Júlia Rodrigues
Júlia Rodrigues

Lázaro Ramos lança livros sobre autoconhecimento para crianças na pandemia

'Antes, eu escrevia para a criança que eu fui. Hoje, escrevo para os adultos que eu quero que meus filhos sejam', disse o artista, em entrevista ao 'Estadão'

Bárbara Correa*, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 05h00


Lázaro Ramos lançou dois livros infantis para todas as crianças que, com a pandemia, precisam lidar com a inquietedude da reclusão ou até equilibrar o uso de tecnologia. O Pulo do Coelho e a nova edição de Edith e a Velha Sentada foram lançados neste mês de maio. 

O primeiro, da editora Carochinha, conta a história do menino Gusmão. Ele queria realizar vários sonhos e se considerava "querente", mas não via a hora de ser um "vivente". Um dia, ele sonhou que era um coelho, em um circo, mas Gusmão queria mesmo era ser o mágico. Na narrativa sobre autonomia, liberdade, fracasso e resiliência, o personagem descobre os próprios talentos e a importância de criar um projeto de vida.

Já a nova versão da primeira literatura infantil do artista, originalmente publicada em 2010, apresenta ilustrações de Edson Ikê. A obra, da editora Pallas, fala sobre a pequena Edith, uma criança desanimada, que não conseguia olhar nos olhos das pessoas, passava o tempo no computador ou televisão. Confira abaixo um trecho do livro:

"Certo dia, Dona Dulce, uma vizinha fofoqueira, daquelas que se metem na vida de todo mundo, disse à Dona Elenita:

— Não é que eu queira me intrometer no jeito que você cria sua filha, Elê. Longe de mim essa ideia; eu conheço muito bem o meu lugar! Mas essa menina, Elezinha, é muito apagada! Parece uma velha! Aliás, não só velha! Parece uma velha sentada, daquelas sem energia... Será que essa menina tem uma velha sentada dentro da cabeça?

Dona Elenita, fingindo não estar preocupada e também evitando esticar o assunto, foi logo cortando:

— Nem todas as velhas ficam sentadas e sem energia, Dona Dulce. Por sinal, velhice não quer dizer acomodação, como muitos podem pensar. Pelo contrário! É a fase da vida na qual chegamos à melhor idade; é a fase em que deveríamos aproveitar para curtir. Veja o meu exemplo: com o passar do tempo, continuo cada vez mais ligada aos meus sonhos pra viver bem".

Em entrevista ao Estadão, Lázaro explicou que a nova edição foi lançada por ser um assunto pertinente. "Achei que era muito adequado para esse ano, porque fala justamente do uso da teconolgia, em um momento que tanto as crianças quanto os adultos estão muito tempo na frente de telas", disse.

"Quando vou falar com meus filhos sobre o assunto, muitas vezes, tem que ser de uma forma dura: 'Sai do tablet'. Mas, não conversamos sobre equilíbrio, porque não tem suporte de entretenimento para falar sobre isso. Então o livro é para ser um auxílio também", completou.

Sobre a história do menino Gusmão, Ramos conta que começou a escrever há cinco anos, porém não sabia como finalizar. Na pandemia, observando os filhos e falando com outros pais, ele percebeu que, assim como o personagem, as crianças se sentiam confinadas. "A autonomia das crianças virou um assunto e eu entendi para que servia o coelho que estava confinado. Vi que dava para fornecer uma alternativa para as elas de como lidar com as frustrações, com fracassos e liberdade", explicou.



 

O Pulo do Coelho e crianças "querentes"

Para além da autonomia, o autor cita outras questões em comum entre o protagonista e as crianças que estão vivendo o isolamento: a inquietude, o desejo de viver e sair do confinamento. Nesse sentido, ele explica que a obra trás duas mensagens:

"A primeira é que existem as crianças que não possuem acesso a bens materiais e direitos e, às vezes, nem sequer sabem que podem sonhar e ser 'querentes', quanto mais 'viventes'. Esse é um tema que gosto de falar, porque vejo que muitas nem sabem que podem ter um objetivo ou um plano. Em todos os meus livros, falo sobre isso: 'você tem direito de sonhar'", conta.

"A frase símbolo do livro é: 'Não existe fracasso nem sucesso que seja eterno'. Acho importantíssimo falar para os pequenos que a gente não deve se deslumbrar nem com um e nem com outro. Às vezes, a gente se prende no fracasso e fica nele ou se deslumbra tanto com o sucesso, que acha que nunca vai ter um não", acrescentou. 

A segunda mensagem é um incetivo à criatividade e imaginação. "Por se passar em um circo, que já é simbolo de um outro tipo de infância, a gente está falando também de outras formas de lazer. De inventar, desenhar, imaginar, já que, ultimamente, muitas crianças estão brincando solitárias", afirma. 



 

Edith e a Velha Sentada- saúde mental na infância

A história da pequena Edith também fala sobre tristeza e depressão em crianças. Apesar de parecer um assunto complexo, para Lázaro, é importante também falar sobre isso, de forma mais lúdica, como no livro. 

"Temos que encontrar a linguagem certa. Quando descobrimos um jeito de falar, estamos tratando o adulto que essa criança vai se tornar (...) O livro pode trazer também essa contribuição, de uma maneira imaginativa. Porque, quando falamos da Edith entrando na própria cabeça, é uma metáfora de estar entrando em contato consigo mesma", explica. 

Na entrevista, o autor também compartilhou como começou a escrever para crianças, como a carreira de ator e os filhos, João Vicente e Maria Antônia, o inspiram e a importância da leitura na infância. Confira:

 

Como se deu sua relação com a literatura infantil?

A princípio, eu escrevia para ter companhia, nem entendia que era literatura infantil. Eram assuntos que eu queria falar e ia colocando no papel, porque eu achava que seria um lugar sem julgamento. Mas, não tinha a pretensão de ter uma carreira de escritor, isso foi acontecendo. Hoje em dia, eu entendo que esse é o jeito que a minha cabeça funciona. Tenho um olhar bem-humorado, sou emotivo e lúdico.


 

A paternidade influenciou no seu trabalho como autor de livros para crianças?

Com certeza. Muito do que eu escrevo é da minha observação e experiência como pai. Antes, eu escrevia pra criança que eu fui. Hoje em dia, eu escrevo para os adultos que eu quero que meus filhos sejam.


 

Como o seu trabalho como ator impacta nas obras?

Eu escrevo como cenas, vivo as cenas e fico pensando: 'Quais são as sensações que esses momentos vão trazer?'. A literatura infantil acaba me ajudando a manter acesa essa criança, que é a maior ferramenta que um ator pode ter para a criatividade. 


 

Na sua opinião, qual é a importância da leitura na infância?

Acho essencial para o desenvolvimento e até para o relacionamento entre os pais e filhos. Mas, nós, adultos, precisamos trabalhar a linguagem certa para estimular que as elas leiam, para que não caia em um lugar de obrigação, e sim lazer e companhia. Lá em casa, meus filhos são estimulados desde cedo. Seja um livrinho no banheiro, conversar com eles para saber que assunto os interessam, ficamos atentos em que desenhos eles assistem ou até que matéria estão tendo na escola. 


*Estagiária sob supervisão de Charlise Morais

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