Leia o início de 'Liberdade' e compare com o romance anterior de Jonathan Franzen, 'As Correções'

'Liberdade'

28 de maio de 2011 | 06h00

 

Trecho do romance Liberdade, de Jonathan Franzen (Companhia das Letras, tradução de Sergio Flaksman, 2011)

 

Bons vizinhos

A notícia sobre Walter Berglund não circulou localmente - ele e Patty tinha se mudado para Washington dois anos antes e já não significavam mais nada para St. Paul -, mas o povo de Ramsey Hill não era leal à sua cidade a ponto de deixar de ler o New York Times. De acordo com uma longa e nada lisonjeira matéria do Times, Walter tinha deixado sua vida profissional em péssima situação na capital federal. Seus ex-vizinhos tiveram alguma dificuldade em conciliar os adjetivos com que o Times o qualificava ("arrogante", "presunçoso", "eticamente comprometido") com o vizinho generoso, sorridente e corado que trabalhava na 3M e viam pedalando até a condução para o trabalho todo dia, subindo a ladeira da Summit Avenue, em plena neve de fevereiro; parecia estranho que Walter, mais verde que o Greenpeace e cujas raízes eram sabidamente rurais, estivesse agora com problemas devidos a tramoias com a indústria do carvão e maus-tratos aos moradores do campo. Se bem que sempre tinha havido algo de estranho na família Berglund.

 

Walter e Patty foram os jovens pioneiros de Ramsey Hill - o primeiro casal de formação universitária a comprar uma casa na Barrier Street desde que o antigo coração de St. Paul sofrera um declínio considerável três décadas antes. Pagaram uma mixaria por sua casa vitoriana e depois se mataram por dez anos fazendo uma reforma completa. Nos primeiros tempos, alguém muito determinado incendiou a garagem e arrombou duas vezes o carro antes que a garagem fosse reconstruída. Motociclistas bronzeados acorriam para o terreno baldio do outro lado do acesso da casa para tomar Schlitz, grelhar salsichões e fazer roncar seus motores de madrugada, até que um dia Patty saiu de casa com roupas de exercício e disse, "Escutem aqui, sabem de uma coisa?". Patty não metia medo em ninguém, mas tinha sido uma atleta de destaque na escola secundária e na faculdade, e era dotada do destemor dos esportistas. Desde o primeiro dia em que se instalara naquela área, não tinha como deixar de chamar atenção. Alta, de rabo de cavalo, absurdamente jovem, empurrando um carrinho de bebê pelas ruas tomadas de carros depenados, garrafas de cerveja quebradas e neve velha coberta de vômito, ela parecia carregar todas as horas do dia nas bolsas de rede que pendiam do seu carrinho. Era possível imaginá-la, antes daquele momento, às voltas com os complexos preparativos relacionados ao bebê para uma complexa manhã de compras com o bebê; e, depois, podia-se vê-la à tarde, o rádio ligado na emissora pública, o Livro de Cozinha do Silver Palate, fraldas de pano, o trabalho com divisórias e tinta à base de látex, em seguida o livro infantil Boa noite, lua, depois vinho Zinfandel. Ela já atingira o estágio pleno da coisa que apenas começava a acontecer no resto da rua.

 

'As Correções'

 

Trecho do romance As Correções, de Jonathan Franzen (Companhia das Letras, tradução de Sergio Flaksman, 2003; 2ª ed., 2011):

 

Saint Jude

 

A loucura de uma frente fria de outono avançando pela pradaria. Dava para sentir: alguma coisa terrível a ponto de acontecer. O sol baixo no céu, um tom de luz menor, uma estrela que esfria. Rajadas e mais rajadas de desordem. Árvores inquietas, temperaturas em queda, toda a religião setentrional das coisas chegando ao fim. Por aqui, nenhuma criança nos quintais. Sombras alongadas sobre a grama japonesa que começava a amarelar. Carvalhos-vermelhos, carvalhos-brancos e carvalhos-do-pântano despejavam suas bolotas sobre casas sem hipoteca. As janelas de proteção contra tempestades estremeciam nos quartos vazios. O zumbido e os soluços da máquina de secar roupas, a altercação nasal do soprador de folhas, as maçãs locais amadurecendo num saco de papel, o cheiro de gasolina com que Alfred Lambert limpara o pincel depois de passar a manhã pintando o sofá de vime.

 

Três da tarde era uma hora perigosa naqueles subúrbios gerontocráticos de Saint Jude. Alfred despertara na grande poltrona azul em que havia adormecido depois do almoço. Já tinha feito a sua sesta, e o noticiário local só começaria às cinco. Aquelas duas horas vazias eram uma fístula em que fermentam infecções. Pôs-se de pé com esforço, e aproximou-se da mesa de pingue-pongue, tentando em vão escutar onde Enid estaria.

 

Por toda a casa ressoava o toque de uma campainha de alarme que só Alfred e Enid conseguiam ouvir claramente. Era o alarme da ansiedade. Era como um daqueles imensos discos de ferro fundido percutidos por um malho elétrico que fazem as crianças saírem das escolas nas simulações de incêndio. Àquela altura, já vinha tocando havia tantas horas que os Lambert não ouviam mais a mensagem "sineta tocando" e sim, como com qualquer som que persista o suficiente para nos dar o tempo de perceber de que sons é composto (como com qualquer palavra que fitemos até ela se definir como uma simples sequência de letras mortas), um malho que feria rapidamente uma superfície metálica ressonante, não um som puro mas uma sequência granular de percussões cercada de uma aura penetrante de tons secundários; tocando havia tantos dias que já se confundia simplesmente com os demais ruídos de fundo, exceto em certas horas da madrugada, quando um dos dois acordava coberto de suor e percebia que uma campainha vinha tocando em suas cabeças até onde a memória deles alcançava; tocando havia tantos meses que o som já dera lugar a uma espécie de metassom, que aumentava ou diminuía não por efeito de ondas de compressão, mas de acordo com um vaivém muito mais lento do que a consciência que tinham daquele som. A qual ficava particularmente aguda quando o próprio clima exibia uma disposição ansiosa. E então Enid e Alfred - ela de joelhos na sala de jantar abrindo gavetas, ele no porão inspecionando a desastrosa mesa de pingue-pongue - sentiam-se os dois a ponto de explodir de ansiedade.

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