João Ubaldo recebe homenagem de seu bar preferido, no Leblon

Local servia de ponto de encontro e muitas vezes foi motivo de inspiração para suas crônicas

Thaise Constancio, Tiago Rogero, Rio - O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2014 | 16h18

Ninguém ocupa a mesa próxima à varanda. Um copo vazio foi deixado sobre o móvel. Assim, João Ubaldo Ribeiro foi homenageado pelos donos do restaurante Tio Sam (Leblon, zona sul), frequentado pelo escritor há 20 anos. A mesa de João Ubaldo ficou reservada por todo o dia.

Segundo a gerente Cristiane Esteves, de 35 anos, João Ubaldo costumava ir lá aos “sábados, domingos e feriados”. Chegava por volta das 11h e ia embora entre 14h e 15h. “Estava sempre cercado de amigos.” O acadêmico bebia chope em tulipa e comia camarão ao Tio Sam, com pequenas alterações: pedia que o fruto do mar fosse cozido “no bafo”, em vez do empanado tradicional, e o arroz à grega viesse sem passas.

João Ubaldo costumava encontrar com amigos que já frequentavam o bar e recebia os que não eram habitués, como se o Tio Sam fosse a extensão da casa. Também cumprimentava admiradores que o abordavam, sempre simpático.

No último domingo, assistiu à final da Copa do Mundo no bar com a atriz Maria Zilda Bethlem e o poeta e letrista Abel Silva. Informado pelo Estado da morte do amigo, Abel mostrou-se, inicialmente, incrédulo. Depois de um tempo em silêncio, contou que João Ubaldo torceu pela Alemanha contra a Argentina.

“Ele tinha um neto alemão, filho do Bento. No domingo, brincou muito sobre como o neto chorava em português e alemão, estava muito bem e feliz", relembrou Abel.

“Toda vez que eu chegava no Tio Sam, ele dizia: 'Vou fazer uma coisa que ele (Abel) detesta', e começava a cantar: 'Só uma palavra me devora...'. 'Ele é o autor disso', dizia, apontando para mim”, falou Abel, referindo-se a trecho da canção Jura Secreta, sucesso em parceria com Sueli Costa, interpretada por Fagner e Simone, entre outros cantores. Abel nega que não gostasse que João Ubaldo cantasse a canção. “Dizia para ele que não detestava, claro, adorava tudo que vinha desse meu grande amigo. Perdemos um extraordinário brasileiro. Algumas pessoas são insubstituíveis, sim. João Ubaldo era uma delas." Para Abel Silva, não há no Brasil mais nenhum autor como João Ubaldo Ribeiro. “Ele vem de uma linhagem de escritores brasileiros ligados à tradição e ao conhecimento da fala e da mitologia popular. Herança popular acrescentada de uma cultura sofisticadíssima de um tradutor de Shakespeare, profundo conhecedor da literatura brasileira. Era também muito modesto. Era poliglota e jamais o vi usar expressões em inglês ou alemão, por exemplo, línguas nas quais era fluente. Foi uma das melhores pessoas que conheci na vida", disse.

Abel disse considerar João Ubaldo um “brasileiro absoluto, inclusive na aparência”, pois “dizia que a cara dele era errada em todo lugar que ia. Fosse para os EUA, parecia árabe. Fosse para a Palestina, parecia brasileiro".

No carnaval passado, o bloco Areia, que se concentra na Rua Dias Ferreira (endereço do Tio Sam), homenageou o escritor e os amigos. O desenho oficial do bloco mostra o comandante Schutt, outro frequentador assíduo, e João Ubaldo à mesa, servidos pelo dono do bar, Francisco Esteves. “Ubaldo, o João do Leblon”, diz a inscrição no cartaz. “Ele era bem próximo. Meu pai chegou a ir à Bahia visitá-lo quando esteve internado", afirmou Cristiane.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.