Daniel Teixeira/ Estadão
Daniel Teixeira/ Estadão

Leilah Assumpção lança livro de memórias com panorama de seus 50 anos de carreira

Uma das principais autoras de teatro do Brasil, a dramaturga escreveu uma obra inteira com as suas experiências ao longo dos anos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2019 | 06h00

Na passagem dos anos 1960 para 70, era comum a ida de artistas a Brasília, onde tentavam liberar pessoalmente suas obras vetadas pela censura. Em uma dessas aventuras, a dramaturga Leilah Assumpção travou uma insólita conversa com um censor, que implicou com o doce brigadeiro citado em uma de suas peças – seria uma alusão às Forças Armadas. “Perguntei qual era o doce preferido dele. ‘Baba de moça’, respondeu. ‘Vou trocar ‘brigadeiro’ por ‘baba de moça’, tudo bem?’. ‘Tudo bem’, concordou ele, satisfeito”, narra Leilah em Memórias Sinceras (Sá Editora), delicioso conjunto de anotações em que ela recupera fatos dos 50 anos de sua carreira.

O livro será lançado na tarde deste sábado, 23, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. “E vou servir brigadeiros”, diverte-se ela, finalmente realizando uma tardia vingança pessoal. Aos 76 anos, Leilah ainda surpreende com um estilo fluente e saboroso de narrar histórias – sua escrita parece a transcrição de uma conversa informal com o leitor a ponto de, em determinado momento, a própria narradora considerar sem graça o rumo do papo e propor uma mudança. 

As memórias não seguem ordem cronológica, espalhando-se em 15 capítulos curtos que descrevem, em estilo de crônica, a fervilhante geração que ditou os caminhos da cultura brasileira dos anos 1960 a 1990. Antes de se tornar uma das melhores dramaturgas do Brasil, graças a peças como Vejo um Vulto na Janela, Me Acudam Que Sou Donzela (de 1964, mas só encenada a partir de 1979), Fala Baixo Senão Eu Grito (1969, seu primeiro texto a ser montado), ou ainda Roda Cor de Roda (de 1975, que consolidou o aprofundamento analítico sobre a condição da mulher), Leilah chamou atenção quando, aos 20 anos, se tornou modelo exclusiva do costureiro Dener.

Logo se percebeu que não se tratava de uma manequim comum. Escreve ela: “Eu adorava Filosofia. No começo da carreira de dramaturga, respondia o que se esperava de uma manequim: Que eu lia Capricho, Grande Hotel e outras revistinhas de amor. Certo dia, numa entrevista para o Jornal da Tarde, eu deixei escapar os nomes mais importantes da história da filosofia, em ordem histórica e tudo. Tinha me formado há pouco tempo, estava tudo fresquinho na minha cabeça! O diretor da Aliança Francesa, não me lembro qual, disse que eu, manequim do Dener, era muito, muito louca. Nunca gostei que me chamassem de louca”.

De fato, sua lucidez era espantosa. Jovem, vivia em um pensionato feminino em São Paulo. Lá, sonhava em se formar em Pedagogia, por influência da mãe escritora e do pai professor – desfilava por vaidade. Mas o apurado senso de observação do comportamento alheio a conduziu para a escrita, notadamente a dramatúrgica. Mariazinha, por exemplo, de Fala Baixo..., foi inspirada em uma das solteironas tristes do pensionato.

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