Emily Berl/The New York Times
Emily Berl/The New York Times

Laurence Fishburne narra as memórias de Malcolm X em audiolivro

'Fui convidado a gravar este livro há quase 30 anos, e por razões além da minha compreensão, isso não aconteceu. Evidentemente, é a hora certa. Sinto-me duplamente abençoado por ter sido convidado a narrar este livro neste momento', diz o ator em entrevista

Lauren Christensen, The New York Times

31 de agosto de 2020 | 16h07

Publicada em 1965, A autobiografia de Malcolm X não era, originalmente, uma ideia dele.

Mas em 1963, Alex Haley, um escritor que mais tarde ganharia o Prêmio Pulitzer por Negras Raízes: A Saga de uma Família, convenceu seu cético entrevistado a compartilhar a história de sua vida. Durante as entrevistas noturnas no apertado estúdio de Haley em Greenwich Village, Malcolm X relembrou sua educação em Omaha, Nebraska, por pais que denunciavam o racismo e apoiavam o nacionalismo negro de Marcus Garvey; sua experiência com o crime quando jovem na cidade de Nova York e como ele encontrou, foi transformado e eventualmente se afastou da Nação do Islã.

O livro de memórias resultante tornou-se um documento fundamental não apenas na história dos direitos civis americanos, mas no pensamento do século XX. Convidado a narrar a primeira gravação de audiolivro integral, que a Audible lançará em 10 de setembro, Laurence Fishburne — um ator indicado ao Oscar que já interpretou figuras como Nelson Mandela e o juiz Thurgood Marshall — sabia que tinha uma tarefa difícil pela frente.





“Não acho que Malcolm confiou tanto em Alex Haley no início”, disse ele em uma entrevista por telefone em sua casa em Los Angeles. “Ele precisou ganhar sua confiança”.

Mas essa narrativa é um testemunho da intimidade que eles desenvolveram ao longo do tempo. “Se eu tiver feito bem o meu trabalho”, disse Fishburne, “o ouvinte vai sair com a sensação de que é Alex Haley e Malcolm está falando diretamente com ele”.

Esta entrevista foi editada e condensada.

 

Em seus 50 anos como ator, esta é a primeira vez que você narra um audiolivro. Como o formato se compara a atuar na tela ou no palco?

É ótimo. Outrora havia neste país uma coisa chamada rádio. Eu comparo o Audible ao teatro de rádio. Leitor e ouvinte são envolvidos nessa experiência juntos.

 

E, claro, nenhum de nós pode ir a qualquer tipo de teatro agora.

Verdade, mas você pode estar no teatro de sua mente.

 

Você disse que esse trabalho representava uma 'grande responsabilidade' para você. O que você viu como seu maior desafio ao aceitar este projeto?

Tentar capturar a essência de um personagem como el-Hajj Malik el-Shabazz [o nome que Malcolm X adotou em 1964 quando deixou a Nação do Islã] é algo muito, muito grande. Ele era uma figura maior que a própria vida. Como ele era muito amado, também foi muito incompreendido. A responsabilidade que senti foi tentar ressaltar ao máximo sua humanidade.

Que presente ele deu a todos nós na maneira como viveu sua vida. Ter a consciência de registrar suas experiências aqui na Terra com a clareza que teve, depois de crescer como cresceu, naquela época e lugar e sob aquelas circunstâncias; após suas experiências como criminoso vivendo fora da lei, sendo encarcerado; sendo inspirado, esclarecido e libertado pelo honorável Elijah Muhammad e pelo Islã; e então ter uma mudança de opinião a respeito do mundo e a maneira pela qual ele poderia fazer parte dessa mudança para o melhor. Ele era realmente um indivíduo extraordinário. A cada capítulo do livro, ele se torna mais e mais humano.

 

Você começou a gravar antes de George Floyd ser assassinado, antes dos protestos Black Lives Matter [Vidas Negras Importam] deste ano. Como foi representar as palavras de Malcolm X no novo contexto do movimento pelos direitos civis hoje?

O timing deste audiolivro não muda minha perspectiva tanto quanto a amplifica e traz um foco mais claro. Este tem sido o principal tema do meu trabalho: a luta do povo afro-americano para ser tratado como cidadão de primeira classe neste país. Quando comecei a fazer Blackish, a pergunta que costumava escutar era: "Por que agora as pessoas estão prontas para esse tipo de programa?". E eu costumava dizer: "Bem, você sabe, sempre fui preto".

Fui convidado a gravar este livro há quase 30 anos, e por razões além da minha compreensão, isso não aconteceu. Evidentemente, é a hora certa. Sinto-me duplamente abençoado por ter sido convidado a narrar este livro neste momento.

 

Como você enfrentou a dificuldade de representar a intensificação no tom de Malcolm X, como homem e como narrador, ao longo do livro?

Fui abençoado com um dom para a arte dramática. Portanto, meu trabalho é apenas usar meu instrumento a serviço de Malcolm, o brilhante pensador e ativista político, e desse escritor brilhante, o mestre das palavras Alex Haley

A outra arma secreta é Nicole Shelton, nossa diretora. Ela era meu público, e ela não era apenas uma ouvinte ávida, ela era uma ouvinte ativa. Ela me interromperia mesmo que uma inflexão estivesse um pouquinho errada, e nós a refaríamos. Refizemos as coisas muitas vezes para fazê-las corretamente.

 

Quando você era criança, seu pai era agente penitenciário. Como sua própria educação impactou sua leitura e percepção da brutalidade policial neste livro?

Sim, meu pai trabalhava com adolescentes no sistema correcional da cidade de Nova York. Seu irmão, meu tio, foi um policial de ronda durante anos, e então ele se tornou um detetive. O estresse do trabalho era surreal - meu tio morreu de um ataque cardíaco fulminante aos 49 anos e acho que, em grande parte, devido ao estresse do trabalho. Minha relação com eles e com seu pai, meu avô, que também era funcionário público — ele era carteiro — me deu uma compreensão clara do que era permitido e do que não era. Havia apenas uma certa quantidade de problemas em que eu poderia me meter, vamos colocar dessa forma.

 

Você consegue se lembrar da primeira vez que leu esta autobiografia?

Lembro-me de ter lido este livro quando tinha 20 e poucos anos e me senti inspirado por sua jornada. Alguém que estava tão mergulhado na criminalidade a ponto de ser encarcerado como resultado de uma vida de crime e usou seu encarceramento para se educar? Sair como um homem mais sábio, mais eloquente e atencioso — um homem de verdade — com não apenas uma forte determinação, mas um verdadeiro senso de missão para encorajar as pessoas, para abrir seus olhos? Isso é muito, muito inspirador.

 

Aqui está uma pergunta sem resposta para você: Você acha que a sociedade fez progressos desde 1965?

Essa é uma pergunta muito boa. Se eu lhe fizesse essa pergunta, o que você diria?

 

Eu diria que não o suficiente.

Certo, então podemos dizer que a resposta a essa pergunta é realmente sim e não. Ainda vivemos sob o racismo sistêmico neste país. Isso é fato. Isso não mudou. As coisas mudaram dentro desse sistema, mas o próprio sistema não mudou. E espero que estejamos em um momento — e é parcialmente por isso que este livro é tão importante agora, e porque ele pode ter a capacidade de conseguir mais mudanças — onde parece que mais pessoas estão cientes de quantas mudanças precisam acontecer, e estão dispostas a fazer o que for necessário para isso. E é aí que as coisas têm mudado.


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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