Ubiratan Brasil/Estadão
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Leila Guerriero mostra seu fascínio pelas pequenas grandes histórias na Flip

Jornalista argentina que participa do festival neste sábado, 29, transforma o triunfo de um desconhecido dançarino em um épico da façanha humana

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2017 | 05h00

PARATY - Em 2009, a jornalista argentina Leila Guerriero descobriu, por meio de uma nota publicada no jornal La Nación, a existência de um concurso de uma dança chamada malambo, na cidade de Laborde, na província de Córdoba. Praticamente desconhecido no resto do país, o malambo leva centenas de pessoas (entre competidores, jurados e aficionados) à região. O evento atraiu sua atenção e, dois anos depois, Leila rumou para Laborde. “Cheguei lá com a intenção inicial de escrever sobre o festival – até descobrir Rodolfo González Alcántara”, conta ela ao Estado, na manhã de ontem, em Paraty, onde vai falar no sábado, 29, sobre esse deslumbramento, na 15.ª Flip.

A história da descoberta de Rodolfo Alcántara é o que torna o livro Uma História Simples (Record) uma pequena joia. Ali, Leila Guerriero confirma seu talento para narrar a trajetória e pessoas desconhecidas em verdadeiros épicos. Foi assim em Los Suicidas del Fin del Mundo, sobre jovens de 25 anos que misteriosamente deram fim à própria existência, em um ermo povoado petrolífero da Patagônia, e, em especial, nesse Uma História Simples. Alcántara é um jovem simples, enredado em uma rotina pacata e com apenas uma ambição: a de se tornar campeão do Festival Nacional de Malambo de Laborde.

“Eu fazia pesquisas sobre o festival quando, em um determinado dia, vi Rodolfo dançando. Não entendo das regras desse bailado, mas sua desenvoltura me surpreendeu – era alguém alimentado por um fogo interminável, algo que me provocou um fascínio só comparável à primeira vez que vi (o espanhol) Antonio Gades dançar”, conta ela. Tal surpresa é perceptível no livro, que começa com uma descrição daquela região de Córdoba e de como funciona o malambo até o momento da descoberta. “É como se estivesse mostrando um filme, que começa com um plano geral sobre Laborde até a câmera descobrir Rodolfo e passar a focar unicamente seus passos.”

Leila tornou-se conhecida por perfis e crônicas de estilo apurado, construídos após pesquisas exaustivas e sustentados por uma escrita apurada. E, além de narrar as desventuras de seus personagens, ela compartilha com o leitor seus anseios, tornando-o cúmplice com sua narrativa em primeira pessoa. 

É o que se observa em um momento decisivo de Uma História Simples, título inspirado em um filme de David Lynch: aquele em que Leila revela suas dúvidas sobre o mal que poderia causar a Rodolfo ao, involuntariamente, alimentar sua expectativa pela vitória. Afinal, o rapaz não figurava entre os favoritos e seu sucesso seria inesperado. Leila titubeia, entre abandonar a história ou não, até preferir ficar. “Eu teria um belo material mesmo se Rodolfo não vencesse”, conta. “Perguntas não respondidas me atraem muito mais.” Ao final, uma certeza: não apenas o bailarino, mas também o leitor sai ganhador.

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