João Ubaldo Ribeiro morre aos 73 anos no Rio

Escritor sofreu uma embolia pulmonar no apartamento em que morava com a mulher, na zona sul

Sérgio Torres e Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2014 | 07h32

Atualizado às 16h10.

RIO - O escritor baiano João Ubaldo Ribeiro morreu na madrugada desta sexta-feira, 18, aos 73 anos. Autor consagrado de obras como Viva o Povo Brasileiro, ele sofreu uma embolia pulmonar no apartamento em que morava com a mulher, na zona sul do Rio.

O velório do escritor no Salão dos Poetas Românticos, na Academia Brasileira de Letras (ABL), começou no fim da manhã. O enterro deve ser realizado na manhã deste sábado, 19, no mausoléu da ABL no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na zona sul do Rio.

A secretária de João Ubaldo Ribeiro, Valéria dos Santos, contou que ele vinha trabalhando em um novo romance havia “um ano e meio ou dois”. Ele acordava todos os dias por volta de 4h ou 5h para aproveitar o sossego do horário e se sentava para escrever. Às 10h, quando começavam os ruídos da casa, parava.

Nesta sexta, ele se sentiu mal por volta das 3h e chamou pela mulher, a psicoterapeuta Berenice Batella, com quem morava na companhia da filha Francisca, no Leblon. Rapidamente, chegaram paramédicos que tentaram reanimá-lo. Às 3h30, foi constatada a morte de Ubaldo, contou Valéria. “Foi muito rápido e muito triste. Ubaldo era uma pessoa muito agradável, um gentleman, tinha uma delicadeza ao lidar com o ser humano.”

A secretária não sabe qual é o tema do romance inacabado. “Ele não me contou, dizendo que queria me proteger porque se eu soubesse todos me pressionariam para contar.” Valéria disse ainda que Ubaldo buscava tranquilidade para dar continuidade ao livro. Ele a pedia para cancelar compromissos e negar convites que chegavam diariamente, como participações em feiras literárias, conferências e homenagens.

As reuniões de trabalho entre os dois se davam entre Skype ou e-mail, pois Ubaldo não gostava de falar por telefone. Valéria contou que, em maio, o escritor foi internado no hospital Samaritano com dificuldades respiratórias. Na ocasião, seu cardiologista o alertou para a necessidade de cortar em definitivo o cigarro – Ubaldo fumou a vida inteira.

Ele chegou a reduzir a quantidade de cigarros, mas não parou. A causa da morte foi embolia pulmonar.

Membro da Academia Brasileira de Letras, em que ocupava a cadeira 34, Ubaldo era colunista do Estado e de O Globo. Além de Viva o Povo Brasileiro, o escritor se notabilizou por clássicos como Sargento Getúlio e O Sorriso do Lagarto.

Baiano que passou a infância e adolescência na Ilha de Itaparica, cenário de alguns de seus principais trabalhos e tema constante em suas colunas dominicais, Ribeiro vivia no Rio, entre idas e vindas, desde os anos 70 do século passado. Ele deixa quatro filhos.

Luto. O presidente da Academia Brasileira de Letras, Geraldo Holanda Cavalcanti, determinou o cumprimento de luto por três dias pela morte do acadêmico. A bandeira da ABL ficará hasteada a meio mastro. “É uma grande perda para a Academia, para o romance e o jornalismo nacionais. João Ubaldo Ribeiro deixa uma obra de excelência. Estamos todos muito chocados com a notícia”, afirmou.

O acadêmico Domício Proença Filho disse que a família de João Ubaldo Ribeiro aguardará a chegada da filha dele, Manuela, que mora na Alemanha, para realizar o enterro do escritor. A chegada dela está prevista para as 5h deste sábado.

Proença contou que Ubaldo não frequentava ativamente a Academia. “Quando vinha, era uma alegria, uma festa. Vamos sentir muita saudade daquela voz de barítono”, brincou.

“Ubaldo era um erudito. Tinha uma preocupação muito grande com a justiça social e a realidade do Brasil. Era um escritor voltado para a preocupação com a língua portuguesa do Brasil. Mostrava o que nós somos e como falamos. Todos os seus personagens devem estar se sentindo órfãos hoje”, disse.

Encontro. O letrista Abel Silva contou ter estado no último domingo com João Ubaldo Ribeiro no bar “Tio Sam”, no Leblon, onde o imortal da ABL assistiu à final da Copa do Mundo, torcendo pela Alemanha. “Ele tinha um neto alemão, filho do Bento Ribeiro. No domingo, brincou muito sobre como o neto chorava em português e alemão, estava muito bem e feliz”, contou Abel.

“Toda vez que eu chegava no ‘Tio Sam’, ele dizia: ‘Vou fazer uma coisa que ele (Abel) detesta’, e começava a cantar: ‘Só uma palavra me devora...’. ‘Ele é o autor disso’, dizia, apontando para mim. E eu dizia para ele que não detestava, claro, adorava tudo que vinha desse meu grande amigo”, contou o letrista. “Perdemos um extraordinário brasileiro. Algumas pessoas são insubstituíveis, sim. João Ubaldo era uma delas.”

Para Abel Silva, não há mais nenhum escritor como João Ubaldo Ribeiro no Brasil. “Ele vem de uma linhagem de escritores brasileiros ligados à tradição e ao conhecimento da fala e da mitologia popular. Herança popular acrescentada de uma cultura sofisticadíssima de um tradutor de Shakespeare, profundo conhecedor da literatura brasileira. E, com tudo isso, era também muito modesto. Era poliglota e jamais o vi usar expressões em inglês ou alemão, por exemplo, línguas nas quais era fluente."

“Foi uma das melhores pessoas que conheci na vida”, disse o letrista. “João Ubaldo integrava a famosa turma da Cobal do Leblon, num botequim que se chamava Arataca, que ficou conhecido como o local do Tom Jobim. Mas o João Ubaldo também fazia parte daquela confraria. Seus causos, a alegria e inteligência dele, tudo aparecia muito claramente, o tempo todo.”

Para Abel Silva, João Ubaldo Ribeiro era um “brasileiro absoluto, inclusive na aparência. Ele dizia que a cara dele era errada em todo lugar que ia. Fosse para os EUA, parecia árabe; fosse para a Palestina, parecia brasileiro”.

(Colaborou Clarissa Thomé).

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