Paulo Nunes dos Santos/The New York Times
Paulo Nunes dos Santos/The New York Times

John Banville mata seu pseudônimo em novo livro

Com novo romance, 'Snow', escritor irlandês anuncia que não vai mais assinar como Benjamin Black

Charles McGrath, The New York Times

08 de outubro de 2020 | 05h00

O escritor irlandês John Banville tem fama de perfeccionista – o tipo de escritor que pode passar um dia numa única sentença. Seus livros, na maior parte escritos na primeira pessoa, são lapidados, intrincados, nabokovianos. Ou difíceis, como se queixam alguns leitores, mais interessados no estilo do que na narrativa. Invariavelmente, eles estão repletos de palavras que parecem ter a finalidade de provar que o seu vocabulário é maior do que o de outros: floculento, crapuloso, caduco, anaglypta (um tipo de papel de parede), mefítico, velutinoso.

Um romance típico de Banville leva normalmente quatro ou cinco anos para ser concluído, e depois disso o autor continua insatisfeito. Em uma entrevista em 2009, ele disse à The Paris Review que odiava seus próprios livros. “São um embaraço e uma fonte profunda de vergonha. São melhores do que os livros de outros, mas, para mim, não são bons o suficiente.”

Em março de 2005, contudo, quando hospedado na casa de um amigo na Itália, certa manhã ele se sentou e, por alguma razão, começou a escrever um romance de mistério ambientado em Dublin. Na hora do almoço, já havia escrito 1.500 palavras, o equivalente ao trabalho de uma semana no seu ritmo habitual. Ele terminou o trabalho em cinco ou seis meses. “Fiquei um pouco chocado com a velocidade com que terminei o livro”, disse ele num e-mail recente. Ele estava lendo Simenon – não os romances de crime do inspetor Maigret – e ficou inspirado por ele para ver o que conseguiria realizar com um vocabulário estreito e um estilo direto, mais sóbrio.

Aquele romance, O Pecado de Christine – sobre um médico alcoólatra chamado Quirke, cuja função de patologista no departamento médico-legal de Dublin o coloca em contato com muitos cadáveres –, foi publicado em 2007 sob o pseudônimo de Benjamin Black. Um pseudônimo que não era na realidade um disfarce – livrarias e críticos literários sabiam disso desde o início, mas uma maneira de indicar que John Banville tinha uma outra metade mais sombria que era capaz de algo diferente.

“Como John Black estava determinado a escrever usando um estilo o mais simples possível”, disse. “Banville, às vezes, tenta compeli-lo a desacelerar e saborear as frases, e isso foi algo para o qual ele sempre se manteve alerta. Eu sempre digo que aquilo que você extrai de Black é o resultado da espontaneidade, ao passo que em Banville é a concentração ao extremo.”

Banville esperava escrever apenas um romance sobre Quirke, mas acabou escrevendo mais seis, junto com quatro livros usando o pseudônimo Black que não se referiram ao patologista, incluindo uma imitação de Raymond Chandler e um romance que imagina as duas princesas britânicas, Elizabeth e Margaret, sequestradas na Irlanda durante a Segunda Guerra Mundial. Esses livros não o tornaram rico ou tão rico como Banville esperava, mas ele conquistou um novo público. Os livros de Black são tudo o que os de Banville não são: cristalinos, tramas coesas, movidas pelo diálogo – e alguns leitores infiéis chegaram mesmo a confessar que agora os preferem mais.

Por outro lado, Banville, continuando com seu estilo usual, escrevendo à mão em cadernos de notas (diferentemente de Black, que usa um computador), conseguiu concluir quatro livros seus desde que Black surgiu. O mais recente deles, Mrs Osmond (2017), é uma continuação de Retrato de uma Dama, de Henry James, escrito em uma imitação perfeita do estilo de James. Que é um pouco mais fácil do que muitos, disse Banville. “Para minha surpresa, cheguei à conclusão de que eu tinha a voz de HJ, ou algo similar, desde o início.” Houve dias em que ele saía para caminhar e voltava se sentindo como se algumas páginas tivessem sido escritas na sua ausência. “Tão desligado eu estava que eu recostava de vez em quando e observava minha caneta tinteiro traçando as frases”, afirmou. “Uma sensação estranha.”

O mais recente livro de Banville, Snow, é uma nova história de mistério, também ambientada na Irlanda na década de 1950, mas com um novo detetive, St. John Stratford, um jovem pertencente à classe de latifundiários protestantes. Foi lançado há dois anos na Espanha, onde Benjamin Black é muito popular – por razões que, para Banville, têm a ver com a história compartilhada da Espanha e da Irlanda no século 20: guerra civil, hegemonia da Igreja, e algo de sombrio que faz parte do caráter nacional.

Quando Snow for lançado no próximo mês, a capa vai exibir o nome de John Banville, não Benjamin Black, em letras grandes. Black, disse Banville recentemente, muito graciosamente se permitiu ser eliminado, embora persista na Espanha, colocando um quebra-cabeça para críticos e biógrafos, porque ele é grande demais para morrer.

Segundo Banville, o que ocorreu é que, ao reler alguns livros de Black, decidiu que eram melhores do que achava até então. “Fiquei surpreso e muito gratificado ao descobrir que não eram ruins, de modo nenhum, na verdade, eram muito bons”, explicou. Banville disse que está determinado a terminar novo livro até o Natal, e acrescentou, citando a famosa frase de Oscar Wilde sobre o papel de parede no quarto de hotel em Paris onde ele estava morrendo: “um ou outro de nós terá de ir”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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