Jhumpa Lahiri tenta enterrar as dores do passado em 'Aguapés'

No romance que a escritora britânica lança na Flip, família ignora trauma sofrido para tentar seguir vivendo

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2014 | 23h30

Qualquer detalhe a mais que se conte sobre o enredo de Aguapés, romance de Jhumpa Lahiri que está chegando às livrarias, e a experiência do leitor estará ameaçada. E a graça do livro é descobrir, aos poucos, as reviravoltas na vida dos personagens – os fatos, os momentos, as decisões que os marcarão para sempre e que terão reflexo nas gerações futuras. 

Pode-se, porém, dizer que a história se passa entre a claustrofóbica Calcutá, mais especificamente entre um bairro pobre com uma baixada que alaga depois da monção, e a paisagem costeira de Rhode Island, nos Estados Unidos, num período que se inicia nos anos 1940 e vai até os dias atuais. Aguapés é um livro sobre o amor fraternal entre Subhash e Udayan, nascidos com 15 meses de diferença numa Índia independente, sendo um a extensão do outro e melhores amigos até a juventude. O afastamento começou quando eles escolheram faculdades diferentes e passaram a conviver com outras pessoas. 

Em certo momento, Udayan, o caçula destemido, resolve se engajar no movimento naxalista após ouvir, horrorizado, as notícias da revolta dos camponeses de Naxalbari, uma aldeia do distrito de Darjeeling que vivia numa espécie de sistema feudal, e que culminou com o assassinato, pela polícia, de 11 trabalhadores (8 eram mulheres). Entre seus companheiros de luta – muitos morreriam vítimas da repressão – estavam simpatizantes de Mao, Che e Fidel.

Subhash, o mais tímido e apagadinho, até acompanhou o irmão no início de militância, mas resolveu que não viveria mais à sombra de Udayan e que faria, ao menos, uma coisa sozinho – deixou, então, a família e ingressou no doutorado fora do país, caminho de tantos jovens bem formados e sem perspectiva de emprego em seus países de origem – o caso dos dois garotos.

A escolha política de Udayan e suas consequências seriam sentidas e remoídas para sempre pelos pais, pelo irmão, por Gauri, com quem ele se casa contra a vontade da família, e pela filha que nunca conheceu. O que se seguirá a isso será uma história familiar de abismos e falta de comunicação, de maternidade e paternidade, de violência física e emocional, de ciúmes, segredos, abandono, deslocamento e exílio em todos os seus sentidos. Uma história de amor. 

Aguapés é o quarto livro da escritora que nasceu na Inglaterra, foi criada nos Estados Unidos a partir dos 2 anos e que tem raízes indianas – seus pais são nascidos lá. Mas é como se fosse o primeiro, ela conta, de Roma, onde vive há 3 anos, em entrevista por telefone, na última terça-feira. No fundo, o som das buzinas e cornetas e de seu filho insistindo para que ela fosse ver o jogo da Itália na Copa do Mundo – o time do novo país da família, que virá para a Festa Literária Internacional de Paraty (30/7 a 3/8), seria desclassificado 90 minutos depois. 

“Essa história foi a primeira que concebi como um livro, mas, quando comecei a escrevê-la, vi como eu era extremamente inexperiente, sem ferramentas e perspectiva”, diz a autora nascida em 1967, ano do massacre da aldeia dos camponeses – crime que rondava as conversas que ouvia quando criança. “As pessoas comentavam a situação de Calcutá e, mesmo quando eu ia para lá nos anos 1970, o assunto ainda era muito presente. Até que eu fiquei sabendo de algo terrível que tinha acontecido perto de onde meus avós viviam: alguns garotos foram executados na frente de suas famílias. Foi aí que pensei no livro.”

Ela voltou a Calcutá uma vez durante o processo de pesquisa para conversar com os moradores. Completou o trabalho com os relatos dos familiares, com livros e filmes. Foram 16 anos entre o estalo da ideia e o lançamento da obra. Nesse meio tempo, publicou a coletânea de contos Intérprete de Males, que lhe rendeu o Pulitzer, o romance O Xará – os dois serão relançados em julho pela Biblioteca Azul, da Globo – e Terra Descansada, que está no catálogo da Companhia das Letras. O tempo de escrita de Aguapés, no entanto, durou cerca de cinco anos, recorda.

O tempo, aliás, é personagem importante deste novo romance. Acompanhamos a vida – e, em alguns casos, a sobrevida – da família durante sete décadas. Além disso, Gauri dedica-se à filosofia, e a noção de tempo na obra de vários pensadores como Platão, Descartes, Santo Agostinho e Einstein aparece aqui e ali quando o narrador nos conta sobre ela. E, no fim, o que os personagens querem é que o tempo cure suas dores. “Mas ele não cura ninguém. Se perdemos alguém, é muito difícil suportar os anos que nos restam na Terra. No entanto, continuamos vivos. Para os personagens, o tempo aparece como uma chance de revisitar o que aconteceu em diferentes níveis”, comenta a autora. E completa: “Há alguns traumas na vida que o tempo não cura, mas tem um outro elemento, o amor, que pode tornar a dor mais suportável apesar de ela nunca passar”.

Outra questão na obra de Jhumpa Lahiri é o abismo entre os personagens e a inabilidade de se conectarem, se entenderem e se comunicarem plenamente. “Neste livro, pela seriedade dos fatos, da desonestidade e do segredo, essa inabilidade é exacerbada”, comenta. 

O fato de trazer a terra de seus pais para sua ficção não é, acredita, um acerto de contas com esse país abandonado por eles, onde ela nunca viveu e que, no entanto, lhe é tão familiar. “Minha infância foi rodeada pela expectativa de voltar para lá e pela frustração de não estar lá. Era uma sombra em nossas vidas e acredito que esses meus quatro livros saíram dessa sensação.” Os cheiros, os sons, a atmosfera que ela reproduz em sua obra são resgatados das lembranças das idas à Índia – muito frequentes quando ela era pequena. Mas Jhumpa sente que esse tema do indiano imigrante e dos contrastes culturais está chegando ao fim. “Ainda nos Estados Unidos, eu achava que Aguapés seria meu último livro com essa temática e estar na Itália tornou mais clara a minha relação com esses dois países. Achei que minha vida toda era um estado de tensão entre essas duas nações. Não sabia se seria leal a uma ou a outra e nem como isso se manifestaria em mim como pessoa e como escritora. Estar em um terceiro país, onde não esperam que eu me encaixe, como sempre aconteceu nos Estados Unidos, ou o país do qual esperam que eu me lembre e que deseje, no caso, a Índia, é bom. Aqui posso apenas ser uma estrangeira, e é muito simples.” 

E, ainda assim, ela não está em casa. “Acredito que todo o meu trabalho venha dessa frustração de não ter um lugar para chamar de casa, mas sinto que, com o tempo, resolvi isso criando uma espécie de lugar mental. Se estou com a minha família, meus amigos, meus livros ou escrevendo, estou em casa. Eu me sinto bem em Roma e poderia viver aqui para sempre. Tenho uma grande afinidade com a cidade, mas, ainda assim, serei sempre estrangeira. Não tenho a ilusão de chegar a um lugar e ninguém me perguntar de onde eu venho.”

Jhumpa não sabe explicar por que escolheu a Itália. Conta que quis, sem motivo, estudar a língua e, de repente, sentiu a necessidade de deixar para trás o que lhe era familiar e viver lá – uma mudança que seria importante também para os filhos, de 9 e 12 anos. “Eu achava que eles, nascidos e criados em Nova York, precisavam entender o significado de ser estrangeiro.”

AGUAPÉS

Autora: Jhumpa Lahiri

Tradução: Denise Bottmann

Editora: Biblioteca Azul (440 págs., R$ 44,90; R$ 31,40 o e-book)

LEIA TRECHO DE AGUAPÉS, DE JHUMPA LAHIRI:

"A leste do Tolly Club, depois que a Deshapran Sashmal Road se divide em duas, há uma pequena mesquita. Passando a curva, chega-se a um enclave tranquilo. Um aglomerado de ruas estreitas e casas, na maioria, de classe média.

Antigamente, neste enclave, havia dois lagos, ovais, um ao lado do outro. Além deles, ficava uma baixada ocupando alguns acres. Depois da monção, a água dos lagos subia e o aterro entre eles sumia de vista. A chuva também alagava a baixada, um metro, um metro e pouco de altura, e a água continuava ali uma parte do ano. A planície inundada ficava coberta de aguapés. A vegetação flutuante crescia desenfreada. Por causa das folhas, parecia uma superfície sólida. Verde contrastando com o azul do céu. Em volta distribuíam-se casebres simples, espalhados aqui e ali. Os pobres entravam na água para catar o que desse para comer. No outono chegavam as garças, penas brancas encardidas pela fuligem da cidade, imóveis no aguardo da presa.

No clima úmido de Calcutá, a evaporação demorava. Mas por fim o sol secava boa parte da água da enchente, expondo outra vez o solo enlameado.

Quantas e quantas vezes Subhash e Udayan tinham atravessado a baixada. Servia de atalho para um campo nos arrabaldes do bairro, onde iam jogar futebol. Evitando as poças, passando por cima dos aguapés entrançados que continuavam ali. Respirando o ar úmido e pesado.

(...)

Quando atingiram idade suficiente, quando tiveram permissão de sair de casa, receberam a recomendação de não se perderem de vista. Juntos desciam pelas ruas sinuosas do enclave, passavam os lagos e atravessavam a baixada, até o campinho onde às vezes se encontravam com outros meninos. Iam até a mesquita na esquina, sentando-se no mármore frio dos degraus, às vezes ouvindo uma partida de futebol no rádio de alguém, e o vigia da mesquita nunca se importava.

Mais tarde tiveram permissão de sair do enclave e entrar na cidade. De andar aonde os pés os levassem, a tomar bonde e ônibus sozinhos. A mesquita na esquina, local de culto para os que tinham uma religião à parte, continuava a ser o ponto de referência de suas andanças diárias.

(...)

Apesar de suas diferenças, os dois sempre se fundiam e assim, quando chamavam o nome de um, os dois respondiam. E às vezes era difícil saber quem havia respondido, pois as vozes eram praticamente iguais. Sentados na frente do tabuleiro de xadrez, pareciam imagens no espelho: uma perna dobrada, a outra esticada, o queixo apoiado no joelho.

Eram muito parecidos fisicamente, podendo usar as mesmas roupas. A cor da pele, de um leve acobreado que puxaram aos pais, era idêntica. Os dedos flexíveis, os traços definidos, o cabelo ondulado. 

Subhash se perguntava se seus pais viam seu temperamento pacato como falta de criatividade, talvez até como defeito. Seus pais não precisavam se preocupar com ele, mas nem por isso era o preferido. Tomou como missão obedecê-los, já que surpreendê-los ou impressioná-los não era possível. Isso quem fazia era Udayan."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.