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Jornalismo em formato de quadrinhos ganha espaço no Brasil

Lançamentos, cursos e artistas exploram novas formas de se fazer reportagem

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2018 | 03h00

Desde que “pós-verdade” foi eleita a palavra do ano pelo dicionário Oxford, em 2016, a barreira entre ficção e realidade parece cada vez mais permeável. No jornalismo, porém, essa é uma discussão ética que remonta aos primórdios do ofício: João do Rio, com sua Alma Encantadora das Ruas, e o ‘new journalism’ de Gay Talese e Tom Wolfe exploraram os limites da representação da verdade. Se a realidade parece escapar por entre os dedos, por que não capturá-la por meio da arte? Essa é a premissa do jornalismo em quadrinhos, uma tendência que parece ganhar cada vez mais força e pode ser apreciada pelos leitores brasileiros com dois lançamentos importantes – Refugiados: A Última Fronteira, de Kate Evans; e Raul, de Alexandre de Maio. 

Canadense radicada na Inglaterra, a cartunista e ativista Kate Evans, 46 anos, foi voluntária da ajuda humanitária na chamada Selva de Calais, um acampamento não oficial de refugiados que se formou entre janeiro de 2015 e outubro de 2016 na França. O lugar foi ocupado majoritariamente por pessoas fugindo de países como a Síria e o Irã, tentando alcançar seus parentes já instalados no Reino Unido. O processo burocrático britânico e a má vontade das autoridades europeias provocou um acúmulo de pessoas em Calais, acomodadas em cabanas improvisadas, à mercê de golpistas que prometiam travessia para a Inglaterra e confinadas sem poder exercer suas profissões. 

A experiência de Evans durante o tempo que ela passou na Selva de Calais é contada de maneira crua na reportagem gráfica Refugiados, costurando sua jornada pessoal pelo acampamento com as histórias dos imigrantes – como um menino órfão de apenas sete anos que fugiu sozinho do Afeganistão, foi feito escravo na Turquia, quase se afogou no Mediterrâneo e teve os olhos feridos pelo gás lacrimogêneo da polícia francesa. “Foi humilhante para mim conhecer pessoas de países da África e do Oriente Médio destruídos pela guerra e fome que mostraram tanta generosidade e rapidamente compartilharam o pouco que tinham comigo”, afirmou a autora em entrevista ao Estado. “Não encontrei monstros, terroristas, selvagens, invasores, parasitas ou loucos. Encontrei pessoas.”

No Brasil, os quadrinhos também estão sendo usados para falar sobre a realidade. Alexandre de Maio, 40 anos, lançou recentemente Raul, reportagem gráfica em que conta a história verídica de um rapper que estava em ascensão quando foi preso por praticar golpes com cartões de crédito. “Antes ninguém falava sobre isso, mas de 2013 para cá todo ano venho recebendo convites para bancas de TCC sobre jornalismo em HQs”, conta o quadrinista, que venceu o prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo em 2013 por Meninas em Jogo, uma reportagem gráfica em parceria com Andrea DiP. “Percebo um grande interesse dessa nova geração”, comemora De Maio, que ministrará um curso sobre o tema, A História do Jornalismo em Quadrinhos e sua Prática, no Museu da Imagem e do Som (MIS), entre 11 de março e 3 de abril de 2019, às segundas e quartas, às 19h.

Um dos primeiros exemplos de publicação do tipo foi a revista britânica Brought to Light, que reuniu em 1989 Alan Moore (V de Vingança, Watchmen) e o ilustrador Bill Sienkiewicz para fazer reportagens sobre a atuação da CIA na venda de armas e drogas, além da intervenção em países como a Nicarágua. Maus (1980-1991), obra-prima de Art Spiegelman é, ainda hoje, uma das melhores representações do Holocausto em qualquer mídia e foi a primeira graphic novel a vencer um Pulitzer. Palestina (1993-1995), de Joe Sacco, é outra iniciativa do gênero que se tornou um clássico ao retratar o cotidiano na Faixa de Gaza.

Se as HQs como as conhecemos hoje surgiram em meados do século 19 nas revistas jornalísticas, nada mais justo que o jornalismo se reinventar pelas páginas dos quadrinhos.

'Não encontrei monstros, terroristas, e sim pessoas'

O que você aprendeu sobre os refugiados ao fazer essa HQ?

Refugiados são pessoas. Pessoas comuns, boas e más, fugindo de situações extraordinárias. Quando todos reconhecerem que imigrantes não são diferentes de outras pessoas, então as soluções serão possíveis. Minha HQ apenas conta a simples história do que fiz e de quem encontrei em dez dias em um acampamento não oficial. Não encontrei monstros, terroristas, selvagens, invasores, parasitas ou loucos. Encontrei pessoas.

Outros repórteres, como Joe Sacco, influenciam seu trabalho?

Eu gosto do trabalho de Joe Sacco, mas não o cito como uma influência direta, porque venho fazendo reportagens gráficas por 25 anos, e o li apenas alguns anos atrás. Nunca fui realmente fã de HQs quando jovem porque achava as imagens de mulheres muito estereotipadas. Eu preferia cartunistas políticos e fanzines feministas underground. 

Como os refugiados reagiram às intervenções artísticas no acampamento?

Arte quebra fronteiras. Arte existe sem barreiras linguísticas. Arte é uma expressão fundamental de humanidade. Houve projetos artísticos no acampamento que tocavam nessa questão. Por exemplo, Majid Adin, um homem que foi preso no Irã por charges políticas, chegou a Calais e começou a desenhar pela primeira vez desde sua prisão e tortura. Ele conseguiu asilo no Reino Unido e ganhou uma competição de animação para a criar um vídeo da música Rocket Man, de Elton John. Essa é uma história de sucesso. Mas também temos que ser realistas sobre as reais necessidades das pessoas. Elas precisam de segurança, igualdade e liberdade de ir e vir. Levar um pacote de lápis coloridos para um campo de refugiados não soluciona esse problema.

Na sua opinião, qual é a solução ideal para a crise migratória?

Há 68,5 milhões de refugiados no mundo hoje, 44 mil pessoas forçadas a fugir de casa diariamente. O efeito de remover fronteiras nacionais foi matematicamente modelado, e resultaria em um aumento de PIB global entre 50% e 150%. Não faz sentido economicamente enclausurar pessoas onde elas não podem trabalhar produtivamente, em vez de deixá-las ir para um lugar seguro e começar uma nova vida. Eu sei que parece impossível. Muito de nossa identidade está enraizada na ideia de pertencimento a uma nação. Mas 200 anos atrás, parecia impossível dizer que mulheres podem ser iguais a homens, e negros iguais a brancos. À medida que crises motivadas pelas mudanças climáticas pioram, essas ondas de pessoas esparramadas pelo planeta vão ficar mais intensas. Em algum momento, teremos que fazer uma escolha. Somos membros da raça humana? Que nível de genocídio é aceitável? Quando começaremos a optar pela vida?

Leia a reportagem gráfica que Alexandre de Maio produziu com exclusividade para o 'Estado'

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