Danilo Galvão | Fliporto © Danilo Galvão 2015
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Javier Cercas lança livro 'O Impostor', uma história da mentira universal de todos

Escritor espanhol lançou o trabalho na Fliporto, em Olinda, sobre uma farsa histórica inacreditável

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2015 | 05h00

OLINDA - Enric Marco Battle, um catalão nascido em 1921, era, na virada do século 21, presidente da principal associação espanhola que reunia deportados para os campos de concentração de nazistas durante a Segunda Guerra. Dava entrevistas regularmente, viajava o país fazendo palestras em escolas, e, no início de 2005, tomou a tribuna do Parlamento espanhol e proferiu um discurso que arrancou lágrimas da plateia. Anos antes, no decorrer da transição democrática na Espanha (segunda metade dos anos 1970), ascendeu na hierarquia de uma das principais centrais sindicais do país, invocando seu passado antifranquista e de combatente republicano na Guerra Civil (1936-39) e chegou a ocupar o posto de secretário-geral da entidade na Espanha.

O problema é que tudo – bem, quase tudo – era mentira.

É uma equação com esses elementos que monta o escritor Javier Cercas no livro O Impostor, publicado pela Editora Biblioteca Azul, que o espanhol veio lançar na 11.ª edição da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), em Olinda.

“Enric Marco é um grande gênio da mentira”, diz Cercas ao Estado, em um encontro numa pousada de Olinda, no domingo, dia 15. O impostor foi descoberto em 2005 pelo historiador madrilenho Benito Bermejo, que apontou inconsistências em seus relatos.

No livro, que Cercas define como um “romance sem ficção ou um relato real”, o escritor busca entender os motivos que levaram esse homem a mentir tão compulsivamente sobre o próprio passado – e acaba descobrindo, na verdade, uma metáfora poderosa, em primeiro lugar sobre a Espanha, que, como todos os países, tem sérias dificuldades em encarar o passado de frente, bem como sobre todo mundo, porque, acredita, em algum grau estamos sempre em contato com a mentira.

“A literatura é uma espécie de hipérbole do que realmente somos”, compara Cercas. “Macbeth é uma hipérbole monstruosa da ambição, Hamlet é da autoconsciência, Romeu e Julieta do amor romântico. Por intermédio delas, Shakespeare mostra como é o ser humano. Enric Marco é uma hipérbole da impostura, da mentira. É porque temos ambição, autoconsciência e amor romântico que aquelas obras nos fascinam e nos identificamos com elas, da mesma forma que nos identificamos com Marco.”

O romance usa duas frentes para refletir sobre o tema: uma delas é a própria história de Marco, que é incrível (“eu não precisava criar nada porque seria redundante”, costuma dizer Cercas), e a outra são as reflexões do escritor sobre o seu direito moral de escrever o livro, sobre a relação entre passado e presente e sobre a falsidade de todas as coisas. Se ele encontrou suas respostas?

“Os livros que respondem às perguntas são ruins”, afirma.

Discípulo de Cervantes e do Quixote e amigo de Roberto Bolaño, Cercas usa a literatura para propor uma reflexão importante sobre o passado da Espanha – e por conseguinte, dos países do mundo ocidental – e sua relação com o presente. Uma frase que empresta de Faulkner se repete em O Impostor: “O passado é uma dimensão do presente”. A questão de sermos todos incapazes de olhar frente a frente a própria história, diz Cercas, é uma questão de todos os países.

“Alguns fazem melhor, como os alemães, à força, mas cada caso é distinto. Na Espanha, a ditadura durou 40 anos. Os culpados já estão mortos. A maioria se conformou com o franquismo.” Ele explica que, no início do século 21, houve uma “explosão” da memória histórica – em que Enric Marco apareceu com mais evidência – e poderiam haver reparações importantes, desde derrubar monumentos do fascismo até compensar moralmente as famílias dos exilados e deportados. “Porém, se criou ali uma indústria da memória. Ainda não há reparação.”

*O repórter viajou a convite da Fliporto

O IMPOSTOR

Autor: Javier Cercas

Trad.: Bernardo Ajzenberg

Editora:  Biblioteca Azul (464 págs., R$ 49,90)

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