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Lançamento de livros distintos confirma ecletismo de Vargas Llosa

Escritor detalha a sua dívida literária com Gustave Flaubert

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2015 | 05h00

Do realismo à fábula – o escritor peruano Mario Vargas Llosa revela sua perícia ao lidar com estilos tão distintos em dois livros que ganham edição brasileira. A Orgia Perpétua é um dos clássicos de Llosa, que mescla memória e erudição ao analisar uma das obras capitais da literatura mundial: Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Lançada originalmente em 1975, a obra é reeditada pela Alfaguara, que também promete para os próximos meses a segunda história juvenil do autor peruano, O Barco das Crianças.

Llosa descobriu a obra-prima de Flaubert quando chegou a Paris, em 1959. “Foi o primeiro livro que comprei”, conta. “O texto me deu prazer como leitor, mas me ajudou a descobrir o tipo de escritor que eu queria ser. Até aquele momento, eu tendia para ser mais realista, algo que já se confundia com naturalismo na América Latina e que não era criativo, pois estava subordinado à realidade. Com Flaubert (e não apenas em Bovary, mas também Educação Sentimental e sua correspondência), descobri um tipo de realismo que não estava preso a nada, marcado por uma busca da beleza e da perfeição estética, e que podia ser uma literatura delicada sem abandonar o realismo introduzido por Flaubert.”

Publicado em 1857, Madame Bovary tornou-se um escândalo ao retratar Emma, mulher sonhadora, que se casa com o entediante médico Charles. Nem mesmo o nascimento da filha ameniza a angústia e frustração de Emma com o casamento. Ao final, busca no adultério uma forma de encontrar felicidade e liberdade.

Apesar de acusado de ofensa à moral e à religião, Flaubert (1821-1880) criou uma obra considerada pioneira entre os romances realistas. “O curioso é que ele não começou como um gênio – suas primeiras histórias eram até medíocres”, observa Llosa. “Na verdade, Flaubert construiu seu talento, forçando-se, exigindo-se, até se aproximar da perfeição. Como comecei inseguro na carreira de escritor, fui influenciado pela sua perseverança. Li toda sua obra e correspondência. A Orgia Perpétua representa uma memória da influência de Flaubert como leitor e também como aprendiz de escritor.”

E a figura de Emma Bovary é particularmente interessante, segundo o peruano. “Ela é apresentada muitas vezes de forma injusta como uma mulher de província, ingênua, que acredita ser a vida idêntica às novelas que lê. Não, é o contrário, trata-se de uma grande rebelde – não uma rebelde política, mas uma mulher com afã de liberdade, que busca sair do encarceramento em que vivia as mulheres da época. Emma não se contenta em sonhar, mas atua, rompendo convenções de sua época, mesmo pagando por isso. Era uma feminista sem ainda o saber.”

Curiosamente, A Orgia Perpétua não nasceu como livro – convidado a escrever o prólogo de uma nova edição espanhola da obra de Flaubert, Llosa se alongou no texto e terminou com um material com vida própria. Com isso, saldou uma dívida intelectual e sentimental.

Para diversos estudiosos, a admiração de Llosa por Flaubert reflete em sua obra. “Ele pertence à estirpe flaubertiana pelo culto da objetividade narrativa, distribuição dos materiais narrativos, o gosto pelo rigor e as simetrias, que dão à ficção a aparência de autonomia, de autossuficiência, de não depender de um narrador onisciente que move o fio dos personagens, como em todos os romances tradicionais e, sobretudo, por eleger a literatura como forma de vida, subordinando tudo à vocação de escritor, optando pela solidão total”, observou a crítica Bella Jozef, que foi uma das maiores especialistas em literatura hispano-americana do Brasil.

O ecletismo de Llosa se confirma com O Barco das Crianças, livro infantil inspirado no conto de Marcel Schwob, A Cruzada das Crianças. Aqui, ele retoma seu personagem Fonchito, agora um adolescente. Intrigado com um velhinho que passa os dias observando o mar, ele o questiona. O homem, em resposta, conta sua história, mas só um pouco a cada dia. A cada manhã, um novo capítulo de uma trama que envolve um barco repleto de crianças que, desde a época das Cruzadas, singra os mares do mundo.

Llosa acredita na importância da escrita infantil como preparatória dos novos leitores. “Um povo contaminado de ficções é mais difícil de se escravizar que aquele pré-literário, inculto”, observou ele, em um discurso proferido na Espanha. “A literatura é extremamente útil por ser fonte de insatisfação permanente, o que cria cidadãos descontentes. Às vezes, nos torna mais infelizes, mas também mais livres.”

Llosa prepara-se para lançar um novo romance, Cinco Esquinas. O título se refere a um antigo bairro de Lima, hoje reduto da pobreza. “A trama tem a ver com jornalismo escandaloso.”

A ORGIA PERPÉTUA

Autor: Mario Vargas Llosa

Tradução: José Rubens Siqueira

Editora: Alfaguara (280 págs., R$ 44,90)

TRECHO

"Na realização deste livro, aparece esse aspecto fundamental do método flaubertiano: o saque consciente da realidade real para a edificação da realidade fictícia. Por exemplo, para descrever as leituras infantis de Ema, releu os velhos livros de contos e história que ele e seus irmãos tinham lido na infância. Antes de iniciar as reuniões agrícolas, assistiu, com papel e lápis na mão, a um evento deste tipo em um povoado..."

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