Brian Flaherty/The New York Times
Brian Flaherty/The New York Times

Lenda do movimento beat, Lawrence Ferlinghetti prepara, aos 97, romance

'To the Light House' combina autobiografia, ficção e toques surrealistas sobre mortalidade, natureza e consciência

Alexandra Alter, THE NEW YORK TIMES 

13 Julho 2016 | 03h00

SÃO FRANCISCO - O poeta Lawrence Ferlinghetti estava sentado à mesa da cozinha de seu apartamento, em North Beach, em uma manhã garoenta, contando uma história sobre Allen Ginsberg, quando deu um pulo repentino e saiu correndo para buscar o aparelho auditivo. “Na minha idade, se não é uma coisa, é outra”, disse, em tom alegre.

Alto e ágil aos 97 anos, com barba grisalha bem aparada e óculos ovalados que lhe aumentam os olhos azuis, Ferlinghetti poderia passar por um homem 20 anos mais novo. E ainda escreve quase todo dia, “quando uma ideia surge na cabeça”.

Ferlinghetti é um dos poetas norte-americanos mais famosos e indiscutivelmente o mais bem-sucedido: sua coletânea de 1958, Um Parque de Diversões da Cabeça, da New Directions, vendeu mais de um milhão de cópias. Nos últimos 61 anos, publicou cerca de 50 volumes de poesia.

Seu último trabalho, porém, é diferente de todos que já fez. Depois de pegar o aparelho, Ferlinghetti se levantou novamente e voltou à cozinha com uma caixa de papelão cheia de cadernos de anotações. Ali está o primeiro esboço de um romance em que vem trabalhando há 20 anos. To the Light House combina autobiografia, ficção e toques surrealistas sobre mortalidade, natureza e consciência. “É o mais próximo que vou chegar de um livro de memórias”, completa o autor.

O projeto foi uma surpresa mais que agradável para seu agente literário de longa data, Sterling Lord, que tenta convencer seu cliente a escrever uma autobiografia há mais de duas décadas. Ferlinghetti sempre rejeitou a ideia. “Esse novo manuscrito é o mais pessoal que já fez e difere de tudo o que já li. Nunca vi uma autobiografia construída dessa forma”, descreve ainda Lord.

A parceria dessas duas lendas do mundo editorial remonta ao início do movimento beat, quando a revolução literária e cultural foi iniciada por um bando de escritores iconoclastas. Embora nenhum dos dois saiba precisar quando se conheceram, sua associação data dos anos 1950, quando foram apresentados por Jack Kerouac, um dos primeiros clientes de Lord. Ao longo dos anos, conforme a maioria dos escritores que conheciam foi morrendo, os laços que os uniam se estreitaram ainda mais.

“Sterling é da minha geração. Estamos no mesmo barco, indo de encontro às cataratas”, brinca Ferlinghetti, que nasceu em Bronxville, Nova York, em 1919.

Lord, que nasceu em Burlington, Iowa, em 1920, gosta de ressaltar a diferença de idade entre os dois. “Lawrence é o único cliente que tenho que é mais velho que eu”, anuncia ele, que faz 96 anos em setembro. Hoje, são dois dos últimos elos vivos com a Geração Beat. Alimentaram um movimento literário que definiu uma era e revelaram uma nova cepa de poesia e ficção populista de contracultura.

Em sua agência, a Sterling Lord Literistic de NY, o agente ajudou a iniciar a carreira de nomes como Kerouac, John Clellon Holmes e Ken Kesey. Quando Kerouac, frustrado após uma série de rejeições, já desistira de publicar o revolucionário e experimental On the Road – Pé na Estrada, Lord continuou resoluto: levou mais de quatro anos, mas finalmente o vendeu para a Viking por US$ 1 mil.

Com sua pequena editora, a City Lights, Ferlinghetti defendeu o trabalho de escritores beat como Gregory Corso, Michael McClure, Gary Snyder e Ginsberg, poetas renegados considerados muito provocadores para as casas mais comerciais. “Foi uma revolução na poesia contemporânea. Eu avaliava um manuscrito na base da novidade, ou seja, se nunca tivesse lido nada parecido, se mostrasse uma nova visão da realidade, então sabia que era importante”, lembra Ferlinghetti.

Às vezes, seu gosto subversivo o metia em encrencas – como quando liderou uma briga pela liberdade de expressão ao publicar o poema de Ginsberg, Uivo, de 1956, e, como consequência, foi acusado de obscenidade. Sua vitória judicial abriu caminho para a publicação nos EUA de romances audaciosos de D.H. Lawrence e Henry Miller.

“Sem Lawrence Ferlinghetti, nem teria havido a Geração Beat. Foi ele que publicou os trabalhos de gente de quem nunca teríamos ouvido falar”, afirma também Bill Morgan, estudioso literário e especialista no movimento beat.

Sob vários aspectos, Ferlinghetti e Lord formam uma dupla pouco provável; tirando a conexão que ambos tinham com os beats, nunca frequentaram os mesmos círculos culturais.

Lord, que é fã de paletós de tweed e gravatas alinhadas, é um vendedor obstinado, cuja lista de clientes estrelada já incluiu o ex-secretário de Defesa Robert McNamara e o colunista Jimmy Breslin. Ficou famoso por arrancar grandes concessões das editoras com um toque extremamente diplomático. (Tanto que deu ao seu livro de memórias, de 2013, o título Lord of Publishing.)

Ferlinghetti, rebelde boêmio de brinco na orelha, há muito ocupa um lugar garantido às margens dos cenários cultural e político, mesmo tendo se tornado um dos poetas mais populares e influentes dos EUA. Entre seus fãs ardorosos estão Bob Dylan, Patti Smith, Francis Ford Coppola e o poeta Billy Collins.

“Sterling é um cavalheiro à moda antiga e Lawrence é um anarquista. Pode-se dizer que um deles trabalha pelo establishment e o outro, contra”, define Morgan.

Por quase três décadas, Ferlinghetti gerenciou a própria carreira, sem a ajuda de um agente, o que combinava bem com seu jeito rebelde. E se deu bem. “A maioria dos agentes nem quer saber dos poetas porque eles nunca dão dinheiro”, constata.

Porém, nos anos 1980, teve dificuldade para encontrar uma editora para seu romance de estreia, Amor nos Tempos de Fúria. Ligou para Lord, que não demorou em vendê-lo para a Dutton. Depois disso, só trabalham juntos. “Ele valoriza o que sabe a meu respeito e eu, o que sei a respeito dele. Não há quem se compare no mundo editorial”, afirma Lord.

Embora ambos estejam perto do centenário, nenhum dos dois pôs o pé no freio de fato. Quase todo dia, Lord, que se movimenta com destreza, apesar do andador, vai para a Sterling Lord Literistic, agência que fundou em 1952, depois de ser despedido como editor da Cosmopolitan. Ainda trabalha de seis a sete dias por semana. Lê os manuscritos com a ajuda de uma máquina de aumento e faz os seus negócios pessoalmente ou por telefone.

No momento, Ferlinghetti está ocupado com o novo romance, para o qual Lord já começou a buscar editoras. Parte da narrativa se baseia em seu processo de amadurecimento quando jovem, na Europa, e sua infância tumultuada por causa da morte do pai antes de seu nascimento e da vida em um orfanato, após a mãe ser internada.

Ferlinghetti e Lord vêm se falando com frequência por telefone nos últimos meses, discutindo como moldar a história; o autor rejeitou sugestões do agente que, por sua vez, se mantém otimista. “O livro não é uma autobiografia convencional em nenhum sentido, mas é possível conhecer um pouco de Lawrence por esse material, que descrevemos como ‘cenas de sua autobiografia’”, acrescenta Lord.

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