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Lançamento de 'Pornô Chic' revive obra de Hilda Hilst

Compilação de quatro livros da escritora brasileira traz temas que vão do obsceno ao escatológico

Wilson Alves-Bezerra, ESPECIAL PARA O ESTADO

21 Janeiro 2015 | 03h00

 A Editora Globo, através de seu selo Biblioteca Azul, acaba de lançar Pornô Chic, um livro de capa dura em diferentes tons de rosa. Contrariamente à primeira associação que título e programação visual sugerem, não se trata de mais um exemplar da longa série de textos em voga atualmente, como a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, da inglesa E. L. James ou da série Toda Sua, de Sylvia Day -, todos pertencentes a uma categoria mercadologicamente alcunhada de pornô soft: livros supostamente dirigidos ao público feminino, com a finalidade de produzir certo grau de excitação sexual em histórias eróticas de fundo conservador. 

O Pornô Chic em questão consiste numa compilação de quatro livros da escritora brasileira Hilda Hilst (1930-2004), de temática que varia do obsceno ao escatológico, publicados entre os anos de 1990 e 1992, e que representaram um momento de corte na obra da escritora: O Caderno Rosa de Lori Lamby (1990), Contos d’Escárnio - Textos Grotescos (1990), Cartas de Um Sedutor (1991) e Bufólicas (1992). São narrativas e poemas em que a autora, até então tida como hermética e críptica, se lança a um diálogo com a literatura licenciosa: há relações incestuosas, pedofilia, prostituição e uma sexualidade concebida para além das convenções burguesas. As obras dialogam com a tradição da fábula, com a obscenidade do século 18, e trazem referências a Daniel Schereber, Sigmund Freud, Emil Michel Ciorán, Albert Camus, Mishima, Roberto Piva e o mercado editorial brasileiro.

Quando Hilst se decidiu que era o momento de incursionar pela literatura obscena, Caio Graco, então editor da Brasiliense, que já havia publicado seu livro Com Meus Olhos de Cão (1986), teve contato com os manuscritos e os apreciou, mas terminou recusando a edição: “Não tive coragem”, diz ele. Coube a Massao Ohno, amigo e editor da escritora desde os anos 1960, colocar O Caderno Rosa de Lori Lamby em circulação. E o fez com coragem e ousadia: chamou Millôr Fernandes para ilustrar os relatos supostamente autobiográficos da menina de 8 anos que narrava suas aventuras sexuais com um homem mais velho em troca de presentes; a contracapa, máxima ironia, trazia uma foto da escritora, ainda criança, em trajes de marinheiro, sorrindo.


A atual edição da Biblioteca Azul, cuja capa cor-de-rosa faz referência àquele primeiro livro, é responsável ainda por associações importantes: ao adjetivar a pornografia com o termo “chic” - tão próprio do universo da etiqueta e dos modos adequados de se portar em sociedade -, cria não apenas a referência ao erotismo rosa de Sylvia Day e E. L. James, mas, ao mesmo tempo, reverbera o termo tão caro a Gloria Kalil (autora de Alô, Chics!) e insere sub-repticiamente uma dimensão domesticadora absolutamente inexistente nos virulentos livros de Hilda Hilst. Poderia o grotesco ser chic?

A verve indômita de Hilst revela-se também no próprio - e excelente - dossiê que acompanha a edição da Biblioteca Azul, com textos da imprensa sobre a guinada pornográfica de Hilda Hilst. O crítico Humberto Werneck (cronista do Caderno 2), em artigo publicado no Jornal do Brasil, em fevereiro de 1990, ainda antes do lançamento de O Caderno Rosa..., relata sua entrevista com Hilst, em que ela se queixava do pequeno número de leitores, das pequenas tiragens de seus livros, e da falta de atenção por parte da crítica universitária: “Em segredo, Antonio Candido me diz que gosta muito do que eu faço, mas não escreve”. Conclui de modo virulento: “Agora, com o Caderno Rosa e Contos d’Escárnio eu queria ser cuspida”. Em tom mais bem-humorado, noutro texto, ainda falando sobre sua incursão licenciosa, a autora declara a Jorge Coli: “Já que não consigo vender meus livros, quero escrever história de sacanagem para caminhoneiros”. 

Cabe destacar que os livros obscenos do início dos anos 1990 de fato causaram comoção entre colegas e críticos e alavancaram a carreira da autora: o Caderno Rosa foi adaptado ao teatro, com grande sucesso; Hilst passou a ser cronista no jornal Correio Popular, de Campinas, de 1992 a 1995, o que também aumentou seu número de leitores. Até que finalmente, em 2001, a Editora Globo comprou seus direitos de publicação e passou a editar suas Obras Reunidas, com a supervisão e os prefácios do professor da Unicamp Alcir Pécora. Tal qual aconteceria no caso do poeta Roberto Piva, a militância literária de Massao Ohno encontrou, 40 anos depois, a chancela de um grande grupo editorial; assim, os livros entraram em circulação para um público mais amplo, sob os auspícios do mercado e da universidade.

O projeto da Editora Globo consistiu em transformar os 41 livros de Hilst em 19 novos volumes, editados ao longo da década passada, sempre acompanhados de uma introdução crítica do próprio Pécora, que projetava a edição no contexto da produção da escritora e, quando era o caso, explicava os critérios da fusão de livros diversos num só volume. Cresceu também o número de artigos, dissertações e teses sobre a escritora, o que encerrou sua etapa de saída do ostracismo e incorporação ao cânone literário brasileiro.


Escrita angustia e incomoda, não entretém nem excita


A atual publicação de Pornô Chic pode ser compreendida como uma terceira onda de publicações de Hilda Hilst, seguindo-se à primeira, a das pioneiras edições artesanais, em geral sob os cuidados de Ohno (ocorridas entre 1962 e 1994), que colocaram seus textos em circulação, e das Obras Reunidas, a cargo de Alcir Pécora pela Globo (entre 2001 e 2007) - que os chancelaram academicamente. Esta terceira onda, por sua vez, parece mirar uma massificação da obra da escritora: seu início se deu com os fragmentos lançados em 2012 por Luisa Destri, Uma Superfície de Gelo Ancorada no Riso, uma miscelânea de citações de Hilst sobre distintos temas; uma espécie de “o pensamento vivo de Hilda Hilst”. Pornô Chic parece ser um novo passo dessa nova ação.

Entretanto, ao buscar um público massivo para a literatura de Hilst, Pornô Chic atenta contra o próprio núcleo que sustenta a obra obscena da escritora. Alcir Pécora, em sua breve introdução a Contos d’Escárnio - Textos Grotescos (Globo, 2002), ao comentar o papel do “antinarrador” Crasso, com sua mistura de gêneros, entende-o como “uma resposta irônica à literatura banal de mercado”, o chorume da indústria cultural. Diz Pécora: “O lixo cultural do best-seller é, por assim dizer, a condição de sua literatura parasitária e obscena”. O universo dos editores e dos livros faz parte das obras obscenas de Hilst, e escritura que se coloca em cena em tais livros faz frente explicitamente às demandas do mercado. Ora, o que a nova edição da Globo realiza, voluntariamente ou não, é equiparar a obra de Hilda a este mesmo conjunto de livros contra os quais ela se insurge e ou parodia.

A pornografia de Hilda nunca será chic, porque não entretém, não pacifica e não excita sexualmente. No limite, ela incomoda, angustia e ainda produz um riso nervoso. A esse respeito, numa conferência, em resposta a uma leitora que lhe perguntara porque sua escrita era tão angustiada, Hilst esclarece a questão: “Minha senhora, nós temos basicamente sete orifícios. Se a senhora não os lava a cada dia, a senhora fede. Isso não a angustia?”

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