REUTERS/Lucas Jackson
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Khaled Hosseini defende importância da literatura na humanização do refugiado

Com cada vez mais movimentos migratórios acontecendo pelo mundo, o escritor afegão Khaled Hosseini destacou nesta quarta-feira (5), em Londres, a importância da literatura como ferramenta para 'humanizar os refugiados'

EFE, Londres

05 Setembro 2018 | 15h45

"Os livros sobre refugiados são necessários porque ajudam a humanizar sua história. Para entender o que acontece é necessário se importar, e para nos importarmos é necessário sentir algo. A literatura é tão importante por isso. Ela nos conecta com esta dura realidade", defendeu Hosseini, que ficou mundialmente após o lançamento de 'O caçador de pipas', na entrevista coletiva para lançamento do seu mais recente livro, 'A Memória do Mar' (Ed. Globo Livros), um relato inspirado na história de Aylan Kudi, o menino sírio de três anos que morreu afogado quando tentava chegar à Europa, em 2015.

Na sua nova obra, que tem a edição brasileira traduzida pelo jornalista Pedro Bial, um pai conta para o filho as lembranças da Síria de sua infância, enquanto observa a noite em uma praia, aguardando o início do dia e o barco que os levará para o outro lado do Mediterrâneo. Com este romance, ele disse pretender prestar homenagem não só aos que perderam a vida no mar ao tentar chegar à Europa, mas todos os deslocados que se veem obrigados a deixar suas casas e famílias.

"Já se passaram três anos (desde a morte de Aylan), mas vemos que as pessoas continuam enxergando na travessia do mar um futuro melhor e essa travessia é cada vez mais perigosa", disse o escritor, que recebeu asilo político nos Estados Unido junto com a família, após a intervenção soviética em seu país natal.

Hosseini, embaixador da boa vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) desde 2006, insistiu sobre a importância de ser levado em conta que a vontade destas pessoas é voltar para os seus lares e que a decisão de deixar toda uma vida para trás "é realmente complicada e agonizante".

"Um deles me disse uma vez: 'Nem sequer o céu é o mesmo de como estar em casa'. Ninguém escolhe ser refugiado. Isto parece óbvio, mas muitos se esquecem com frequência", lembrou o escritor, médico de profissão até a repercussão com o primeiro livro.

Também autor de 'A cidade do Sol', ele aproveitou a ocasião para lembrar que existem mecanismos legais para evitar parte do sofrimento que estas pessoas vivem.

"A reunificação familiar ou a concessão de vistos são apenas duas ferramentas possíveis para evitar tragédias como as do Mediterrâneo. Basta vontade política", disse Hosseini. Apesar disso, ele defendeu que é necessário atingir a raiz do problema e mergulhar nas causas dos deslocamentos.

"A resposta não é unicamente abrir as fronteiras, o problema deve ser solucionado na origem", argumentou o escritor. Com 'A Memória do Mar', Hosseini segue na luta pelos direitos dos refugiados. Conforme anunciou, o lucro das vendas será doado ao Acnur, que destinará aos grupos familiares separados por guerras e perseguições.

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