AP Photo/Matt Dunham
AP Photo/Matt Dunham

Irlandês John Banville lança 'Sudário'

Obra mostra como os homens ficam enredados em suas próprias mentiras

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

28 Março 2015 | 03h00

O escritor irlandês John Banville sempre pregou a frieza e a impessoalidade como valores artísticos. Ex-crítico e subeditor do jornal Irish Times, sua meta é escrever uma ficção tão densa quanto a poesia, o que resulta em textos refinados, pontuados por expressões pouco usuais. Foi assim em O Mar, seu romance mais cultuado (e que lhe rendeu o Man Booker Prize de 2005) e Sudário que, embora publicado em 2002, sai agora no Brasil.

Trata-se do segundo volume de uma trilogia, iniciada com Eclipse e finalizada com Luz Antiga, ambas já publicadas no País. Em todos, a trama gira ao redor dos mesmos personagens, alternando apenas o protagonismo. Acadêmico internacionalmente reconhecido, Axel Vander recebe certo dia a carta de uma jovem interessada em sua obra. Os dois marcam um encontro em Turim e Vander não esconde seu nervosismo, pois a pesquisadora, Catherine Cleave, pode ter descoberto que ele não passa de um impostor.

Ela é filha do ator Alexander Cleave, protagonista de Eclipse. Cass, como é chamada, sofre de uma anomalia semelhante à esquizofrenia, pois ouve vozes e é uma obstinada na pesquisa acadêmica, a ponto de, durante o trabalho, descobrir algo sobre Vander. Mesmo assim, quando o encontra em Turim, não o coloca contra a parede – ao contrário, inicia um relacionamento.

A trama soa rocambolesca, mas a escrita de Banville torna o enredo em algo especial. Também as referências são uma oferta à parte – Banville se inspirou na história real do teórico literário Paul de Man (1919-1983). Aclamado mundialmente, ele teve uma queda no prestígio quando se descobriu que, durante a 2.ª Guerra Mundial, escreveu artigos antissemitas para um jornal colaboracionista durante a ocupação alemã na Bélgica.

Ao escrever Sudário, Banville partiu do incidente com De Man e tornou o enredo em algo ainda mais complexo, pois Vander surge como um homem que assumiu a identidade de um amigo que foi morto em circunstâncias inexplicáveis. É dessa forma que, depois do conflito mundial, ele se muda para os Estados Unidos, onde constrói uma carreira afamada. O título do livro joga com identidade: assim como o Santo Sudário é uma peça venerada mas contestada, Vander é um teórico respeitado, mas não passa de um embuste.

Banville também joga com identidade em sua carreira profissional, mas sem a desconfiança de ser um engano: sob o pseudônimo de Benjamin Black, ele desenvolve uma série de romances policiais, todos publicados pela Rocco – o mais recente é Rastros na Neblina. Além de reforçar as cenas de ação, o escritor aposta também no erotismo e, principalmente, em um ponto que lhe torna peculiar: minuciosas descrições da sociedade irlandesa dos anos 1950. Banville respondeu por e-mail às seguintes perguntas.

Faz mais de uma década que Sudário foi originalmente publicado. O que pensa da obra hoje?

É, com certeza, um de meus romances mais sombrios. Em Axel Vander, eu quis criar um personagem o mais antipático possível, que, ainda assim, conseguisse extrair ao menos uma pequena simpatia dos leitores. O livro é também um lamento pela pobre Class Cleave, que, junto com Petra de Os Infinitos, está entre minhas invenções femininas mais tristes. Sudário é certamente um livro difícil, mas não, assim espero, frio.

Axel Vander é um narrador, de certa forma, pouco confiável. Isso complicou o processo de escrever o romance?

Todos os narradores não são confiáveis. Qual pessoa o(a) conhece suficientemente, ou com suficiente honestidade, para dar um relato confiável de motivos e intenções? Mas sim, Axel é um notório mentiroso e enganador, mas, paradoxalmente, também está sendo tão honesto como pode ser. Assim é a natureza ambígua da arte.

Se escrevesse outro romance sobre estas pessoas, seria centrado em Cass, por exemplo?

Sim, um amigo, o romancista argentino Rodrigo Fresan, insiste comigo o tempo todo para escrever o “livro de Cass”. Mas eu não posso. Cass é um enigma para mim e assim deve continuar a ser. Mas ela está entre as minhas personagens inventadas de quem mais sinto falta.

Por que a verdade em seus romances é sempre elusiva, mas é importante?

É assim na própria vida, não é? Onde a verdade mente – eu me pergunto se a língua portuguesa consegue captar o jogo de palavras aqui? – e como é ser isolado da névoa da incerteza e do autoengano no qual tropeçamos, nós pobres, perdidos, viajantes nesta terra?

Este é um romance sobre ausência e luto, mas também trata da possibilidade de redenção e da dificuldade de julgamento, não?

Bem, concordo. Suponho que Axel está à procura de algum tipo de redenção. Ele fez muitas coisas terríveis em sua vida, e ele próprio duvida que deva ser perdoado por elas. Axel pode não ter se importado como deveria pelos viventes, mas, no fim, está se importando com o agonizante, e talvez isso lhe renda alguma graça dos deuses.

Ficou surpreso de como gostou de ser Benjamin Black?

“Gostar” é uma palavra um tanto forte aqui. Escrever em qualquer forma ou gênero é sempre terrivelmente difícil. Mas, sim, ser Benjamin Black foi uma aventura, sem a qual eu não poderia viver sem ele. Sua mais feliz ousadia foi personificar Raymond Chandler em A Loura de Olhos Negros. Sabe lá em que outra ele vai se meter...

SUDÁRIO

Autor: John Banville

Tradutor: Cássio Arantes Leite

Editora: Biblioteca Azul (296 págs., R$ 39,90) 

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