Jhumpa Lahiri fala sobre o ofício da escrita e identidade na Flip, mas não empolga

Um dos principais nomes da literatura contemporânea, escritora de origem indiana criada nos EUA falou sobre Aguapés, delicado romance que lança agora no País

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2014 | 22h12

A tenda dos autores ficou lotada para o encontro com a escritora Jhumpa Lahiri, que tinha tudo para ser a principal mesa voltada apenas à literatura desta edição da Festa Literária Internacional de Paraty - mas não foi. Filha de indianos, nascida em Londres, criada nos Estados Unidos e vivendo há dois anos na Itália, a autora é uma figura interessante, um dos principais nomes da literatura contemporânea de língua inglesa e vencedora do Ccom seu livro de estreia, Intérprete de Males. Ela está no País para o lançamento de Aguapés (Globo), um romance bonito e delicado sobre o qual é difícil falar sem contar detalhes da história e estragar o prazer o leitor. E ouvir sobre um livro que não se conhece pode ter contribuído para que parte da plateia começasse a deixar a tenda.

Aguapés se passa entre a Índia e os Estados Unidos e acompanha a trajetória de uma família por décadas e décadas. É, sobretudo, a história de amor – fraternal - entre dois irmãos, que envolve amizade, cumplicidade, segredos e culpas. A ideia de escrevê-lo surgiu quando ela soube que garotos foram mortos a sangue frio na frente de seus familiares e na região em que seu pai cresceu. “Existe um pano de fundo político, mas Aguapés não é um livro político. É sobre família, e, mais especificamente, sobre uma família atingida por um ato político”, disse a autora. Esse pano de fundo é a revolta Naxalbari, nascida em apoio a camponeses mortos e que mobilizou jovens de esquerda a lutarem por seus ideais.

Dosar os fatos históricos neste romance sobre deslocamento, buscas e tentativas de se conectar com o outro foi um dos desafios de Jhumpa Lahiri. “Dar detalhes suficientes para o leitor entender, mas não muitos para não aborrecê-lo foi um balanço delicado”, contou a autora que demorou cerca de 10 anos no processo de escrita – enquanto não ia para frente, lançou outras duas obras. Este é, ela disse, seu livro menos autobiográfico. “Mas acho que tenho que colocar parte de mim em cada um dos meus personagens. Mesmo que esteja pensando em alguém para criar o personagem, isso é mediado por mim”, disse.

Entre as questões tratadas em toda a sua obra até agora está a identidade. “Isso continua me interessando, mas agora olho para tudo de um outro ponto de vista. Estou interessada numa abordagem mais abstrata, em escrever uma história que poderia se passar em nenhum lugar específico. Meu trabalho está caminhando para essa direção”, adiantou, e contou que começou a criar em italiano e que sentiu a mesma liberdade experimentada na infância, quando aprendeu a escrever.

Apesar de algumas pessoas terem saído durante sua fala, a fila de autógrafos foi longa.

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