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João das ruas

Era, de certo modo, mais moderno que os próprios modernistas

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2021 | 03h00

“Você é minha última esperança”, disse Odylo Costa, filho, me olhando com ar confiante, na redação da revista O Cruzeiro, que então comandava. “Você leu Gilberto Amado?”, perguntou. “Não”, respondi. E lá se foi o doce Odylo a resmungar sua decepção por não ter encontrado um escasso leitor de Gilberto Amado entre os seus pupilos. 

Já naquela época, nenhum jovem com os mesmos meus 21 anos, à exceção bastante provável de José Guilherme Merquior, havia lido ou se interessava pela literatura daquele que eu conhecia, acima de tudo ou quase que exclusivamente, como o pai diplomata da atriz Vera Clouzot, casada com o cineasta francês Georges Clouzot. 

Ademais, convenceram-me de que ele era um chato e danado de prosa. Mas dois outros fatores foram igualmente determinantes para me resguardar dele e suas prosas: Amado matara com uma pistola o poeta Aníbal Teófilo e descrevera de forma grosseira a mãe de seu confrade na Academia Brasileira de Letras, Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio

O assassinato, ocorrido à saída de uma tertúlia literária, no centro do Rio de Janeiro, vale bem uma crônica exclusiva, que pode ficar para ocasião mais apropriada, pois hoje meu personagem é justamente aquele cuja mãe, dona Florência Barreto, Amado descreveu nestes termos: “Morenona refolhuda e penigenta, alegre e vivedora, de um egocentrismo de atriz”. 

Porque faz 100 anos na próxima quarta-feira que o jornalista e escritor Paulo Barreto morreu, tirando de cena a figura ímpar de João do Rio, cronista maior da belle époque carioca, o Oscar Wilde caboclo, habitué encasacado dos saraus mais elegantes da cidade e conhecedor intimíssimo de suas ruas e sua gente.

Gilberto Amado, morto em 1969, é ainda menos lido hoje do que 60 anos atrás, ao contrário de João do Rio, cujo fundamental A Alma Encantadora das Ruas, caleidoscópica coletânea de crônicas publicadas na Gazeta de Notícias, no início do século passado, nunca saiu de catálogo. 

Gordo, mulato, homossexual, dândi, epicurista, comilão e flâneur da mítica Rua do Ouvidor, frequentador e observador diário dos bares, livrarias e redações que nela se concentravam, Barreto teve mais de um heterônimo. Foi também Joe, José Antonio José, X. Claude e Máscara Negra, todos aplicados na produção de textos vivos, eruditos e, coerentemente, pernósticos. 

O pândego filho de dona Florência brilhou na imprensa diária, semanal e mensal como cronista, repórter, crítico, editorialista, ensaísta e sociólogo amador. Era, de certo modo, mais moderno que os próprios modernistas, de cuja Semana, em 1922, não pôde participar. 

O cinema mal chegara ao País e ele já tinha uma coluna intitulada Cinematographo. As primeiras lutas de nossas feministas contaram de pronto com sua entusiástica solidariedade. Vítima de preconceitos, precisou insistir duas vezes para ser aceito na Academia Brasileira de Letras, mas o Barão do Rio Branco barrou sua entrada na vida diplomática, por não considerá-lo fisicamente digno da carrière. 

Seu prestígio como cronista e conferencista alcançou Portugal, onde também lhe reconheceram o pioneiro esforço por valorizar os aspectos humanos e sociais da vida urbana. Ele deu visibilidade à miséria dos anônimos e voz “às queixas dos infelizes”, lutou contra a exploração de menores pelos falsos mendigos que infestavam a capital da República.

Com o pseudônimo Joe assinou a melhor cobertura da inauguração do Teatro Municipal, em 1909. Em linguagem literária, pontuada de alusões históricas e literárias, nada escapou ao seu olhar deslumbrado, jubiloso e fotográfico. Do intenso movimento de veículos e cocheiros à entrada do teatro à cerimônia em si (Hino Nacional, discurso de Olavo Bilac, um poema sinfônico de Francisco Braga e Escragnole Doria, uma peça em um ato de Coelho Neto, uma ópera lírica, também em um ato, de Delgado de Carvalho), com preciosas descrições do opulento interior da casa e dos solenes convivas presentes à grande noite. Era o repórter certo, no lugar certo, na hora certa – e com o estilo certo. 

Na noite de 23 de junho de 1923, Paulo Barreto tomou um táxi na porta de seu jornal, A Pátria, no largo da Carioca, e rumou para Ipanema, onde morava. Não se sentia bem e piorou ao passar pelo Catete, onde pediu que o taxista parasse e lhe providenciasse um copo d’água. Ao voltar com a água, o taxista o encontrou morto – fulminado por um derrame. Para quem tanto se orgulhava de viver na rua, morrer nela foi uma abençoada fatalidade.

O poeta americano Robert Lowell também morreria dentro de um táxi 58 anos mais tarde, mas ele não desfrutava em Nova York da mesma popularidade que João do Rio alcançara em sua cidade. Antes da meia-noite, boa parte da população carioca já sabia da morte do jornalista. Na manhã seguinte, a notícia foi manchete de todos os jornais. 

O enterro, três dias depois, um domingo, atraiu em torno de 100 mil pessoas, num cortejo que lotou todo o trajeto que liga o centro do Rio ao cemitério de São João Batista, em Botafogo. Divulgou-se, na época, que fora o mais concorrido funeral da cidade desde o do Barão do Rio Branco, nove anos antes. O barão fizera muita coisa e tinha 66 anos. João do Rio tinha apenas 39 e ainda muita coisa por fazer. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

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