Leandro Karnal reúne suas crônicas em 'O Mundo Como Eu Vejo'

Colunista do ‘Estado’ lança novo livro com textos publicados no jornal nos últimos dois anos; ‘aprendi muito’

Entrevista com

Leandro Karnal

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2018 | 08h50

Leandro Karnal dedica o seu novo livro de crônicas, O Mundo Como Eu Vejo, para sua mãe, morta em novembro passado. “Meus livros, querida mãe, são uma maneira de você renascer sempre”, escreve na dedicatória do volume, publicado agora pela Contexto com artigos que o colunista escreveu para o Estado nos últimos dois anos. O livro tem lançamento nesta terça-feira, 24, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2.073), com um bate-papo do autor com o jornalista Ubiratan Brasil, do Estado. 

Na entrevista a seguir, Karnal reflete sobre o fazer do cronista, e sobre os temas que perpassam a sua produção.

Você menciona que a responsabilidade do autor sobre o texto na mídia é vaga, e que pela mesma frase leitores podem “acusá-lo” de coisas diferentes. O motivo de isso acontecer o preocupa?

Sempre houve amplitude interpretativa. Cada pessoa ouve e vê algo e dali cria conclusões livres e subjetivas. Como já foi dito, a responsabilidade sobre o que escrevo é minha; sobre o que você entende é sua. Como temos mais gente dando opinião sobre todas as coisas, é natural que tenhamos multiplicado o acesso à informação na mesma medida em que multiplicamos as muitas interpretações. Talvez o que mais me preocupe seja a incapacidade de o leitor ver uma ideia que não seja do seu cânone, como se ele encontrasse uma barreira imediata e intransponível. 

leandro karnal

Leandro Karnal. Foto: Werther Santana/Estadão

Em época de governos usando o termo “fake news” contra textos e imagens que claramente não são falsos, colocando assim a liberdade de imprensa em questão, o que é possível fazer para não confundir o leitor? 

Acho que existem fake news avulsas e sem sentido e existem as intencionalmente políticas e dirigidas a um alvo. Quando se trata de um projeto, o recurso é misturar o falso com o verdadeiro e também multiplicar a ideia de que tudo seria uma questão de opinião. O próprio excesso de informações é uma maneira de confundir leitores.

Ao mesmo tempo, como não cair no “relativismo extremo”, que você menciona em uma das crônicas?

O relativismo é bom e parte do projeto de viver em sociedade complexa e multifacetada. Ele tem limites claros: em questões ético-legais como o racismo, não existe relativismo. Assim, posso relativizar se você é religioso ou ateu, hétero ou homoafetivo, etc. Não posso relativizar o racismo ou a defesa da vida humana. Não existe nenhuma virtude ou defeito inerentes a ser de direita ou de esquerda. Se alguém defende assassinatos, tanto faz se a mão que mata for destra ou canhota. Vida não é relativa. Posso relativizar seu espectro político, nunca a questão da vida.

Como a sua percepção sobre os leitores mudou depois de dois anos escrevendo em um jornal de grande circulação?

Aprendi muito. Primeiro o esforço permanente de mirar em um texto nem tão linear e nem tão denso que afaste o leitor médio. Escrevendo, creio, estou aprendendo a escrever, tautologia básica. Um jornal de grande impacto é um megafone e você entra em um jogo muito sério de cena.

Que papel você acredita que a fé vai exercer sobre o Brasil nos próximos meses, no cenário eleitoral?

A fé é um sentimento subjetivo e individual, no sentido de crença pessoal. Organizada em grupos como as religiões, ela apresenta imensa força política. Os candidatos, todos, precisam frequentar centros religiosos e, de preferência, invocar os valores religiosos e o nome de Deus. Em todo discurso, há a ideia de um mundo mais perfeito que teria ficado para trás, onde família, patriotismo e religião eram mais importantes. O manto da religião sempre foi necessário ao político, Maquiavel disse textualmente o mesmo no capítulo 18 de O Príncipe. A novidade é que os políticos mais em evidência não estão apresentando ideias ou programas, mas biografias e valores pessoais que buscam o eleitor. Trata-se de uma eleição axiológica, ou seja, de julgamento de valores. Em resumo, algo de narcisismo: “Você me representa”, porque repete o que eu suponho que eu seja. 

O MUNDO COMO EU VEJO

Autor: Leandro Karnal

Ed.: Contexto (272 págs.,  R$ 45)

Lançamento: 3ª (24), 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2.073)

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