Fred R. Conrad/The New York Times
Fred R. Conrad/The New York Times

John Grisham retorna a seu resort fictício no livro ‘Camino Winds’

Obra do escritor americano é oportuna para este momento, apesar de tudo

Janet Maslin, NYT

07 de maio de 2020 | 11h00

Há três anos, John Grisham concebeu uma nova fórmula de sucesso. Abandonou os advogados para escrever um livro real sobre praia, areia e tudo o mais. Não seria exatamente um novo caminho para alguns escritores, mas, no caso de Grisham, foi uma agradável surpresa, especialmente porque a areia se encontrava num resort fictício da Flórida chamado Camino Island, com uma das maiores livrarias do mundo, manuscritos roubados de F. Scott Fitzgerald, uma colônia de escritores de fofocas e um local de férias sonolento. Um livro estrelado por uma mulher, Mercer Mann, que colocou o livro diretamente no país da atriz Reese Witherspoon.

Os leitores que desfrutaram de Camino Island esperavam que fosse o início de uma série. Portanto, eles devem estar contentes em saber que uma continuação da história chegou, embora não seja tão leve. Camino Winds tem uma trama envolvendo um feroz furacão. Trata-se de um livro com elementos de um thriller mais tradicional de Grisham.

Mercer, que era uma autora principiante em Camino Island, agora é um sucesso literário e comercial. O romance tem início com um jantar de comemoração do fim do seu tour de promoção do livro que a levou a 34 lugares e que naturalmente a trouxe à famosa Bay Books de Bruce Cable. Com a autoridade de uma pessoa que faz o que gosta há décadas, Grisham colocou uma extraordinária livraria em Camino, com Bruce, como um bom amante da vida, dirigindo-a.

Bruce é tão apaixonado pelo seu trabalho que com frequência se vê atraído por escritoras que passam pelo local. É o tipo de coisa que coloca Grisham em dificuldade numa sequência mais espinhosa, mas, em Camino Winds, esse detalhe se soma ao clima de fofoca que paira sobre o jantar. Sentimos a hospitalidade sulista nessa cena inicial, desde os arranjos de mesa e os candelabros ao cardápio e à conversa.

Ali estão o escritor que ganha muito com seus livros sobre jovens vampiros, o “taciturno poeta” que nunca vende livros e é aconselhado a escrever algo mais obsceno sob um outro nome. O escritor de thrillers que foi um dinâmico advogado conta histórias de pescaria. E o novo contrato para dois novos livros assinado por Mercer é invejado, mas comemorado.

Então, deixando para trás o bate-papo literário, Grisham evoca o furacão e a história de fato. Camino Island é duramente atingida e Nelson Kerr, o advogado que se tornou escritor de thrillers, aparece morto. Ele tinha um livro inacabado. Terá sido morto por alguma coisa contida no seu manuscrito?

De repente, nos encontramos em meio a árvores tombadas e escombros, e Camino Island, de ilha paradisíaca, se transforma numa área de desastre. No meio de tudo isto, Bruce, o escritor Bob e Nick Sutton, um jovem universitário que trabalha durante as férias de verão na livraria, iniciam seu trabalho de detetive. Nick é um personagem divertido porque ele inala romances criminais e está entusiasmado com o fato de começar a agir como personagem de um desses livros. 

Mercer evapora nesse cenário. E então ficamos com esses três amigos, como Grisham os chama, à caça dos “bandidos” (termo que o livro usa muito). Se Camino Island oferecia um gancho sexy da trama na forma dos manuscritos de Fitzgerald, o gancho em Camino Winds é mais sério, mais direcionado para o tema. Não tem nada a ver com o primeiro livro ou a livraria e vai mais na direção da fraude da escola de direito que visa lucro e que encontramos no último thriller legal de Grisham, Justiça a Qualquer Preço (Arqueiro).

Grisham sabe como contar histórias como essa. E ele não abandona inteiramente sua mentalidade de férias neste livro, mesmo que Camino seja atingida pelo desastre. Ele devota muito tempo a Bruce e seus amigos limpando os escombros, mas, durante a história que se prolonga por um ano, ele encontra razões para enviá-los para hotéis e restaurantes por toda a parte. Mas a ilha, a livraria e a heroína são as principais atrações do livro.

A intenção de Camino Winds era ser um entretenimento escapista, mas seu timing inevitavelmente dá ao livro uma ressonância diferente. Camino Island irá se recuperar, mas, na maior parte do livro, é uma sombra do que foi. Os turistas desapareceram e as empresas estão em dificuldade. A história envolve muitos pacientes em terapia intensiva. E Grisham, que é atraído para grandes temas, mas geralmente mantém a política fora dos seus livros, usa a frase “pull a Trump” para descrever um pedido de falência com o objetivo de se esquivar das responsabilidades. Camino Winds é oportuno para este momento, apesar de tudo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO


 

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