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Inglês Kevin Jackson escreve a biografia de 1922 no livro 'Constelação de Gênios'

Obra organizada como uma espécie de almanaque mostra como diversas áreas da cultura ganharam novos rumos em 1922

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

04 Janeiro 2015 | 03h00

Ao final de cada ano, é tradicional rememorar os principais fatos ocorridos naquele período. Na área cultural, buscam-se principalmente aqueles eventos que, como uma onda, vão reverberar ao longo das décadas seguintes. É nesse grau de importância que se enquadra o ano de 1922, a tal ponto que o poeta americano Ezra Pound o instituiu como o Ano Um de uma nova era.

Para ele, bastaram apenas dois eventos para tornar aquele conjunto de 365 dias no “annus mirabilis” (ano miraculoso) do modernismo literário: a publicação de Ulisses, de James Joyce (1882-1941), e A Terra Devastada (The Waste Land), de T. S. Elliot (1888-1965 - neste domingo, dia 4, faz 50 anos que ele morreu), respectivamente o romance e o poema de língua inglesa mais influentes do século 20. 

“A proposta de Pound de que, de certa forma, o mundo mudou radicalmente a partir do início de 1922 não era uma insensatez completa”, comenta o filósofo inglês Kevin Jackson. “Foi o que pareceu quando estudiosos das décadas seguintes começaram a revisitar aqueles dias inebriantes e únicos, e a avaliar sua significância duradoura.” 

E continua: “De repente, um irlandês magricela e surrado e um americano garboso e silenciosamente sinistro entram, os dois determinados a explodirem tudo o que a ficção realista e a poesia georgiana mais estimavam”.

Fascinado pela profunda ruptura provocada por tais obras, Jackson passou a investigar o ano de 1922 com uma lupa. Levantou fatos sobre diversas áreas do conhecimento, como política, economia, literatura, cinema, teatro, música, artes visuais. Classificou os dados em ordem cronológica e o resultado é Constelação de Gênios - Uma Biografia do Ano de 1922, cuja versão impressa a Objetiva lança amanhã - a digital já está disponível.

Trata-se de uma espécie de almanaque, dividido em 12 partes (cada mês do ano) que, por sua vez, são formadas por verbetes com os principais fatos históricos, compondo uma espécie de diário. A leitura, portanto, assemelha-se ao hábito de navegar na internet, quando os assuntos são rapidamente trocados. Assim, salta-se com tranquilidade das notícias sobre a morte de Proust e do fim do dadaísmo para a estreia como diretor de Alfred Hitchcock (com Número 13) ou para o início das atividades da rádio britânica BBC.

“1922 foi um ano de primeiras vezes, nascimentos e fundações memoráveis. Um velho mundo estava indo embora.”

Quando publicado na Inglaterra há dois anos, Constelação de Gênios mereceu crítica do também escritor Will Self. “O livro se distancia do senso comum sendo ao mesmo tempo insanamente simples de ler. Na verdade, acho que não é nenhum desserviço a Jackson dizer que este livro é aquilo que o modernismo procurava: um caminho para o seu labirinto simbólico”, observou ele, em texto publicado no The Guardian.

Ulisses e A Terra Devastada tornaram-se, de fato, os ápices da literatura modernista. O primeiro – publicado em uma data palíndroma, 2/2/22 – revolucionou a forma e a estrutura do romance, influenciando decisivamente o desenvolvimento da “corrente da consciência” e impulsionando a linguagem e as experiências linguísticas aos limites da comunicação. 

Já o poema de Elliot, em seus 400 versos, é muitas vezes lido como uma alegoria à desilusão experimentada pela geração pós-guerra. “Ulisses documenta um distanciamento da fé; A Terra Devastada, um desejo passional e atormentado por redenção”, observa Jackson. “Foram os primeiros grandes escritos a avaliar o mundo depois do final da 1ª Guerra Mundial.”

O pesquisador lembra que 1922 foi marcante também pelo lançamento de Sodoma e Gomorra, um dos últimos volumes de Em Busca do Tempo Perdido, monumental obra de Marcel Proust, que morreria em novembro, aos 51 anos, e de Tractatus Logico-Philosophicus, na qual o jovem matemático austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) vislumbrava uma lógica com contradições, diferente da versão ortodoxa – e essa foi uma abertura fundamental para o conceito de “paraconsistência”. 

Veja outros momentos marcantes que tornaram 1922 um ano especial:

Louis Armstrong

Para Jackson, o dia 8 de agosto foi possivelmente o mais importante da história do jazz. Naquela data, o jovem cornetista de 21 anos chegou a Chicago (vindo de Nova Orleans), onde gravaria seus primeiros álbuns e se destacaria como um inovador da música, tornando-se um dos primeiros solistas desse gênero – historiadores atestam que Armstrong era capaz de atingir nada menos que 200 notas mi. Segundo um de seus biógrafos, “dentro de poucos anos, uma geração de músicos de jazz, negros e brancos, construiriam carreiras inteiras sobre o nosso estilo de jazz que Louis começou a forjar em Chicago no final de 1922”.

Alfred Hitchcock

Em março, o jovem inglês virgem e rechonchudo estreou como diretor com uma comédia em curta-metragem, Mrs. Peabody ou Número 13. A falta de financiamento impediu sua conclusão e quase todos os rolos de filme foram destruídos, restando apenas algumas imagens. A experiência, no entanto, forjou um cineasta que se acostumou a respeitar orçamentos e a criar obras geniais.

Alcance do rádio

A capa do Saturday Evening Post de maio trouxe o quadro Casal Idoso Escutando Rádio, de Norman Rockwell. A pintura, que se tornaria uma das mais famosas imagens do artista acerca da vida norte-americana em uma pequena cidade, é indicação de que o rádio havia rapidamente se tornado parte essencial da rotina diária de milhões de pessoas.

Dalí, Buñuel e Lorca

Em setembro, o artista catalão Salvador Dalí, de 18 anos, ingressou na Escola Especial de Pintura, Escultura e Gravura. E, como aluno, teve direito a viver em uma das mais extraordinárias instituições de Madri, a Residencia de Estudiantes, conhecida popularmente como Resi. Foi ali que cultivou amizades apaixonadas com outros dois jovens que se tornariam as figuras mais celebradas da moderna cultura espanhola: o poeta Federico García Lorca e o cineasta Luis Buñuel.

Bauhaus

Em julho, a tradicional escola alemã fundada pelo arquiteto Walter Gropius, em 1919, anunciou a contratação do pintor russo Wassily Kandinsky. Estudo, organização, muito rigor e também aplicação estavam na base do projeto que vinculava arte, indústria e academia. Com isso, a Bauhaus tornou-se a grande escola moderna de arquitetura e design. Outros professores que lá passaram foram Paul Klee e Piet Mondrian. A escola é fechada em 1933, após uma série de perseguições por parte do governo nazista.

Charles Chaplin

Com Dia de Pagamento, lançado em abril, o roteirista, ator e diretor Charles Chaplin se despedia do formato de curta-metragem. Ele já filmara um longa no ano anterior, O Garoto, mas, em 1922, decidiu dar uma virada na carreira, preparando, no final do ano, a produção de Casamento ou Luxo, iniciando uma sequência de clássicos inquestionáveis – Em Busca do Ouro, O Circo, Luzes na Cidade e Tempos Modernos

Walt Disney

No final de julho, Walt Disney lançou sua primeira animação, Chapeuzinho Vermelho. Durava apenas 6 minutos, era em preto e branco e sem som. Um império estava nascendo. 

Dashiell Hammett

A edição de outubro da revista de H. L. Mencken, The Smart Set, publicou um conto bem curto (apenas um parágrafo) intitulado The Parthian Shot (Um Brusco Adeus). Foi o primeiro trabalho publicado de Dashiell Hammett, ex-detetive que logo se tornaria um dos principais escritores de novela policial, assinando obras como O Falcão Maltês, Seara Vermelha e A Chave de Vidro.

Semana de Arte Moderna em SP ganha destaque
A única referência ao Brasil no livro de Kevin Jackson é a Semana de Arte Moderna, que aconteceu em São Paulo entre 11 e 18 de fevereiro, no Teatro Municipal. No texto, Jackson relata as apresentações dos artistas brasileiros e também as vaias, que marcaram muitas apresentações. E, se o compositor Villa-Lobos era o nome mais conhecido fora do Brasil, o talento mais extraordinário era o escritor Mário de Andrade. Jackson afirma que a sequência de poemas que compõem Pauliceia Desvairada, de Andrade, foi chamada de A Terra Devastada da literatura latino-americana, graças às suas “frases poderosas e crípticas, sem métrica ou rima regulares, que parecem enunciadas pelos habitantes de São Paulo ou pela cidade em si”.

CONSTELAÇÃO DE GÊNIOS

Autor: Kevin Jackson

Tradução: Camila Mello

Editora: Objetiva (568 págs.,R$ 59,90; R$ 28,40 o e-book)

Leia trecho da obra:

1º DE JANEIRO

Lausanne — Paris 
T. S. Eliot estava a caminho de Paris vindo de Lausanne. Chegou no dia 2 de janeiro, onde voltou a se encontrar com a esposa, Vivien, e permaneceu por duas semanas. Durante a estada, Ezra Pound apresentou os Eliot a Horace Liveright, o editor americano, e jantaram com James Joyce. Por cerca de dez dias, Pound e Eliot trabalharam lado a lado no manuscrito de A terra devastada. Em meados de janeiro, Eliot voltou a Londres — para seu apartamento no número 9 do prédio Clarence Gate Gardens.

Hollywood 

Logo no começo do expediente, Douglas Fairbanks reuniu todos os seus colegas e declarou: “Acabei de decidir que vou fazer a história de Robin Hood. Vamos construir os cenários aqui mesmo em Hollywood. Vou chamar o filme de Robin Hood.” Dentre aqueles que ouviram esse discurso veemente estava o diretor do departamento de assuntos estrangeiros da Pickford-Fairbanks, Robert Florey, que relatou mais tarde: “Nunca vou me esquecer da força com que Douglas fez esse pronunciamento. Bateu o punho em uma mesa pequena. Ninguém disse nada.” Fairbanks explicou que ele e a esposa, Mary Pickford, estavam planejando comprar um estúdio – o velho Jesse Hampton Studio em Santa Monica, cercado de enormes terrenos abandonados onde cineastas podiam recriar Nottingham, o castelo de Ricardo, Coração de Leão, a floresta Sherwood, a Palestina, o acampamento de paladinos na França... Fariam milhares de figurinos, todos com base em autênticos desenhos do período, e escudos e lanças e... Finalmente, John, o irmão de Fairbanks, tomou coragem e perguntou quanto isso tudo custaria à empresa (da qual era o tesoureiro).
“Essa não é a questão!”, respondeu Fairbanks. “Essas coisas têm de ser feitas direito, ou é melhor nem fazer!”
Ao meio-dia, todos estavam de acordo com ele. Robin Hood tinha de ser feito.
Na época do lançamento (18 de outubro), Robin Hood havia custado um milhão e 400 mil dólares. Era, de longe, o filme mais caro que Hollywood já havia produzido – quase exatamente o dobro dos gastos de um recordista prévio, Intolerância, que devorou 700 mil. A Dream Factory estava entrando em uma nova fase de ambição, realização e arrogância.

Paris

Marcel Proust adentrou o Ano-Novo ficando acordado a noite toda em um baile oferecido por seus amigos aristocratas, o conde Etienne de Beaumont e sua esposa. Proust agora era famoso; e estava muito doente (na verdade, estava morrendo, não sobreviveria o ano todo). Essa última condição era bastante familiar ao romancista, que poderia muito bem ter descrito sua vida, na frase de Alexander Pope, como uma “doença prolongada”. Mas a fama ainda era uma novidade.
Proust desfrutou de sua fama, tanto quanto a saúde permitiu, embora também tivesse novas tristezas. Em janeiro de 1919, levou um baque do qual nunca se recuperou por inteiro: sua tia anunciou que vendeu o prédio onde Proust tinha seu lendário apartamento, no Haussmann Boulevard, 102, para que fosse convertido em um banco. Ele foi forçado a se mudar no final de maio e passou a maior parte do verão vivendo no número 8 bis da rue Laurent-Pichat, antes de finalmente se estabelecer na rue Hamelin, 44.
Todavia, ele continuou a trabalhar com perseverança na revisão e correção dos textos de seu romance gigantesco, apesar de a insônia e a fadiga terem feito com que seu trabalho fosse miserável. Pediu ajuda à editora, a NRF; por alguma razão incompreensível, colocaram a tarefa de corrigir as provas de texto nas mãos de André Breton. O protossurrealista foi sublimemente lento na tarefa, mas adorava os ritmos das frases de Proust e costumava lê-las em voz alta para seus assistentes.
Se algumas das doenças de Proust tinham origem psicossomática, toda a aprovação que sua obra recebeu não ajudou em nada a aliviá-las. No outono de 1921, ele sofreu um colapso e começou a exibir sinais de uremia. No começo de outubro, ele se envenenou acidentalmente com overdoses massivas de ópio e veronal. Mas continuou revisando; e quando os sintomas permitiam continuava tendo uma vida social. Em 15 de janeiro de 1922, foi ao baile do Ritz, onde foi presenteado pela srta. D’Hinnisdael com uma demonstração dos novos passos de dança que estavam em voga. Ficou impressionado: “Até mesmo quando se entrega à dança mais característica de 1922, ela ainda se parece com um unicórnio dentro de um brasão!”

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