Andrew Testa/The New York Times
O escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro Andrew Testa/The New York Times

Kazuo Ishiguro declara que fantasia e realidade se relacionam bem

O escritor nipo-britânico falou sobre fragilidade humana em entrevista ao ‘Estadão’

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2021 | 05h00

O escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro já havia escrito um terço de um novo romance quando sua rotina virou de ponta-cabeça – era 2017 e ele se tornara o novo ganhador do Nobel de Literatura. Durante um ano, portanto, até o anúncio de um novo vencedor, Ishiguro se preocupou apenas com viagens, entrevistas, feiras literárias. Quando finalmente retornou ao projeto inicial, não mudou uma linha do que já tinha produzido. 

“Passo um longo tempo estruturando antes de começar a escrever. Então, no momento em que comecei, eu tinha uma ideia muito clara de como o livro seria, o formato da história”, comenta ele sobre Klara e o Sol, romance que terá lançamento mundial nesta terça, 3 – no Brasil, chega pela Companhia das Letras na quinta, 5. Ishiguro concede uma entrevista exclusiva ao Estadão, por Zoom, desde um quarto pequeno de sua casa, em Londres. 

No local, é possível ver uma estante de livros, onde repousa, entre outras obras, a de sua filha, Naomi, intitulado Escape Routes (Rotas de Fuga), seleção de contos com temas fantásticos – nada surpreendente quando se observa a singular carreira literária do pai, que utiliza enredos típicos de ficção científica apenas como uma sedutora ferramenta. É o caso de Klara e o Sol. A protagonista é um robô movido a energia solar que vive em uma loja, à espera de ser adquirida por uma família humana. Klara, na verdade, é um modelo do tipo Amigo Artificial, com a função básica de fazer companhia para pessoas que sofrem de algum tipo de solidão. Mas, embora já existam robôs com tecnologia mais sofisticada que a dela, Klara revela-se única por apresentar impressionantes habilidades de observação, estudando com cuidado o comportamento de seus potenciais compradores.

Até que surge Josie, menina que se interessa vivamente por Klara e convence a mãe a comprar o robô. Josie, no entanto, tem a saúde frágil e a escrita delicada e nada impositiva de Ishiguro faz o leitor refletir se Klara, mais que uma companhia para a menina doente, será, na verdade, uma possível substituta como filha para a mãe desalentada.

“Para mim, é natural escrever com o tipo de voz narrativa de Klara”, comenta Ishiguro. “Ela é uma estranha, pois nem mesmo humana é e, no início, Klara nada sabe sobre o mundo dos homens, embora tenha a habilidade de aprender muito rapidamente. Isso é perfeito para o estilo que sempre utilizei: alguém que está levemente de fora e cuja relação com as emoções dos seres humanos é levemente desconectada, embora muito emotiva. Klara me permitiu trabalhar com um personagem que é, ao mesmo tempo, muito sofisticado, com inteligência superior, mas, ao mesmo tempo, revela-se muito infantil e até ignorante sobre alguns assuntos, o que a leva a ter conclusões que somente um animal ou uma criança pequena teriam.”

Elogiado pelo jornal The New York Times como o mais profundo observador da fragilidade humana na era tecnológica, Ishiguro se concentra, em seu novo livro, em um detalhe importante: mais que a busca por uma superinteligência, Klara quer criar e aprimorar sentimentos – especialmente em relação aos humanos. “Essa é uma das primeiras lições aprendidas por Klara: não se pode acreditar nos humanos de olhos fechados, deve-se observar com muito cuidado, pois situações que acontecem na superfície encobrem, muitas vezes, outros sentimentos.”

Nesse momento, a conversa leva a outro questionamento: o amor verdadeiro pode ser substituído pela tecnologia? “É uma ideia desafiadora que está no cerne da trama”, responde Ishiguro. “A sugestão de que possivelmente você pode substituir um membro da família em caso de morte porque o Amigo Artificial tem toda informação necessária, portanto, não há nada do que sentir falta, há dados suficientes para que você continue tendo a mesma sensação de presença, para tudo isso eu não tenho uma resposta. Mas acho que é algo interessante para se pensar, não intelectualmente, mas emocionalmente: o nosso amor pelas pessoas poderia funcionar dessa forma, uma vez que há chance de reposição?”

De uma certa forma, Ishiguro tocou nessa ferida em Não Me Abandone Jamais, de 2005, triste, mas belíssima fábula sobre três jovens (Kathy, Tommy e Ruth) que são clones criados para doar todos seus órgãos a quem precisa, ou seja, não passam de servidores de peças de reposição. Mas, a partir do triângulo amoroso formado, Ishiguro fala da existência, especialmente da solidão. “Eu era bem mais jovem quando escrevi esse livro, que tem uma atmosfera muito gélida e triste. Acho que, à medida que envelheci, eu me animei e queria quase que escrever uma resposta a Não Me Abandone Jamais. Eu buscava uma resposta à tristeza daquele livro, algo que tivesse um pouco mais de otimismo e esperança.”

Curiosamente, Klara e o Sol foi pensado, no início, como um livro para crianças de 4 ou 5 anos. O escritor comentou sobre a trama com a filha Naomi, que trabalhava em uma livraria e entendia de obras dedicadas para aquela idade. “Esse livro não é apropriado para crianças pequenas. É muito triste e traumatizante”, disse ela, o que desestimulou o pai.

O fio da meada surgiu por acaso, quando Ishiguro viajava certa noite por uma escura estrada rural inglesa, ao lado da mulher, Lorna MacDougall. No meio de uma conversa sobre ideias que poderiam resultar em livros, surgiu uma de suspense, sobre uma pessoa que, ao retornar para a casa da família depois de uma longa ausência, tem a estranha sensação de que seu irmão é um robô.

“Pensei então que, em vez de uma boneca ou um animal de brinquedo, minha história poderia ser sobre um brinquedo adulto, como um robô”, relembra Ishiguro, dizendo que, nesse momento, se interessou em incorporar elementos de Inteligência Artificial, mas sem perder a inocência infantil. “De muitas maneiras, Klara, em vez de vir do mundo dos androides como o de Philip K. Dick, tem mais em comum com ursinhos de pelúcia e bonecas, que são os personagens principais no mundo das criancinhas. Ela tem o tipo de lógica estranha desse ambiente infantil. Como não tem muitas evidências, especialmente no início, Klara tira conclusões muito estranhas, como a de que o sol pode curar pessoas na rua quando elas colapsam. A literatura para crianças pequenas permite coisas assim – você pode ter a Lua falando como uma pessoa e, utilizando uma escada, você chega até ela.”

Embora ambientado em um futuro incerto, o livro reflete angústias atuais, como o fato de empresas de tecnologia conseguirem cada vez mais mapear o desejo e o comportamento das pessoas, algo que Klara faz muito bem apenas pela observação. “Se vivemos em um ambiente em que o Big Data pode nos rastrear e prever o que desejaremos amanhã, o mundo realmente mudou o modo como olhamos uns aos outros. Mas, embora não seja religioso, acredito na existência de algo como a alma, que nos torna especiais e individuais. Assim, por amar muito minha mulher e minha filha, eu não seria capaz de substituí-las.”

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Kazuo Ishiguro volta ao romance com ‘O Gigante Enterrado’

Obra do escritor japonês aborda o dever de se lembrar e a importância da memória coletiva para combater a barbárie

Entrevista com

Kazuo Ishiguro

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2015 | 07h00

Fazia dez anos que Kazuo Ishiguro, um dos principais escritores da atualidade, não publicava um romance, até surgir O Gigante Enterrado, lançado agora pela Companhia das Letras. O lançamento surpreendeu os leitores, pois o autor de best-sellers como Os Resíduos do Dia e Não Me Abandone Jamais enveredava agora por uma arruinada Inglaterra medieval, onde a população desnorteada sofre com diversas ameaças, de invasão de ogros a uma misteriosa névoa que estimula o esquecimento.

Engana-se quem acredita que Ishiguro, japonês de 60 anos e que, desde os 5, vive na Inglaterra, segue a mesma trilha de sucesso de produtos como Game of Thrones – seu universo de fantasia é o ponto de partida para Ishiguro discutir temas como morte e guerra. Mais que isso: mostrar como preservar a memória pode tanto trazer benefícios como malefícios a partir da história do casal de idosos Axl e Beatrice que, ao decidir partir em busca do filho, não se lembra de suas feições tampouco de seu paradeiro. Sobre o assunto, Ishiguro, admirador da Bossa Nova (“Adoro João Gilberto e Roberto Menescal”), conversou por telefone com o Estado

'O Gigante Enterrado' surpreendeu seus leitores, interessados no processo de trabalho e fontes de influência.

Há cerca de dez anos, comecei a escrever uma história que não estava localizada no tempo e no espaço. O ponto de partida era uma sociedade onde as pessoas sofriam de algum tipo de amnésia coletiva, mas estranhamente seletiva. Lá, um casal teme que, sem compartilhar a memória, seu amor iria desaparecer. Escrevi cerca de 50 páginas e mostrei para minha mulher, Lorna. Ela leu as primeiras anotações e foi taxativa: “melhor você começar do zero novamente, pois nada disso vai interessar alguém”. Foi o que fiz: abandonei o projeto por seis anos, escrevi alguns contos até que o tema da memória, que sempre me interessou, me fez voltar ao projeto. E, como de hábito, li muito e fiz uma grande pesquisa antes de voltar a escrever.

De alguma forma, obras como 'Game of Thrones' e similares auxiliaram seu trabalho?'

Na verdade, não. Evito ser influenciado pelas leituras que faço, pois o grande desafio quando se escreve é manter seu mundo ficcional intacto, sem nenhuma influência externa. Não assisti a nenhum episódio de Game of Thrones, pois temia influenciar a forma como visualizaria as cenas do meu romance. Nessa fase do trabalho, prefiro ler obras de não ficção que são mais valiosas como fonte de pesquisa.

E quando decidiu que o romance se passaria em uma Inglaterra medieval?

Normalmente, a escolha da localização da história é minha última decisão no processo. Preciso ter a trama decidida para então escolher o lugar, sem me preocupar que isso poderia definir o gênero do romance. Minha primeira intenção era ambientar em algum lugar contemporâneo. Cheguei a pensar na Bósnia da década de 1990, assim como também cogitei Ruanda, mas logo desisti pois não me sinto qualificado para escrever sobre a África. Eu me sentia mais próximo da desintegração da Iugoslávia pelo fato de viver na Europa e de acompanhar de perto aqueles massacres. Minha ideia era ter um ambiente onde antes dois grupos étnicos distintos conviviam pacificamente até que algo despertasse uma memória tribal ou mesmo social e provocasse um conflito sangrento. Mas logo senti que essa proximidade temporal me obrigaria a usar uma exatidão jornalística, o que não me interessava – minha força como escritor de ficção é essa capacidade de dar um passo atrás. Prefiro criar uma história mais metafórica, que as pessoas possam aplicar a uma variedade de situações, pessoais e políticas.

Foi quando escolheu a Inglaterra povoada de seres míticos?

Sim, porque esse mundo mágico me permite fazer isso. Veja, toda sociedade tem algo enterrado na memória graças à ação de uma força bruta. Em meu romance, questiono se essas lembranças não estão de fato enterradas e se elas, ao ressurgirem, não podem provocar um novo ciclo de violência. Isso leva a um novo dilema, pois não sabemos se é melhor provocar mesmo um conflito para então recomeçar ou se seria melhor manter essa memória enterrada e esquecida.

Chegamos, portanto, à importância da memória em sua obra, elemento cuja função mudou ao longo dos livros.

Com certeza. Escrever é minha única forma de preservar a memória – não de uma forma científica, mas de como o homem consegue preservar sua dignidade ao longo dos tempos. É o que me faz voltar ao conflito central do romance: é melhor preservar alguma lembrança que ponha em risco aquela sociedade ou seria mais prudente esquecê-la para preservar a paz? Neste romance, decidi falar sobre a memória social e o que faz uma nação se lembrar e se esquecer. Assim, para seguir nesse caminho, tive de abandonar a narração em primeira pessoa (confesso que foi penoso) e adotar a impessoalidade que me garantiria uma posição mais neutra a fim de tentar obter um sentimento de toda a nação e a comunidade. Isso tudo focado no casal formado por Axl e Beatrice e o que eles querem lembrar e esquecer, como um casal. 

Veja o trailer de 'Vestígios do Dia' e de 'Não me Abandone Jamais', baseados em romances de Kazuo Ishiguro

 

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Análise: Kazuo Ishiguro foi escolha segura da Academia; vídeo

Escritor britânico nascido no Japão é o Prêmio Nobel de Literatura de 2017

O Estado de S. Paulo

05 de outubro de 2017 | 10h49

Kazuo Ishiguro é o Prêmio Nobel de Literatura de 2017. O anúncio foi feito nesta quinta-feira, 5, em Estocolmo. A Academia Sueca atribuiu a distinção a ele "que, em seus romances de grande força emocional, revelou o abismo sob a nossa ilusória noção de conexão com o mundo". Ubiratan Brasil, editor do Caderno 2, e Guilherme Sobota, repórter, comentaram a escolha, em vídeo. Veja:

+ Análise: Kazuo Ishiguro faz literatura sutil sobre a memória

Em entrevista ao Estado em 2015, Ishiguro se revelou fã de Bossa Nova e explorou suas preocupações com a memória (particular e social). "Escrever é minha única forma de preservar a memória – não de uma forma científica, mas de como o homem consegue preservar sua dignidade ao longo dos tempos", disse na ocasião.

Apesar de ser uma escolha mais tradicional da Academia, em contraste com a nomeação de Bob Dylan em 2016, os romances da fase mais recente de Ishiguro flertam com gêneros como a ficção científica e a fantasia (seu livro mais recente, O Gigante Enterrado, foi lançado já numa época em que Game of Thrones experimentava uma imensa popularidade, e comparações foram feitas). Mas sem perder de vista questões muito humanas, como a memória, a solidão e a desilusão.

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