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Laurent Binet transforma em romance a morte do autor de 'Fragmentos de um Discurso Amoroso'

Em 'Quem Matou Roland Barthes', o jovem escritor francês, premiado com o Goncourt, investiga o que poderia ter acontecido após o encontro do intelectual com Mitterand

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

10 Dezembro 2016 | 03h00

Laurent Binet é um escritor ambicioso. Aos 44 anos, o vencedor do prêmio Goncourt por HHhH, seu primeiro livro, sobre o assassinato de um chefe nazista da Gestapo, lança no Brasil um romance detetivesco que reinterpreta a morte do sociólogo, filósofo, semiólogo e autor francês Roland Barthes (1915-1980), Quem Matou Roland Barthes? (no original, La Septième Fonction du Langage/A Sétima Função da Linguagem).

Barthes, autor do best-seller Fragmentos de um Discurso Amoroso, foi uma estrela maior da filosofia francesa que, na tarde de 25 de fevereiro de 1980, após almoçar com o candidato socialista à presidência François Mitterrand, foi atropelado por uma caminhonete de lavanderia, nos arredores do Collège de France, onde dava aulas. Ele morreria um mês depois, num leito do hospital Pitié-Salpêtrière, em decorrência de complicações pulmonares – além do acidente, ele trazia sequelas da tuberculose na adolescência.

No ano passado, em que foi comemorado o centenário de nascimento do filósofo, Binet resolveu prestar um tributo a Barthes. Uma bela homenagem, em que relaciona o poder encantatório da linguagem – a tal sétima função do título – ao escritor, especulando qual poderia ter sido o motivo de alguém planejar seu assassinato – na vida real, o atropelamento foi considerado um acidente mesmo. E se não fosse um acidente, pergunta Binet, que decidiu seguir os passos de Umberto Eco ao misturar realidade e ficção em O Nome da Rosa. Sobre esse e outros temas, ele concedeu uma entrevista exclusiva ao Caderno 2, reafirmando sua admiração não só por Barthes “como por Derrida e companhia”.

Se Barthes inventou uma nova forma de filosofia, em que não existe divórcio entre literatura e outras áreas das ciências humanas, Binet tenta aprimorar um gênero criado por Eco, o romance policial que lida com complexas questões existenciais e filosóficas. A sétima função da linguagem de que trata o título do livro de Binet é justamente a que falta no ensaio do pensador russo Roman Jakobson (1896-1982), pioneiro da análise estrutural da linguagem que classificou suas seis funções, dando ênfase à estética/poética.

A sétima função seria, como se disse, o poder de sedução da linguagem, performático e manipulador, capaz de inflamar as massas. Barthes poderia ter saído do encontro com Mitterrand carregando algum segredo – um bilhete, um papel – capaz de despertar interesse em seus inimigos ou até mesmo entre agentes comunistas interessados nas eleições presidenciais. Daí a onipresença de um detetive pouco intelectualizado e convocado para investigar o acidente, personagem patético esnobado por Foucault numa das passagens mais hilariantes do livro, em que o filósofo enfrenta cara a cara o micropoder.

Foucault é quase reduzido a estereótipo por Binet, assim como o detetive pouco afeito a jogos intelectuais, com o qual, diz, não se identifica. “Veja, Foucault é o único personagem no livro que não mostra interesse pela sétima função da linguagem, justamente por estar distante da linguística, na época, seguindo outros interesses como o processo do crime e castigo ou temas relacionados à sexualidade.” Derrida, ao contrário, teria interesse nessa função, o que o transforma numa referência tão presente como a de Eco.

Ninguém, a rigor, teria o mais remoto motivo para assassinar Barthes, figura amorosa. Os eventos descritos por Binet são rigorosamente ficcionais, admite. No entanto, há temas literários retrabalhados em seu livro que remetem aos livros de sir Conan Doyle, em especial O Cão dos Baskervilles, num capítulo em que Derrida é morto por cães raivosos de Searle – uma ‘private joke’ com os dois, uma vez que Derrida (1930-2004) morreu em decorrência de um câncer no pâncreas, mas teve, efetivamente, uma briga intelectual com o filósofo americano nos anos 1970.

“Na França, temos um monte de autores dedicados à autoficção, gênero que não me interessa nem um pouco”, diz Binet. “Gosto mais de ler as ucronias de Philip K. Dick ou Philip Roth”, conclui. O escritor admite, porém, que o pastiche e a paródia não são gêneros que expulsaria de seus livros. “Gosto de ambos, porque mostram a conexão interna que cada livro tem com muitos outros livros, o que a psicanalista Julia Kristeva (personagem de ‘Quem Matou Roland Barthes?’) chama de intertextualidade.”

O que Kristeva não previu é que Mitterrand fosse um plagiário. Pergunto se ele acha que Barthes ensinou ao socialista como usar sua retórica dramática para fazer propaganda política. “Barthes não ensinou nada a Mitterrand”, responde. “Mitterrand roubou as palavras de Barthes, que não usou a linguagem para manipular a massa, mas dividir suas visões conosco.” Barthes, conclui Binet, ensinou-o “ler o mundo”. Especialmente a França, onde, segundo ele, registra-se hoje uma ofensiva do pensamento conservador, traduzido em filósofos que ele considera menores, como Michel Onfray. Onfray seria, no máximo, um bom historiador de filosofia, na opinião de Binet, que se identifica mais com o personagem do jovem professor versado em semiótica de seu labiríntico livro policial.

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