Joël Dicker é um suíço com vocação cosmopolita

Em entrevista coletiva na Flip, autor de 'A Verdade sobre o Caso Harry Quebert' propõe devolver ao público a literatura

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

31 de julho de 2014 | 17h54

PARATY - O escritor suíço Joël Dicker, que veio à Flip discutir o tema fabulação com a neozelandesa Eleanor Catton, ambos autores de best sellers, considera que sua geração tem o missionário dever de devolver à literatura o público perdido desde o advento, nos anos 1950, do nouveau roman francês, que dificultou o acesso do leitor mediano aos temas propostos por Alain Robbe-Grillet e companhia.

Dicker, 29 anos, autor de A Verdade sobre o Caso Harry Quebert (Editora Intrínseca) está mais próximo da narrativa americana que dos franceses, embora destaque o papel de bons narradores de histórias como Guy de Maupassant e Victor Hugo em sua formação literária. Essa discussão vem a propósito do prêmio que recebeu da Academia Francesa em 2012 por “Harry Quebert”, que já vendeu só no Brasil mais de 20 mil exemplares e conta a história de um escritor prodígio americano envolvido na investigação de um crime numa cidade litorânea dos EUA. Nele está envolvido seu mentor Harry Quebert, professor universitário, também mestre de Nola, desaparecida em 1975, justamente o ano em que ele lançou um livro com um título revelador, "As Origens do Mal".

Dicker enfrenta há dois anos uma maratona para promover seu “Harry Quebert” pelo mundo. Cosmopolita, passou as últimas 20 temporadas de verão nos EUA, enquanto sua mãe cuidava de uma livraria na Suíça e o pai dava aulas de literatura numa escola de ensino médio, sem muito interesse pelos livros que Dicker escrevia. A mãe escondia os títulos do filho nas prateleiras de sua livraria, até ver que outras livrarias, em Genebra, exibiam com destaque as suas obras, que vêm sendo redescobertas após o sucesso de “Harry Quebert”. Dicker diz com orgulho que, a despeito da metalinguagem e das críticas à indústria editorial, o êxito do livro deriva do interesse de seus leitores pela trama de suspense, sustentada pela memória de Nola, a aluna enterrada no jardim do professor.

“Não estou julgando a geração do nouveau roman francês, mas o fato é que os nomes de Marguerite Duras, Romain Gary e outros autores inibiram o aparecimento de jovens autores que queriam simplesmente contar histórias, na tradição de Maupassant”, disse Joël Dicker na entrevista coletiva concedida nesta quinta, 31. “A computação e o cinema também tiraram o público da literatura e só agora os autores atentam para as possibilidades representadas pela interação com essas mídias”. Dicker diz que tem feito um trabalho junto às escolas francesas, especialmente as de imigrantes, para atrair jovens leitores. “Nessas escolas, tive o prazer de ouvir de alguns alunos que o meu era o primeiro livro que haviam lido”.

Dicker revela que uma nova geração de cineastas suíços está atenta para o fenômeno literário representado por best-sellers como A Verdade sobre o Caso Harry Quebert, que deixa a zona de conforto das narrativas de caráter autobiográfico para avançar no território cosmopolita da literatura, antes restrita a uma geografia particular, familiar. “Eu mesmo, nos cinco primeiros livros, contei muitas histórias pessoais, quando descobri que tinha a liberdade de ambientar minhas tramas em qualquer país do mundo e com os mais variados personagens, um pouco à maneira do que faz Eleanor Catton em ‘Os Luminares’, eu diria”.

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