John Le Carré diz que quase desertou para os soviéticos

Escritor também diz que poderia estar errado ao não apoiar Salman Rushdie contra o decreto do Irã

14 de setembro de 2008 | 14h13

O escritor de romances de espionagem e ex-agente secreto John Le Carré disse que se sentiu tentado a desertar para a União Soviética quando trabalhava para a agência de espionagem do Reino Unido, o MI6, de acordo com entrevista publicada neste domingo, 14, pelo jornal The Sunday Times.   O escritor, hoje com 76 anos, foi citado afirmando que estava curioso a respeito da vida do outro lado da Cortina de Ferro. "Não era uma tentação ideológica", disse ele, de acordo com o Times. "Mas quanto você faz espionagem de um modo tão intensivo e chega mais e mais perto da fronteira... parece ser um espaço tão curto para saltar... e, sabe, descobrir o resto".   Um telefonema e um e-mail para o agente de Le Carré em Londres, pedindo comentários, não obtiveram resposta neste domingo.   O escritor - cujo nome verdadeiro é David Cornwell - teve experiências de primeira mão com deserção e traição. Ele começou a trabalhar para o serviço secreto britânico em 1949, em Bonn e Hamburgo, na então Alemanha Oriental, mas sua carreira, segundo Times, foi estragada pelo traidor britânico Kim Philby.    Cornwell usou suas experiências de vida para uma série romances best-sellers, atingindo a fama com a publicação de O Espião que Saiu do Frio, em 1963.   Esse livro e outros receberam elogios da crítica ao explorar as ambigüidades morais da Guerra Fria. Muitos foram filmados, sendo mias recente O Jardineiro Fiel.   Le Carré também é famoso por suas críticas à política externa dos Estados Unidos. Em uma carta aberta aos eleitores americanos em 2004 ele chamou a invasão do Iraque de "uma aventura idiota" e pediu que os americanos chutassem Bush para fora do cargo.   Mas ele ofereceu palavras quase conciliatórias a Salman Rushdie, o romancista com quem travou uma dura polêmica.   Le Carré recusou-se a apoiar Rushdie quando o governo iraniano baixou uma ordem religiosa exigindo a morte do autor de Versos Satânicos.   Le Carré acusou Rushdie de ofender os muçulmanos deliberadamente, e a discussão gerou uma troca pública de agressões pelas páginas do jornal The Guardian.   "Só me pareceu pouco razoável esperar que o islã atingisse, de repente, o mesmo estágio de desenvolvimento que nossas religiões. Mas talvez eu estivesse errado", disse ele. "Se estava, eu errei pelos motivos certos".

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