Leia trechos dos livros de Saul Bellow e Edward P. Jones

Trecho do livro "O Sal da Terra", de Richard Ford

05 de setembro de 2009 | 19h58

(tradução de Maria Beatriz de Medina)

Editora Record, 602 páginas, R$ 69,90

Em 1991, ano anterior à minha partida e ano em que meu filho Paul Bascombe terminou a High School e foi para Indiana estudar Manipulação de Bonecos (ele sabia ventriloquismo, fazia cem zilhões de vozes, contava piadas e já encenara vários espetáculos de marionetes esquisitos mas sofisticados para os colegas de sala), Haddam - cidade que eu sentia como minha genuína residência e que fora o palco das experiências adultas mais solenes de minha vida - entrara numa fase nova, estranha e discordante em seus anais.

Em primeiro lugar, o mercado imobiliário ficou maluco e os corretores, mais malucos ainda. As expectativas deixaram para trás toda a atmosfera respirável. Cobrar a mais, oferecer menos, assustar-se com os preços, criar grande fluxo monetário, tudo isso foi banido do vocabulário. Guerra de preços, ofertas de matar, obediência forçada, hipotecas descumpridas e manobras imobiliárias tomaram o lugar das antigas práticas. As casas mais depredadas, sinistras, quase inabitáveis dos bairros negros antes marginais tornaram-se de primeira linha e depois intocáveis numa única tarde. Wallace Hill, ond vendi a Everick Lewis minhas casas alugadas, foi nomeado Bairro Histórico, o que obrigou todos os negros a irem embora por causa dos impostos (muitos fugiram para o sul, embora tivessem nascido em Haddam). Os corretores venderam a própria casa com a família dentro e levaram cônjuges, cachorros e filhos para condomínios fechados em Highstown e Millstone. Recém-formados na universidade rejeitaram a medicina e a teologia e compradores compraram casas de 1 milhão de dólares de garotos de 21 anos recém-saídos de Princeton e Columbia com diplomas de história e física que tinham acabado de tirar a carteira de motorista.

 

Trecho do livro "O Céu que Nos Protege", de Paul Bowles

(tradução de José Rubens Siqueira)

Editora Alfaguara, 272 páginas, R$ 43,90

Ele acordou, abriu os olhos. O quarto lhe dizia muito pouco; estava profundamente mergulhado no não ser do qual acabara de chegar. Não tinha a energia para se certificar de sua posição no tempo e no espaço, e faltava-lhe também a vontade. Estava em algum lugar, atravessara vastas regiões vindo de lugar nenhum; havia a certeza de uma infinita tristeza no cerne de sua consciência, mas a tristeza era tranquilizadora, porque só ela era familiar. Ele não precisava de outra consolação. Em conforto absoluto, relaxamento absoluto, ficou completamente imóvel durante um tempo e depois afundou num daqueles sonos leves e momentâneos que ocorrem depois de um sono longo e profundo. De repente, abriu os olhos de novo e olhou o relógio de pulso. Era uma atitude puramente reflexa, porque quando viu as horas ficou apenas confuso. Sentou-se, olhou em torno do quarto espalhafatoso, pôs a mão na testa e com um suspiro profundo caiu de novo na cama. Mas agora estava acordado; mais alguns segundos e saberia onde estava, saberia que a hora era o fim da tarde e que dormira desde o almoço. No quarto ao lado, podia ouvir sua esposa andando de chinelos no chão liso de ladrilhos e o som o reconfortou, uma vez que havia atingido outro nível de consciência em que a mera certeza de estar vivo não era suficiente. Mas que difícil era aceitar o quarto alto, estreito, com suas vigas no teto, os imensos desenhos apáticos pintados a estêncil em diferentes cores pelas paredes, a janela fechada de vidro vermelho e alaranjado. Ele bocejou: não havia ar no quarto. Dali a pouco, ia levantar da cama alta e abrir a janela, e nesse momento lembraria seu sonho. Porque embora não conseguisse lembrar nem um detalhe do sonho, sabia que tinha sonhado. Do lado de lá da janela havia ar, os telhados, a cidade, o mar. O vento da noite refrescaria seu rosto enquanto olhasse, e naquele momento o sonho estaria ali. Por enquanto, só podia ficar deitado como estava, respirando devagar, quase pronto para dormir de novo, paralisado no quarto sem ar, não esperando o crepúsculo, mas parado como estava até ele chegar.

 

Trecho do livro "O Safári da Estrela Negra", de Paul Theroux

(tradução de Paulo Afonso)

Editora Objetiva, 480 páginas, R$ 59,90

Todas as notícias da África são ruins. Mas me deixaram com vontade de ir lá, embora não pelos horrores, lugares perigosos ou relatos de massacres e terremotos que se leem nos jornais; eu queria ter o prazer de estar de volta à África. Sentindo que o lugar era tão grande que deveria abrigar muitas histórias não contadas, além de alguma esperança, comédia e doçura - sentindo que haveria na África mais do que miséria e terror -, decidi me reinserir no bundu, como chamávamos a mata, e perambular pelo território ancestral. Lá eu vivera e trabalhara feliz, há quase quarenta anos, no coração do mais verde dos continentes.

Saltando no tempo, estou escrevendo isto um ano mais tarde, recém-chegado da África, já tendo realizado meu longo safári. Eu estava errado em tanta coisa... Sofri atrasos, fui alvo de tiros, ouvi berros, fui roubado. Nada de massacres ou terremotos, mas um calor infernal, estradas em péssimo estado, trens em abandono, e é melhor nem falar dos telefones. Fazendeiros brancos, exasperados, diziam: "Ficou tudo de pernas para o ar!" A África está mais decrépita, materialmente, do que quando a conheci pela primeira vez - mais faminta, mais pobre, menos instruída, mais pessimista, mais corrupta. E não se consegue diferenciar políticos de curandeiros. Fiquei com a impressão de que os africanos, menos queridos do que nunca, são o povo a quem mais se mente no planeta - manipulados por seus governos, ludibriados por especialistas estrangeiros, iludidos por instituições de caridade e trapaceados de todas as formas. Ser um líder africano significava ser ladrão, mas os missionários roubaram a inocência das pessoas, e organizações beneficentes, que só beneficiavam a si mesmas, deram-lhes falsas esperanças, o que é pior. Os africanos, por sua vez, deixaram de se esforçar ou tentaram emigrar, imploraram, pleitearam, exigiram dinheiro e presentes, com uma noção de justiça rude e estranha. Não que a África seja um lugar só. É uma coleção de repúblicas heterogêneas e tribos decadentes, onde fiquei doente, fiquei retido, mas jamais fiquei entediado. Na verdade, minha viagem foi um prazer e uma revelação. Um parágrafo assim requer uma explicação - ou pelo menos um livro. Talvez este livro.

 

Trecho do livro "A Costa do Mosquito", de Paul Theroux

(tradução de Paulo Afonso)

Editora Alfaguara, 456 páginas, R$ 59,90

Passamos pela mansão do miúdo Polski e entramos na estrada principal. Durante os oito quilômetros que dirigiu até Northampton, o Pai não parou de falar a respeito de selvagens e de como os Estados Unidos eram horríveis - de como se transformaram em uma perigosa e supurada área de consumo de drogas, trancas nas portas, carniceiros raivosos, milionários criminosos e gente corrupta. E olhe as escolas. E olhe os políticos.

Não havia um diplomado em Harvard que conseguisse trocar um pneu furado ou fazer dez flexões. E na cidade de Nova York havia indivíduos que se alimentavam de comida para cães e que matariam por qualquer dinheiro trocado. Isso era normal? Se não era, por que todo mundo aguentava aquilo?

"Não sei", disse ele, respondendo a si mesmo. "Só estou pensando em voz alta."

Antes de sair de Hatfield, ele parara a picape - voltada para o sul - em uma elevação da estrada.

"Lá vêm os selvagens", disse. E lá vinham eles, saindo de trás de um grupo de árvores e cruzando os campos que cercavam os celeiros de Polski, em meio a um calor úmido e viscoso. Eram escuros e vestiam trapos. Muitos tinham trapos amarrados às cabeças, outros usavam chapéus de abas largas. Eram homens e meninos, alguns da minha idade, todos empunhando facas compridas.

O Pai estava apontando, e seu dedo me assustava mais que os homens. A ponta do indicador fora decepada a partir da falange medial, e o toco rombudo, com suas dobras de pele costurada e horríveis cicatrizes, indicava apenas de modo aproximado a direção correta.

"Por que se dão o trabalho de vir para cá?", disse ele. "Dinheiro? Mas como poderia ser dinheiro?"

Ele mastigava as perguntas, juntamente com o charuto. Já se passara a metade da manhã, quente demais para 10 Massachusetts, em maio. O vale tinha um aspecto crestado, naquela primavera seca, e as valas rasas fumegavam como estrume fresco. Em sulcos rasgados no solo, viam-se diminutos penachos de milho-maravilha. Não se ouvia o canto dos pássaros. Os campos de aspargos, para onde os homens se dirigiam, estavam lisos e marrons, como se alguém tivesse removido a cobertura de mato verde e nivelado a terra calva com um rolo compressor.

 

Trecho do livro "As Aventuras de Augie March", de Saul Bellow

(tradução de Sonia Moreira)

Editora Companhia das Letras, 704 páginas, R$ 67

Sou americano, nascido em Chicago - Chicago, aquela cidade sombria -, e faço coisas do jeito que aprendi sozinho a fazer, estilo livre. Então, vou fazer o registro ao meu modo: a primeira ideia que bater será também a primeira a entrar; às vezes uma batida inocente, outras nem tanto. Mas o caráter de um homem é seu destino, como diz Heráclito, e no fundo não há como disfarçar a natureza das batidas, nem fazendo um tratamento acústico na porta nem cobrindo o nó dos dedos com luva.

Todo mundo sabe que não existe precisão nem apuro na supressão; se você corta uma coisa, acaba amputando o que está ao lado.

 

Trecho do livro "O Mundo Conhecido", de Edward P. Jones

(tradução de Fábio Fernandes)

Editora José Olympio, 404 páginas, R$ 45

Na noite em que seu dono morreu, ele trabalhou novamente até bem depois de terminar o dia para os outros adultos, entre os quais sua própria mulher, e os mandou de volta famintos e cansados para suas cabanas. Os jovens, inclusive seu filho, foram mandados para fora dos campos mais ou menos uma hora antes dos adultos para preparar o jantar e, se sobrasse tempo, brincar nos poucos minutos de sol que restassem. Quando ele, Moses, finalmente se desprendeu dos arreios velhos e quebradiços que o ligavam à mula mais velha que seu dono possuía, tudo o que restava do sol era uma lembrança vermelho-alaranjada de dez centímetros disposta em ondas paradas no horizonte entre duas montanhas à esquerda e uma à direita. Ele estava no campo há quatorze horas inteiras.

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