REUTERS/Mike Segar/File Photo
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Kazuo Ishiguro analisa aspectos profundos da experiência humana em novo livro

'Klara and the Sun' é sobre uma 'amiga artificial' movida pela luz solar criada para amenizar a solidão de um adolescente humano

Entrevista com

Kazuo Ishiguro

Mary Laura Philpott, Washington Post

29 de junho de 2021 | 10h00


Com seu oitavo romance, Klara and the Sun, Kazuo Ishiguro, prêmio Nobel conhecido por Vestígios do Dia e Não Me Abandone Jamais, tem novo bestseller. Nesta nova história, sobre uma “amiga artificial” movida pela luz solar criada para amenizar a solidão de um adolescente humano, Ishiguro analisa aspectos profundos da experiência humana: nosso instinto para proteger e cuidar dos nossos entes queridos, nossa necessidade de ser visto e compreendido, nossa consciência angustiante da mortalidade. É uma fábula comovente, rica em aspectos que devem motivar discussões em clubes do livro.

De sua casa em Londres, Ishiguro falou sobre seu novo romance, o prêmio Nobel, a paternidade, como conseguiu se manter à tona durante a pandemia e outros assuntos. 


 

Vários dos seus livros anteriores voltaram à minha mente quando li 'Klara and the Sun'. O que me chamou a atenção é que a profunda necessidade de provar nosso direito de existir - provar que merecemos ocupar seja qual for o espaço que ocupamos, que nossa existência tem um propósito e não deve ser desperdiçada - está no centro de grande parte dos seus livros. Pensei no mordomo de 'Os Vestígios do Dia', nos clones do livro 'Não Me Abandone Jamais'. A amiga artificial, Klara. Por que o senhor retorna tão frequentemente a essa ideia? Ou, acho que deveria perguntar primeiro, o senhor acha que está retornando novamente a essa ideia?

Sim, acho que você está totalmente certa. Retornei ao tema, mas talvez a partir de ângulos diferentes. Não se trata apenas do que me interessa no caso dos seres humanos; o que admiro neles, mesmo quando estão errados. O que eu amo nos seres humanos. Não somos como vacas e carneiros, seja lá o que for. Não ficamos satisfeitos de apenas nos alimentarmos e reproduzirmos e depois morrermos. Persistimos nos perguntando: “eu dei alguma contribuição? Tenho sido um bom...?”. Mesmo um criminoso se pergunta: “tenho sido leal aos membros da minha gangue?” Isto está inculcado nos seres humanos. Queremos afirmar que agimos certo, não só em termos de carreira, mas como pai, irmão, amigo ou esposa.


 

A justaposição de tecnologia e seres humanos - ter essa máquina que tenta criar uma compreensão acurada do mundo natural e da sociedade humana - deve ser uma situação perfeita para uma narrativa. O senhor tem refletido sobre os avanços no campo da tecnologia artificial nos últimos anos? E a tecnologia é algo que o senhor teme ou comemora - ou ambos?

Penso que ambos. Tenho lido muito e, na verdade, tenho conversado sobre coisas como Inteligência Artificial e tecnologia genética. Ando muito interessado nessas áreas há vários anos, mas sem realmente pensar em escrever um livro abordando esses temas em meus romances. Tenho medo deles, mas acho que revelam coisas fascinantes para nós, particularmente em termos de cuidados com a saúde. Naturalmente, eles implicam perigos enormes de maneira que, como sociedade, temos de nos reorganizar para nos beneficiarmos disso tudo e não destruir nossa civilização. 


 

A paternidade é uma das relações centrais em 'Klara and the Sun'. Como a paternidade o influenciou como escritor?

Não consigo imaginar que tipo de pessoa ou de escritor eu seria se não tivesse tido essa experiência. A sua perspectiva muda. Emocionalmente, intelectualmente, você olha o mundo de modo diferente. Acho que a perspectiva se amplia também. Você olha as coisas não no âmbito da sua própria vida, mas em termos da vida do seu filho, seus netos, seus bisnetos. A maneira como você encara a vida, nossa existência, enfim tudo muda. De vez em quando deparo com escritores que dizem que ter filhos arruina sua carreira. Acho que é um grande erro, a menos que você pense que a carreira de escritor tem a ver apenas com sentar e produzir uma determinada quantidade de livros.


 

Às vezes, eles invadem seu escritório.

(Risos) O esforço artístico envolve tentar vivenciar a vida e refletir sobre ela. Não estou afirmando que os escritores que não têm filhos não produzem livros profundos. Temos muitos exemplos disto. Mas não acho que seja algo que um escritor deve evitar porque acredita que não é bom para sua carreira. 


 

No seu discurso ao receber o Prêmio Nobel em 2017, o senhor se referiu ao prêmio como uma indicação de que o premiado 'deu uma importante contribuição para a nossa empreitada humana comum'. O que seria essa empreitada?

Uma vez tendo essa enorme honra, algumas pessoas acham que esta é a honra máxima de todos os campos do esforço humano - tento imaginar se não apenas eu, mas também a atividade literária é digna desta honra, ao lado da medicina, a física, a química, e, naturalmente, a paz. Hoje há um Nobel de Economia, adicionado para os tempos modernos.

Naturalmente, a literatura é importante, mas é algo que na calada da noite me deixa preocupado. Por que? Se você eliminar a medicina, vamos ter problemas de fato. Se tirar também as ciências, a paz...

Mas a literatura, ela merece estar ali? Eu mereço representá-la? Venho dizendo isto há anos, se extrairmos a leitura, a literatura, vamos eliminar alguma coisa muito importante na maneira como nós, seres humanos, nos comunicamos um com o outro. Não basta apenas ter conhecimento dos fatos. De algum modo temos de ser capazes de comunicar nossos sentimentos e nossas emoções, de dizer o que sentimos em diferentes tipos de situações. Do contrário, não sabemos o que fazer com nosso conhecimento.

Quando criamos histórias para filmes, ou quando relatamos algo para uma pessoa quando nos encontramos, é um elemento fundamental. Elimine isso e coisas ruins vão acontecer. Vamos acabar profundamente sozinhos e incapazes de atuar como uma civilização.


 

Quando o senhor acorda de manhã e sente a primeira fagulha de motivação para começar seu dia, o que o está inspirando?

Como todo mundo, sinto falta de companhia por causa da pandemia. Com frequência, eu procurava por algum evento. Ver alguém que gostaria de ver. Adoro conversar com estrangeiros, com velhos amigos, com os membros da minha família.

Conversar é algo que sempre me entusiasma porque sempre vai revelar alguma coisa nova. Temos tido muita coisa sobre o que refletir recentemente, não apenas sobre a pandemia, mas sobre a direção que estamos seguindo como uma sociedade no mundo ocidental. Temos muitos, muitos desafios pela frente e parte disso é deprimente, mas - odeio dizer isso - é o que me faz levantar de manhã.

Eu penso, “vou me inteirar mais sobre isto. Estou lendo isto e este livro é fascinante, as ideias são fascinantes”. Algumas coisas terríveis ocorreram no ano passado, pessoas perderam muitos entes queridos, mas estes não são tempos desinteressantes.


Tradução de Terezinha Martino

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