Lucia Guimarães/Estadão
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Lúcia Guimarães
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Lawrence Block usa Nova York como inspiração em seus romances

Escritor fala ao 'Estado' sobre suas obras

Lucia Guimarães, O Estado de S. Paulo

05 Janeiro 2015 | 19h11

NOVA YORK - A ilha de Manhattan abriga pequenos enclaves cujas fronteiras podem escapar aos turistas. O prolífico e admirado autor de romances policiais Lawrence Block prefere falar de sua obra, que deve muito à cidade, em seu enclave no West Village. Ele marcou uma conversa com o Estado no restaurante francês La Ripaille, onde janta com frequência, a menos de cem metros do edifício em estilo Art Déco onde mora com a mulher. 

Não posso deixar de notar: a vizinhança não é mais a mesma que teria sido frequentada nos anos 70 pelo detetive Matthew Scudder, o mais célebre dos personagens criados por Block, numa série de 17 romances que começou com O Pecado dos Pais, lançado nos Estados Unidos em 1976.

O homem que me encontra no fundo do restaurante envelheceu junto com Scudder. Como o detetive, venceu o alcoolismo e absorve as transformações da cidade. 

Block, aos 76 anos, continua a engordar a obra que passou de cem títulos, e inclui pulp fiction, em romances lançados sob pseudônimo, como Jill Emerson, com tramas de erotismo entre lésbicas. Insatisfeito com versões anteriores de sua obra no cinema, uma delas Morrer Mil Vezes, com Jeff Bridges no papel de Matthew Scudder, Block acha que seu detetive mais querido agora encontrou uma alma gêmea na figura de Liam Neeson, com o lançamento de Caçada Mortal, cuja versão literária sai agora pela editora Record.

O senhor ainda pensa em escrever novos romances com o detetive Matthew Scudder?

Houve momentos em que pensei, a série está encerrada, o personagem já envelheceu 40 anos, seu vigor para trabalhar como detetive está se esgotando. Acho possível escrever outro mas, será necessário? Caçada Mortal saiu aqui em 1993 e este filme começou a ser planejado há uns 16 anos. A opção de filmagem foi sendo renovada e, há dois anos, fizemos novo acordo. Scott Frank, o produtor que comprou os direitos, decidiu ser o diretor e estou muito feliz com o resultado. Não gostei de duas versões anteriores de romances meus, noto que os críticos e o público concordaram comigo.

O quanto o senhor se preocupa com a fidelidade do filme ao mundo que criou?

É um ideal. Mas acho que escritores, quando exigem fidelidade absoluta ao seu texto, mostram não entender de cinema. Sei, como autor, que o meio é outro e nem tudo que está no livro funciona na tela. No caso deste novo filme, alguns personagens desapareceram, mas a transposição de Matthew Scudder para a tela, a meu ver, foi muito bem feita. Para um filme funcionar, o roteirista deve ter a sua contribuição garantida. Fiquei feliz com o ator Liam Neeson como Scudder porque ele tem uma vida interior que cai bem ao personagem. Neeson sugeriu que gostaria de viver o personagem de novo, estou na torcida.

O senhor nota que leitores de mistério são especialmente devotados?

Com certeza, há uma lealdade a séries policiais com um personagem comum que, às vezes, até inspira outras séries. Hoje, com e-mail e o website, os leitores me acham e tenho um retorno muito maior do público. Um mistério para mim é o fato de ser muito mais popular em Taiwan do que sou, hoje em dia, nos Estados Unidos. Não sei se é característico do gênero literário policial ou da expectativa da série. Shakespeare não escreveu As Alegres Comadres de Windsor porque a Rainha Elizabeth queria encontrar o Falstaff de novo?

O senhor mencionou a generosidade de Nova York como fonte de inspiração, mas era a cidade em crise econômica e assolada pelo crime dos anos 70. E que tal a Nova York limpa, ordeira e rica de hoje?

Eu não tenho saudade de crime, claro. Mas critico, sim um certo extremo de gentrificação, quando grupos são expulsos de uma vizinhança por especulação imobiliária. Times Square, por exemplo, tinha um charme devastado que se foi, mas aquela área tinha também bancos de sangue particulares espalhando doenças por aí. A mudança só pode ser boa, não? E a população prefere assim. Não digo que sou afetado, escrevo da minha imaginação. Podia me inspirar em notícias de tabloides então como me inspiro agora, são incidentes isolados. Quando estava escrevendo 8 Million Ways to Die (1986) (no cinema, ‘Morrer Mil Vezes’), o quinto, da série do Scudder, morava na Rua 181, em Washington Heights, no Norte de Manhattan. Naquele livro, além da batalha do Scudder com alcoolismo, havia, um tema central, era de fato a incerteza provocada pela violência, a morte arbitrária. Eu tomava o metrô da linha A até a Rua 4 para sair à noite. Comprava o New York Post, vinha lendo e sempre havia alguma coisa horrorosa. Aí, eu fazia o Scudder comentar as manchetes não relacionadas ao caso que estava investigando. Mas acredito que a transformação da cidade foi para melhor.

O senhor é conhecido por escrever muito rápido. Tem uma rotina ou um segredo?

Agora, por exemplo, estou terminando um livro que foi escrito em três semanas, num apartamento que aluguei na Filadélfia. Quando explico o motivo de escrever rápido, pensam que estou fazendo gozação mas é a pura verdade. É por que sou preguiçoso ao extremo. Ao enfrentar uma tarefa, minha inspiração é dar cabo dela rápido e com a maior facilidade possível.

CAÇADA MORTAL

Autor: Lawrence Block

Tradução: Gustavo Mesquita

Editora: Record (368 págs., R$ 40)

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