios: um deles material, que é o pequeno quadro de Rembrandt, e outro conceitual, que é a necessidade da busca pela liberdade individual, em todo momento e lugar.

A história, então, pode ser compreendida como um paralelo ao momento da população cubana, que vê um futuro de abertura?

Sim, a busca pela liberdade individual é o conceito básico do livro, mas me preocupei para que não fosse vista de maneira específica, local, como um problema cubano da atualidade ou do futuro, e sim como uma necessidade constante da condição humana. Foi assim que trabalhei a ideia no romance.

Por que a história judia lhe chamou a atenção?

Porque adoro aprender a respeito daquilo que não conheço. O mundo do judaísmo está cheio de mistérios, e eu, sendo cubano, não sabia muito a respeito dos judeus, pois em Cuba quase não restaram pessoas dessa origem após 1960. E o fato de não conhecer o assunto me empurra para frente. Me pus a estudar religião, costumes, cultura, história judaica para fazer do meu novo conhecimento a matéria literária que me permitiria escrever a história desses judeus que aparecem no livro, com seus contextos históricos específicos e com a pesada carga de uma tradição de quatro mil anos.

A palavra ‘herege’ pode ser usada de forma positiva ou negativa, dependendo da situação. Por que admira os hereges?

Creio que a palavra assumiu conotação negativa por influência da Igreja Católica. Todo aquele que não seguia a forma deles de pensar e crer era um herege. Mas a heresia, ou seja, a ruptura com a ortodoxia dominante, tem sido um dos fatores mais importantes no desenvolvimento da humanidade. O herege busca ser um revolucionário, ou ao menos alguém que não se contenta com uma única forma de pensar. Por isso, tenho pelos hereges uma enorme admiração: é preciso ter valor para ser herege, e ainda mais para demonstrar isso numa sociedade em que um pensamento único domina, determina e condena.

Considera Hereges um romance mais histórico que policial? 

Creio que seja um romance histórico, um romance policial, uma tese, mas também, ao mesmo tempo, simplesmente um romance, sem sobrenome. O fato de aparecer uma trama que se desenvolve num momento distante da história – e que essa trama tenha me obrigado a pesquisar muito para poder escrevê-la – é notório no romance, mas também é o fato de Mario Conde, meu investigador, realizar uma pesquisa policial em busca de algumas verdades perdidas, e, por sua vez, que tudo isso, a história, a pesquisa, estarem sustentadas numa jornada pela grande preocupação humana da liberdade do indivíduo e os riscos que uma pessoa assume para colocar em prática esse direito. Hereges é um romance herege, antidogmático, supragenérico… Ao menos, é assim que o enxergo.

A presença de uma obra de Rembrandt faz acreditar que, entre religião e arte, prefere a arte?

Sem dúvida. E não é por ser artista e ateu. Creio que a arte proporcionou à humanidade grandes obras, momentos de prazer estético, formas de compreender a alma humana que outras manifestações não alcançam, a arte nos explicou a sociedade e a vida. A religião, por sua vez, provocou horrores como matanças de judeus que descrevo no romance, ou as que conhecemos do Holocausto. Ou o que ocorre agora na Síria e na Líbia, onde alguns iluminados divinos matam em nome da religião, em nome de Deus. Penso que, para o homem, a necessidade de crer em algo é muito natural à condição do ser pensante diante do mistério da vida, mas a religião foi, muitas vezes, um instrumento de controle e terror nas mãos dos fundamentalistas, dos iluminados, dos donos de uma verdade única. A religião se parece muito com a política.

Quando Conde conversa com a avó de Judy, ela reclama do rápido amadurecimento da menina por conta das leituras, algo prejudicial. Como vê isso?

No romance, trata-se da opinião de um personagem desesperado. Em vez de ler, um jovem pode consumir drogas. O que é pior para ele? Definitivamente, não creio que a cultura possa fazer mal a alguém. É claro que há muitos modos de pensar e ver a realidade, e alguns são muito recomendáveis, mas, em geral, a arte é um excelente alimento para o espírito, em todas as idades e lugares.

Em O Homem Que Amava os Cachorros, você precisou fazer muita pesquisa – também em Hereges. Qual foi a diferença?

Sim, foram pesquisas diferentes porque os objetivos literários que eu buscava foram diferentes. Em O Homem..., para mim era muito importante saber a verdade do que ocorreu, ou seja, contrastar as pobres e manipuladas informações que eu tinha com um conhecimento maior, mais revelador, menos comprometido com uma ideia política específica. Em Hereges, o importante era conhecer os detalhes da vida em Amsterdã num momento glorioso para a vida dessa cidade, aprender como Rembrandt pintava e saber o que ele pensava da arte e da existência. Se num romance fui de revelação em revelação (as tramas obscuras dos julgamentos de Moscou, o papel dos soviéticos na Guerra Civil Espanhola, as formas com que Stalin perverteu uma grande ideia utópica), e, por sua vez, de indignação em indignação, em Hereges fui de descobrimento em descobrimento, de júbilo em júbilo, por superar minha ignorância original e aprender mais a respeito de uma cultura, uma história, uma arte. O Homem... é um romance triste, a respeito da perversão de uma grande utopia. Hereges é um livro a respeito da esperança na força do ser humano para lutar sempre por sua liberdade. 

HEREGES

Autor: Leonardo Padura

Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht

Editora: Boitempo (460 págs., R$ 56)

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