Europa Editions
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'In the Margins' oferece um caminho para a mente de Elena Ferrante

Nesta e em outras obras, Ferrante nos lembra que o anonimato pode ser uma dádiva para o leitor

Molly Young, The New York Times

17 de março de 2022 | 15h00

Há alguns anos, Elena Ferrante aceitou um convite para dar três palestras ao público em Bolonha, Itália. O pedido era extremamente amplo: Ferrante foi convidada a falar sobre qualquer coisa que pudesse interessar ao público em geral. Qualquer coisa! Então a pandemia aconteceu e a vida pública foi interrompida.

Mas Ferrante já havia escrito os textos. Como resultado, eles foram proferidos tardiamente – no final de 2021, por uma atriz chamada Manuela Mandracchia interpretando o pseudônimo Ferrante. Uma parte do evento está disponível no YouTube, onde se pode assistir Mandracchia-como-Ferrante falar para um público de máscaras. Seu cabelo brilha em um tom magenta sob as luzes do palco; seus gestos com as mãos são hipnóticos. Mesmo que você não entenda italiano, vale a pena dar uma olhada para ver como as palestras – elaboradas para serem transmitidas oralmente na língua nativa de Ferrante – ganham vida quando emergem de um corpo humano.

O fato de o corpo não pertencer a Ferrante é a cereja do bolo conceitual para os leitores de língua inglesa. Uma autora que escreve sob um pseudônimo para um público distante em uma língua estrangeira já está a três camadas de interpretação dos leitores que agora podem ler essas palestras incandescentes, traduzidas para o inglês pela tradutora de longa data de Ferrante, Ann Goldstein. In the Margins: On the Pleasures of Reading and Writing (Nas Margens: Sobre os Prazeres de Ler e Escrever) também inclui uma quarta palestra, originalmente proferida em conferência separada por uma pessoa que também não era Ferrante.

Ferrante concebe o escritor, com um aceno para Virginia Woolf, como uma “pluralidade hipersensível toda concentrada na mão que tem a caneta”, menos uma entidade corporificada do que uma enxurrada de “pura sensibilidade que se alimenta do alfabeto”. Por isso, talvez, sua escolha de permanecer no anonimato – uma escolha que foi estimulada pela possível revelação de sua identidade por um jornalista italiano, usando registros financeiros e imobiliários. Se você acha que o enigma é mais interessante do que a revelação, no entanto, é fácil não saber o suposto nome real da autora. Nesta e em outras obras, Ferrante nos lembra que o anonimato pode ser uma dádiva para o leitor. Como é revigorante acessar as palavras sem lutar contra a névoa obscura de uma “marca”. (Se o anonimato é sua própria marca, pelo menos é uma marca com um mínimo de ruído e comoção.)

De qualquer forma, a autora respondeu generosamente, à sua maneira, à pergunta “Quem é Elena Ferrante?” A informação de um nome não é nada próximo à recompensa da autorrevelação nessas palestras e em “Frantumaglia”, uma coleção de entrevistas e correspondências originalmente publicada em 2003 e traduzida para o inglês (também por Goldstein) em 2016. Para quem deseja se enterrar na mente da autora, Ferrante preparou um túnel.

Em uma palestra, ela se refere a um caderno que mantinha quando adolescente. “O escritor”, ela escreveu, “tem o dever de colocar em palavras os empurrões que dá e os que recebe dos outros”. Interessante que “o escritor” se configura como homem – uma suposição a que Ferrante se agarra em outros pontos do livro. Mas igualmente saliente é a ideia de que a prosa é uma tradução da violência para a linguagem. A ficção de Ferrante está cheia de combate. Os encontros físicos em seus romances – não apenas aqueles que são descaradamente agressivos, mas aqueles relacionados a sexo, romance e família – muitas vezes causam repulsa.

Ela escreve sobre equilibrar seu gosto por limites e ordem – por ficar dentro das margens – com um desejo competitivo por desordem e clamor. As histórias de amor tornam-se interessantes para Ferrante no momento em que um personagem se desapaixona; mistérios ganham intriga quando ela entende que o quebra-cabeça não será resolvido; um bildungsroman (romance de formação) lhe parece satisfatório “quando fica claro que ninguém será formado”.

Em sua teoria da escrita, Ferrante se opõe a alguém como Joan Didion. Didion insistiu que escrevia para descobrir o que pensava. (“Se eu tivesse sido abençoada com um acesso mesmo limitado à minha própria mente, não haveria razão para escrever.”) No caso de Ferrante, o ato é uma transcrição falha do que ela chama de “a onda cerebral”. Para Didion, ganhou-se tudo na viagem da mente à caneta; para Ferrante, fica faltando muita coisa.

Por mais que In the Margins seja uma monografia filosófica sobre a natureza da escrita, é também um manual prático. Ferrante fornece dicas. Ela não as apresenta como tal – não há receita, apenas um esboço do que ela aprendeu e como isso a ajudou (e, por implicação, como isso pode ajudar qualquer outra pessoa).

Entre as dicas não-dicas: Renda-se à sua ambição de reproduzir, na gramática e na sintaxe, o “turbilhão de detritos” que constitui a realidade. Estude o trabalho de seus autores favoritos para o “rico repertório de truques” que eles usam para inventar, em vez de documentar, o que é real. Se escrever na terceira pessoa não funcionar para você, tente na primeira pessoa.

Discutimos a abordagem de Ferrante para a escrita. Que tal ler? Por um lado, ela é uma releitora, rondando os mesmos textos por décadas. Ela descreve a percepção alucinógena de que ler um livro é absorver, conscientemente ou não, todos os outros livros que influenciaram aquele livro, assim como os livros que influenciaram aqueles livros, e assim por diante; interpretar mesmo um parágrafo em uma página é voltar infinitamente no tempo.

Ela cita “Tristram Shandy”, de Laurence Sterne, e “Jacques, o fatalista e seu amo”, de Denis Diderot, como “livros que discutem como é difícil contar uma história e ainda assim intensificam o desejo de fazê-lo”. Esta coleção, breve e clara como está ao lado desses outros volumes, faz o mesmo. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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