Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

João Carlos Marinho, o gênio dos livros

João Carlos Marinho, autor de 'O Gênio do Crime', que morreu aos 83 anos, não subestimava os jovens e, ao mesmo tempo, nunca deixou de primar pela diversão

Marcos Peres, Especial para O Estado de S. Paulo

19 de março de 2019 | 18h36

Que os colégios priorizem a decoreba de afluentes do Volga e fórmulas químicas à formação do leitor de ficção, não há dúvidas. Também, pouco se questiona que as leituras, ainda infantis, sofram um baque com o ingresso do estudante no ensino médio; e de repente se tornem “crivo de avaliação” para o ingresso do aluno em uma Instituição de Ensino Superior. 

Entre as fábulas infantis e os “romances sérios” nascidos aos borbotões no Ensino Médio, há um deserto agreste e assassino de futuros leitores. De um dia para o outro, jovens acostumados com corvos falantes e lições de moral são levados para o centro do cânone literário brasileiro. O Cabo Alencar e seu arsenal romântico foram, sem dúvida, causa de uma chacina imensa na minha turma de ensino médio. Fórmulas mnemônicas, naquele momento, deram conta de explicar mapas, dinastias e regras de crase, mas incapazes de trazer para os dias atuais um livro como A Pata da Gazela. Aos quinze anos tudo é imortal, diz o Casmurro, relembrando o Bentinho jovem. O recurso de Machado pressupõe que o leitor, ao se deparar com o excerto, imagine-se em seu passado, junto as promessas quiméricas desta idade. Ao lado do personagem que relembra a juventude, há o autor piscando um olho e dizendo, cúmplice, que a experiência e as lembranças da adolescência constituem-se elementos imprescindíveis para compreender a sina de Bento e Capitu.  

Lembro-me de ter pensado o seguinte, à época: “Como vou saber se é imortal se eu também tenho quinze anos?”  

Tal discussão não é nova, muito já se disse sobre a delicada missão de ensinar literatura para jovens (sem que isso seja uma experiência tão traumática quanto a participação na linha de frente de uma Guerra). Apenas quero deixar consignado aqui um lufo de ar fresco nesta travessia: João Carlos Marinho

No meio de um balaio de livros antiquados, ou exageradamente fofos, ou chatos, lembro-me de ter que ler O Gênio do Crime para o colégio. Os personagens, logo no início da trama, são envoltos por um enigma de falsificação de figurinhas, e o enredo se torna um thriller eletrizante, até as últimas páginas. A trajetória do livro fala por si só: publicado em 1969, um milhão de exemplares vendidos, mais de 60 edições, foi traduzido para o espanhol e contou com uma adaptação cinematográfica em 1973. Edmundo, Pituca, o Gordo e a inigualável Berenice, com o tempo, vão fazendo amigos e desvendando enigmas com mestria. Em Sangue Fresco (prêmio Jabuti), perdem-se na Amazônia e, em Berenice detetive (prêmio Mercedes Benz), protagonizam um noir digno de um Chandler ou de um Hammet.

Se há algo louvável em João Carlos Marinho (e, puxa, há tantas coisas), é o fato de nunca desdenhar da inteligência de seus leitores. Lembro-me da alegria, quase detetivesca, ao descobrir que a Berenice, com sua cabeleira bela, fazia referência a uma constelação; e que o assecla criminoso Atlas guardava referência a um personagem da mitologia grega. Em seus livros, momentos quase infantis, divertidíssimos, como o que Gordo voa após ser apertado por uma sucuri, convivem com trechos de requintado mistério – como na cena em que uma triste autora morre após comer uma maçã envenenada. Marinho não subestimava os jovens. E, ao mesmo tempo, nunca deixou de primar pela diversão, pela prática de contagiar através de seus enredos e personagens – uma lição que nunca deveria ser esquecida por quem deseja contar histórias: saber que diversão e inteligência podem andar juntas. 

Há uma frase do jurista Calmon de Passos, que sempre me relembra da importância da Tradição, como manancial da criação: “Os gigantes de ontem só nos são úteis se permitirem que, subindo em seus ombros, possamos ver além do que foram capazes de vislumbrar. Assim fazendo, nem os traímos nem os esquecemos, antes permitimos que sobrevivam conosco com alicerces sobre que assentamos nosso mirante mais elevado”. Gostaria muito de poder usá-la com Marinho; de abraçá-lo e dizer que foi responsável, não só por parcela do amor que tenho aos livros, mas pela formação de muitos leitores (e, consequentemente, de alguns autores). Infelizmente, não pude abraçá-lo. Também não pude subir em seu ombro e alçar voos mais altos – mas este fato não digo com pesar. Há gigantes que subimos no ombro, e há gigantes que existem para ser adorados. E, no caso, Marinho não é apenas um gigante. Marinho, e toda a sua turma, viverão na imortalidade do imaginário de seus muitos leitores. 

Marinho é um verdadeiro gênio. 

O escritor João Carlos Marinho morreu no domingo, 17, aos 83 anos.

* Marcos Peres é autor dos romances O evangelho segundo Hitler (Prêmios SESC e São Paulo de Literatura) e Que fim levou Juliana Klein?

    

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